Famílias cobram respostas e acusam omissão após mortes na UTI do Hospital Anchieta

Por Daniel Xavier, com Camila A. Coimbra e Mateus Souza

As prisões de três técnicos de enfermagem suspeitos de envolvimento em mortes ocorridas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta, em Taguatinga, abriram uma ferida profunda para as famílias das vítimas, que agora enfrentam um novo luto: o de descobrir que despedidas antes atribuídas ao avanço de doenças podem, na verdade, ter sido provocadas por ações criminosas. Advogados que representam os parentes afirmam que o hospital foi omisso no acolhimento às famílias e que medidas judiciais já estão sendo preparadas para responsabilizar a instituição.

Segundo a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), três pacientes — com idades de 75, 63 e 33 anos — morreram após a aplicação irregular de medicamentos e, em pelo menos um dos casos, de substância letal e de desinfetante hospitalar diretamente na veia. A PCDF trata as mortes como homicídios, e a investigação está sob segredo de Justiça.

O principal investigado é o técnico de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, apontado como executor das ações, inclusive tendo usado o login de um médico para prescrever medicamentos no sistema do hospital e, em um episódio, aplicado desinfetante mais de dez vezes em uma das vítimas depois que a substância que ele usava havia acabado. As outras duas técnicas, Amanda Rodrigues de Sousa, de 28 anos, e Marcela Camilly Alves da Silva, de 22 anos, também foram presas suspeitas de conivência ou auxílio.

Confissão

Marcos Vinícius confessou os crimes após ser confrontado com imagens de câmeras de segurança da UTI do Hospital Anchieta, em Taguatinga. Em depoimento, ele apresentou versões contraditórias: primeiro afirmou que teria perdido o controle emocional durante um plantão tumultuado; depois, declarou que teria cometido os atos para “aliviar o sofrimento” das vítimas. Segundo a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), ele injetou doses elevadas de medicamentos de forma intencionalmente letal e, em um dos casos, aplicou desinfetante diretamente na veia da paciente.

De acordo com os delegados Wisllei Salomão e Maurício Iacozzilli, as imagens analisadas mostram que, na primeira vítima, a equipe médica reverteu quatro paradas cardíacas, mas o técnico voltou a aplicar a substância até provocar o óbito na quinta tentativa. Os investigadores relataram frieza e ausência de arrependimento durante os interrogatórios. A polícia informou que não há novas atualizações no momento e que a apuração entra agora em fase de aprofundamento e análise detalhada das provas já reunidas.

As duas técnicas de enfermagem foram presas por suspeita de dar cobertura às aplicações irregulares. As gravações indicam que ambas acompanharam os procedimentos e adotaram condutas para evitar que terceiros percebessem as ações. A polícia também esclareceu que a menção a “mais de 20” refere-se ao número de laudos em elaboração, e não à quantidade de mortes sob investigação.

Descaso

Para os familiares, no entanto, a investigação criminal é apenas uma parte do problema. O advogado Vagner de Paula, que representa a família de Marcos Raymundo Fernandes Moreira, afirma que o hospital não fez qualquer contato com os parentes após a revelação dos fatos. “O hospital não se manifestou até agora, não procurou a família para nada, não prestou qualquer tipo de esclarecimento ou apoio. Foi totalmente omisso. Limitou-se a divulgar um comunicado à imprensa”, declarou.

De acordo com o advogado, a família havia aceitado a morte como consequência do quadro clínico do paciente. A revelação de que o óbito pode ter sido provocado de forma intencional reabriu o sofrimento. “Todo mundo já tinha se conformado com a morte por uma fatalidade. De repente, a polícia aponta que foi praticamente um homicídio. O luto voltou com tudo”, afirmou.

Diante desse cenário, a defesa prepara uma ação judicial contra o hospital. “Vamos ingressar com pedido de indenização por danos morais e reparação civil. A intenção é responsabilizar o hospital pelo que aconteceu. Não se trata apenas da conduta individual de um funcionário, mas de falhas no dever de cuidado, vigilância e segurança”, disse Vagner de Paula.

O impacto emocional sobre os familiares, segundo o advogado, é intenso. Ele representa a mãe e a esposa da vítima, que não se sentem em condições de falar publicamente. “A mãe começa a falar e chora. Está profundamente abalada. Até para mim, como advogado, está sendo difícil colher informações para montar o processo”, relatou.

Situação semelhante vive a família do servidor público da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), João Clemente Pereira, de 63 anos. O advogado Elias Manoel Pereira Dias, que representa os parentes, divulgou nota em que manifesta pesar e indignação diante das revelações. Segundo ele, a família sempre acreditou que a morte havia ocorrido por causas naturais, compatíveis com o estado de saúde do paciente, que, conforme o informado, sofria de uma pancreatite aguda.

“A família só tomou conhecimento, no dia 16 de janeiro, de informações que indicam circunstâncias extremamente graves e incompatíveis com uma morte natural”, afirmou o advogado. Para ele, a descoberta de que há outras possíveis vítimas amplia ainda mais o sofrimento. “Passaram a compartilhar a dor com outras famílias, todas igualmente surpreendidas”, escreveu.

Responsabilização

Na nota, Elias Dias destaca que o crime investigado possui “extrema gravidade” e que, embora o inquérito esteja sob sigilo, a família pretende adotar todas as medidas legais cabíveis. Além da responsabilização criminal dos envolvidos, a defesa avalia a responsabilização civil do hospital, diante de possíveis falhas estruturais e de fiscalização. “Há indícios de falha no dever de cuidado, vigilância e segurança”, ressaltou.

Enquanto as famílias buscam respostas, a investigação policial segue em fase de apuração de novas frentes. A PCDF trabalha, inclusive, para verificar se o principal suspeito pode ter ligação com mortes em outras unidades de saúde — como uma UTI pediátrica de outro hospital — e se há padrões semelhantes em outros lugares onde os envolvidos trabalharam anteriormente.

Delegados da Coordenação de Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP) confirmam que analisam prontuários, imagens de câmeras de segurança e registros internos dos hospitais, e avaliam se outras pessoas contribuíram para os crimes. Até o momento, três mortes são tratadas como confirmadas.

As apurações indicam que Marcos Vinícius teria utilizado o sistema do hospital para prescrever substâncias em doses letais, retirado os medicamentos na farmácia e aplicado diretamente nas veias dos pacientes, levando-os a sofrê-las paradas cardíacas. Em uma das mortes, após várias tentativas de aplicar o medicamento letal, ele teria recorrido ao uso de desinfetante.

Para os advogados das famílias, essa narrativa não se sustenta como justificativa. “Não há qualquer justificativa ética, médica ou legal para esse tipo de conduta. Se confirmados os fatos, trata-se de homicídio, não de erro ou excesso”, avalia uma das defesas.

O Hospital Anchieta informou, em nota, que instaurou um comitê interno ao identificar “circunstâncias atípicas” nos óbitos e que encaminhou o caso às autoridades, colaborando com as investigações e tendo contactado as famílias das vítimas para prestar esclarecimentos, segundo a instituição.

T CSM

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