Hospital Anchieta afirma que mortes na UTI foram resultado de ato criminoso deliberado

Por Daniel Xavier

O Hospital Anchieta, em Taguatinga (DF), afirmou que as mortes de três pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da instituição foram resultado de uma ação criminosa deliberada, praticada de forma intencional e isolada por profissionais de enfermagem. A declaração consta em nota de esclarecimento atualizada divulgada neste ultimo domingo (25), em meio às investigações conduzidas pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF).

Segundo o hospital, os indícios de irregularidades foram identificados pelos próprios mecanismos internos de controle da instituição, o que levou ao acionamento imediato das autoridades policiais. A direção sustenta que atuou de maneira proativa desde os primeiros sinais de anormalidade, colaborando integralmente com as investigações e fornecendo provas que teriam sido decisivas para interromper a ação criminosa.

A principal linha de investigação da PCDF aponta o técnico de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, como o autor das mortes de Marcos Raymundo Fernandes Moreira, 33; João Clemente Pereira, 63; e Miranilde Pereira da Silva, 75. Os óbitos ocorreram entre os dias 17 de novembro e 1º de dezembro de 2025, enquanto as vítimas estavam internadas na UTI do hospital.

Além de Marcos Vinícius, também são investigadas as técnicas de enfermagem Marcela Camilly Alves da Silva, 22, e Amanda Rodrigues de Sousa, 28. De acordo com a polícia, ambas teriam atuado de forma consciente, dando cobertura ao principal suspeito durante aplicações irregulares de substâncias nos pacientes. A PCDF não descarta a existência de outras vítimas e já informou que novas denúncias de familiares estão sendo apuradas em inquéritos específicos.

Investigação aponta motivação por prazer

Na quarta-feira (21), o delegado Maurício Iacozzilli, da Coordenação de Repressão a Homicídios e de Proteção à Pessoa (CHPP), afirmou que a hipótese mais consistente até o momento é a de que Marcos Vinícius teria cometido os crimes por prazer. Segundo ele, as versões apresentadas pelo investigado não se sustentaram diante das provas reunidas.

Em depoimento, o técnico inicialmente alegou ter agido sob estresse do plantão. Posteriormente, afirmou que teria sentido pena dos pacientes e buscava aliviar o sofrimento. As justificativas, segundo a polícia, foram descartadas após a análise das imagens das câmeras de segurança e dos registros internos do hospital.

Reconstituição pericial revela sequência dos crimes

Hospital Anchieta afirma que mortes na UTI foram resultado de ato criminoso deliberado – Foto: Reprodução

Apuração exibida pelo Fantástico, da TV Globo, revelou detalhes da reconstituição feita pela perícia, que descreve a sequência de atos que levou à morte de pelo menos dois dos pacientes.

No caso de Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos, a perícia aponta que ela estava internada com quadro de constipação e era considerada clinicamente estável. Na manhã de 17 de novembro, câmeras do hospital registraram a paciente consciente e conversando. Cerca de uma hora depois, Marcos Vinícius acessou o sistema interno do hospital utilizando a senha de médicos que não estavam de plantão, para registrar a prescrição de cloreto de potássio, substância que não havia sido indicada para a paciente.

Após buscar o medicamento na farmácia da UTI, o técnico aplicou a primeira injeção, provocando uma parada cardíaca. Miranilde foi reanimada pela equipe e sobreviveu. Cerca de 40 minutos depois, uma segunda aplicação resultou em nova parada cardiorrespiratória. A paciente voltou a ser reanimada. Outras duas aplicações ocorreram na sequência, incluindo a injeção de desinfetante, levando à quarta parada cardíaca e, desta vez, à morte da paciente. “Eu pensando que ele estava salvando a minha mãe, ele estava matando cada vez mais a minha mãe”, relatou ao Fantástico Kássia Leão, filha de Miranilde.

De acordo com o presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira no DF, Alexandre Amaral, o uso indevido do cloreto de potássio pode causar arritmias graves e parada cardíaca imediata, a depender da dosagem e da velocidade da aplicação.

Na mesma noite, segundo a investigação, Marcos Vinícius teria feito aplicações semelhantes em João Clemente Pereira, incluindo cloreto de potássio e desinfetante. Ele morreu na madrugada do dia seguinte. Já Marcos Raymundo Moreira, internado no dia 18 de novembro com suspeita de pancreatite, morreu após sofrer uma nova parada cardíaca em 1º de dezembro, também após receber uma injeção do técnico.

Prisões e desdobramentos

Marcos Vinícius está preso temporariamente na carceragem da Polícia Civil do DF. As técnicas Marcela Camilly e Amanda Rodrigues foram encaminhadas à penitenciária feminina. Segundo a PCDF, ambas presenciaram as aplicações e não tomaram nenhuma medida para impedir os resultados. Desdobramentos recentes das investigações indicam que uma quarta técnica de enfermagem também passou a ser investigada. Apesar de não ter sido presa, a polícia realizou buscas e apreensões em endereços ligados a ela. O nome ainda não foi divulgado.

Versões da defesa

Em coletiva realizada na sexta-feira (23), o advogado Liomar Santos Torres, que representa Amanda Rodrigues, afirmou que sua cliente nega qualquer participação nas mortes e se considera vítima de Marcos Vinícius. Segundo a defesa, o técnico teria tentado aplicar uma medicação nela, e a relação entre os dois teria sido marcada por manipulação.

A defesa de Marcos Vinícius informou, em nota, que os fatos seguem sendo apurados em inquérito policial sob sigilo e que não há, até o momento, denúncia ou decisão judicial. Já a defesa de Marcela Camilly afirmou que a técnica lamenta profundamente o ocorrido e confia que sua dignidade será restabelecida ao longo do processo.

Hospital diz que também foi vítima

Hospital Anchieta afirma que mortes na UTI foram resultado de ato criminoso deliberado – Foto: Reprodução

Na nota, o Hospital Anchieta afirma que repudia os crimes investigados, manifesta solidariedade às famílias das vítimas e sustenta que também foi vítima da ação criminosa. A instituição reforça que os atos não refletem sua trajetória nem a conduta da maioria de seus profissionais. O hospital destaca que mantém há mais de 18 anos uma comissão técnica multiprofissional responsável por analisar todos os óbitos registrados na unidade, mecanismo que teria sido fundamental para a rápida identificação da conduta criminosa. 

A instituição também afirma possuir câmeras de monitoramento em todos os 100 leitos de UTI, sistema que possibilitou a obtenção de provas consideradas inequívocas pela polícia.

Segundo o Anchieta, sistemas de segurança hospitalar são desenhados para evitar falhas humanas não intencionais, e não para conter atos criminosos dolosos e premeditados. Ainda assim, a direção afirma que a atuação célere da instituição foi decisiva para interromper o que poderia ter causado danos ainda maiores, inclusive em outros locais onde o principal suspeito atuava.

T CSM

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