Falta de diesel e fertilizante mais caro: o agro brasileiro encara os efeitos da guerra no Irã

CNA pede aumento de biodiesel no diesel para mitigar alta de preços
CNA pede aumento de biodiesel no diesel para mitigar alta – Reprodução

O produtor rural Vandir Daniel da Silva, de Itapeva, no sudoeste paulista, está em pleno período de colheita da soja. Mas enfrenta um problema que não passava pela sua cabeça menos de um mês atrás: a dificuldade de conseguir óleo diesel para suas colheitadeiras. Tudo por causa de um conflito que, a verdade, se desenrola a mais de 12 mil km de distância: a guerra no Irã.

Vandir conta que precisa, diariamente, de 400 litros de óleo diesel para fazer a colheita. Mas já não está conseguindo comprar esse volume. Segundo ele, o posto no qual costuma adquirir o combustível, que contava com um volume de 30 mil litros por dia, recebeu, na quinta-feira, 19, apenas 8 mil. “Já estão racionando e o receio é de faltar.” Isso sem contar a alta de preço: o litro do diesel S10, que antes da guerra custava R$ 5,70, agora está sendo vendido a R$ 8, diz o produtor.

Os problemas com abastecimento de óleo diesel são, até o momento, a face mais visível dos impactos que a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã podem provocar no agronegócio brasileiro, e que têm deixado todo o setor em alerta. Há uma grande preocupação com o choque de custos por conta do aumento dos preços de petróleo, fretes e fertilizantes. Mas o receio envolve também questões como o risco logístico, com bloqueios de rotas comerciais, aumento do custo de seguros marítimos e dúvidas quanto à disponibilidade de contêineres. Tudo isso afeta o fluxo de exportações, competitividade e as margens do setor.

A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) concorda que esse é um momento delicado para o setor. “A preocupação número um é com o diesel, com preços e normalidade de abastecimento”, diz o diretor técnico da CNA, Bruno Lucchi. Mas ele também destaca o diagnóstico conjuntural do agronegócio, que enfrenta juros elevados, endividamento alto e margens achatadas. “O conflito é um fator que vai onerar ainda mais o produtor.”

Para tentar amenizar o problema de abastecimento de óleo diesel, o governo federal anunciou algumas medidas na semana passada. Entre elas, zerar a cobrança de PIS e Cofins e conceder um subsídio de R$ 10 bilhões para produtores e importadores. Também reforçou a fiscalização sobre as distribuidoras de combustíveis, para tentar coibir eventuais aumentos abusivos de preços. Mas poucos acreditam que essas medidas consigam realmente surtir o efeito desejado – até porque ninguém sabe até onde vai o preço do petróleo, que depende muito da intensidade e da duração da guerra.

Enquanto isso, agricultores de todo o País vivem um momento delicado com o desabastecimento do diesel, que movimenta tanto as colheitadeiras no campo quanto os tratores que preparam a terra para os novos plantios.

“Revivemos o fantasma da crise do petróleo da década de 70; se naquela época reagimos com o Proálcool e a fundação da Embrapa, hoje colhemos os frutos amargos da falta de planejamento estratégico de longo prazo – um Plano Brasil”, afirma Tirso Meirelles, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (FAESP).

Na sexta-feira, 20, o produtor rural Edimilson Roberto Rickli, de Prudentópolis, na região dos Campos Gerais paranaense, foi ao posto de abastecimento e descobriu que só havia sido entregue metade da quota de diesel. “A refinaria está segurando, talvez para esperar outra alta no preço. Está no pico da colheita da soja e há risco de faltar”, diz. ”As máquinas estão no campo e ainda precisam trabalhar de 10 a 15 dias, com consumo altíssimo. Não sabemos se vai haver combustível suficiente.”

Rickli, que produz soja, milho, feijão, trigo e cevada, é também presidente do Sindicato Rural de Prudentópolis. Além do diesel que, segundo ele, desde o início do conflito, subiu de R$ 5,50 o litro para R$ 8, os fertilizantes também tiveram reajustes. Ele vai iniciar o preparo do solo para o plantio de inverno, que acontece entre os meses de maio e junho, e não sabe se terá os insumos para a nova lavoura. Produtores filiados ao sindicato já relataram falta, diz. “Tem também o frete, que já subiu, e precisamos escoar a produção. O custo vai lá pra cima.”

O presidente do Sindicato Rural de Cianorte (PR), Diener Gonçalves de Santana, diz que na região noroeste do Estado os produtores já fazem contas para não ficar sem diesel durante a safra. “A colheitadeira consome de 200 a 400 litros por dia, conforme o modelo. Você abastece de manhã e precisa reabastecer à tarde, pois são entre 25 a 30 litros por hora. As máquinas usadas no preparo do solo, para fazer carreadores e curvas de nível, gastam 18 litros por hora. O pior é que está difícil fazer um estoque mínimo, mesmo com o diesel a R$ 7,50 ou mais.”

Santana conta que, no domingo, 8, foi ao posto abastecer um caminhão e o diesel estava a R$ 5,69. “Voltei no último domingo (15) e já estava a R$ 6,89. Subiu R$ 1,20 em uma semana, e tinha fila para abastecer. Os produtores todos estão muito preocupados, pois o maquinário não pode parar. Trabalhamos com agricultura de precisão, com janelas (espaços de tempo ideais) para plantio, manejo da lavoura e colheita. Quando chega a hora, não dá para postergar, então tem muito produtor perdendo o sono.”

Vandir Daniel, de Itapeva, diz que, no caso dos fertilizantes, o impacto da guerra no preço tem sido grande. O maior problema está na ureia, que o Brasil importa praticamente 80% do Irã. “Nós pagamos até R$ 3,2 mil a tonelada na safra passada, hoje está em R$ 5,2 mil. Subiu R$ 2 mil por tonelada.” A ureia entra na composição do adubo usado em plantios como o de milho safrinha (como é chamada a segunda safra do produto) e é usada na lavoura após a germinação. “Estou plantando trigo e uso a ureia na cobertura do trigo, mas já vou pagar R$ 5,2 mil.”

Situação de emergência

No Rio Grande do Sul, o município de Formigueiro, na região central do Estado, decretou situação de emergência por conta da crise no abastecimento e do aumento excessivo dos preços dos combustíveis, que “já impactam o escoamento da safra agrícola”. O decreto foi assinado no último dia 17 pelo prefeito Cristiano Cassol e autoriza a prefeitura a adquirir combustível sem licitação.

Segundo o prefeito, a agricultura é o pilar econômico do município e a safra corre o risco de se perder também pela falta de diesel para operar as máquinas de manutenção das estradas.

A prefeitura de Tupanciretã (RS) também decretou emergência. O prefeito Gustavo Terra diz que parte do maquinário da prefeitura, usado para conservar as estradas rurais, está parada temporariamente para economizar combustível e direcioná-lo para serviços essenciais. Em vídeo, ele diz que, às vésperas de escoar a safra, está havendo racionamento nos postos de combustíveis. “O preço que está sendo cobrado dos produtores rurais é abusivo, de até R$ 9 o litro de diesel”, diz.

O produtor Laurindo Nikititz, de Santo Ângelo, no noroeste gaúcho, diz que as TRR (transportador, revendedor, retalhista, empresas autorizadas a comprar diesel a granel e revender aos produtores) não estão enviando combustível para as propriedades. “Você encomenda 15 mil litros, vem 5 mil. O que mais se vê na cidade é produtor rodando os postos para tentar achar diesel e fazer estoque para o dia a dia. O preço está batendo em R$ 8,50 o litro.”

O produtor, que integra a diretoria do sindicato rural, projeta um cenário de crise que vai se ampliar. “Estamos iniciando a colheita de soja. O milho já foi colhido, mas precisa ser escoado para os portos ou armazéns das empresas, e o frete subiu 38%. Estão se aproveitando do momento de guerra lá para subir os preços. Tem distribuidoras segurando os estoques. A guerra não é só lá, aqui também tem uma guerra comercial”, diz.

O presidente do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), Ágide Eduardo Meneguete, diz que produtores de algumas regiões do Estado reportaram falta de diesel e suspeita de represamento pelas TRR. A Faep acionou o Procon.

Na quinta-feira, 19, o Procon do Paraná começou a notificar postos de combustíveis por suspeita de aumento abusivo nos preços. Equipes da Coordenação Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor estiveram presencialmente em alguns endereços de Curitiba e enviaram notificações para postos sediados em municípios do interior. Os postos notificados terão 20 dias para prestar esclarecimentos.

Meneguete diz que a entidade trabalha agora para aumentar em até 20% a mistura de biocombustível no diesel, que hoje está em 15%, para que o preço seja reduzido. A Faep defende também a mistura de etanol no combustível. “Além de ser indispensável na lavoura, o diesel representa 40% do custo do frete e esses aumentos vão impactar nas prateleiras dos supermercados”, diz. ”Hoje, estamos vivendo no campo uma tempestade perfeita: venda limitada de combustível no final da safra, alta e escassez de ureia para o novo plantio e ameaça de uma greve de caminhoneiros. Mas, mesmo com tudo isso, o produtor não pode deixar de plantar”, diz Meneguete.

Para Tirso Meirelles, da Faesp, o produtor brasileiro é sinônimo de resiliência e fé. “Ele literalmente enterra o capital na terra sem saber o que esperar do cenário ‘fora da porteira’. O Brasil precisa agir agora para que o custo dessa crise não recaia inteiramente sobre quem produz e quem consome.”

T CSM

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