Impactos da chuva forte que atingiu as casas de moradores da Vila Cauhy

Após uma semana de alertas severos e o registro recorde de 102 mm de chuva no último domingo, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Distrito Federal começa a ver a dissipação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). De acordo com o órgão, a tendência para os próximos dias é de chuvas isoladas e aumento gradual das temperaturas, que podem chegar aos 29°C. O recuo do alerta laranja para o amarelo marca o fim do período de transtornos críticos causados pelo sistema que castigou a capital e as demais regiões administrativas.

Enquanto o céu começa a abrir em Brasília, o rastro deixado pelo temporal ainda é presente na Vila Cauhy. A casa do autônomo Hudson Lázaro Batista de Lima da Silva, 51 anos, foi tomada pela água no último domingo. Morador da região há mais de uma década, ele relata que o problema é crônico. “A gente sempre teve essa dificuldade. Já tem uns três ou quatro anos que passamos por isso. Toda vez que chove forte, a água entra”, lamenta. Hudson acredita que o gargalo esteja no sistema de escoamento: uma manilha antiga na porta de sua casa estaria entupida, impedindo a vazão. “Na hora em que a água deveria escorrer, ela acumula e invade tudo”, afirma. Nem mesmo uma mureta construída recentemente para proteger móveis e eletrodomésticos foi suficiente. “A água sobe por cima do portão. Praticamente toda a vizinhança sofre com isso.”

A segunda-feira foi dedicada à limpeza e ao planejamento para tentar evitar novos prejuízos. Hudson conta que a chuva começou fraca no domingo, quando saiu com a esposa para organizar a igreja que frequentam. “Não imaginei que aconteceria o que aconteceu. Mas a chuva engrossou e minha filha, que ficou em casa, avisou que a água já estava batendo no joelho”.

Apesar do cenário, ele reforça que ninguém se assustou, pois até as crianças já se habituaram à rotina de inundações. “Começamos a puxar a água com a ajuda das minhas filhas pequenas”, relatou. Desta vez, a família tenta salvar o que restou; armários foram afastados da parede e secos com a ajuda de ventiladores durante todo o dia. Roupas e objetos foram empilhados sobre mesas e camas para escapar da umidade. “Já jogamos muita coisa fora em outros anos: armário, cama, guarda-roupa, estante. Todo ano é a mesma história. A gente luta para conquistar e perde tudo de novo”, desabafa.

O dono da padaria da vizinhança, Francisco Neto da Silva Souza, 66 anos, também teve o estabelecimento invadido pela água das chuvas, que acabou represada e sem vazão para escoar. Na casa onde ele e a mulher moram, ao lado da padaria, não tiveram grandes problemas, mas no local onde a padaria abriu há pouco tempo, tudo estava alagado no domingo. “Mas os bombeiros vieram ajudar, mandaram que nós desligássemos as três geladeiras para não dar problema”, contou. Ele também descreveu que a água veio até os joelhos, mas que nenhum dano permanente foi causado aos equipamentos. “Agora está tudo normal, secamos tudo”, comentou. 

Ele também ressaltou que depois que foi construído o sistema de contenção no Córrego Riacho Fundo — com muros de pedra para evitar transbordamentos — os problemas que eram maiores diminuíram, mas o escoamento causado pela manilha da rua ainda atrapalha os moradores da área. “A água aqui bateu nos joelhos, mas teve um vizinho, um senhor de idade, que na casa dele, a água bateu quase na cintura”, finalizou.

Carlos de Sousa, 62 anos, autônomo, mora na Vila Cauhy desde 1999 e contou que sempre acontecem essas enchentes na região. ‘Na nossa rua, antes de botar os bloquetes já tinha enchente, e depois que colocamos também continuou porque não tem esgoto’, pontuou. Ele explicou que, como as manilhas colocadas na área são da década de 1960, não suportam o volume de água da chuva e com isso, a água volta pelos encanamentos dos banheiros e sai pelos ralos e caixas de esgoto.

Ele acredita que é preciso melhorar a infraestrutura do local para que o sofrimento da vizinhança acabe de uma vez. ‘Na minha casa, a água entrou pelo ralo e pela caixa de esgoto. Porque as manilhas enchem e, onde a água acha buraco, ela entra’, descreveu. Na hora, o jeito de resolver o problema foi enchendo baldes para retirar a água da casa. ‘Depois, fizemos a limpeza do barro e da lama espalhada por todos os lados. No domingo mesmo terminamos a limpeza para seguir a vida’. Ele agradeceu por não ter perdido nenhum móvel e mencionou que o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal (CBMDF) esteve na rua para atender os vizinhos na hora da inundação. ‘Mas a água levou bloquete da rua e deixou buracos por toda parte’.

Até o fechamento desta edição, ao ser procurado pela equipe de reportagem do Jbr para saber sobre as ocorrências relacionadas à chuva de domingo para a segunda-feira, o CBMDF não retornou ao contato.

Chuvas podem diminuir 

Para o JBr, o meteorologista do Inmet, Rafael Lê Masson, explicou que o volume histórico de chuva registrado no domingo foi provocado pela atuação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). “Nós tivemos um aviso laranja muito bem trabalhado. Na estação do Plano Piloto, foram 102 mm registrados, com chuvas que chegaram a 50 mm em apenas uma hora logo após o almoço”, explicou. Rafael salientou que mesmo com o sistema perdendo a força, a umidade acumulada ainda ia manter o DF sob alerta amarelo na segunda-feira.

Ele explicou que a temperatura máxima pode ficar entre 25°C e 28°C no começo da semana, porque a nebulosidade ajuda a frear o calor, mas a tendência é que a temperatura suba 1 ou 2 graus nos próximos dias. “A ideia é que as chuvas diminuam ao longo da semana e as temperaturas voltem a subir. Nós podemos chegar até 29°C na quarta-feira”, comentou. Já as mínimas também devem subir, passando de 16°C para 18°C ou 20°C na quarta e quinta-feira, que segundo Rafael, serão os dias mais quentes. Sobre a umidade, o especialista descreveu que o ar estava saturado em 100%, mas agora a umidade máxima deve ficar entre 80% e 90%. A quantidade de nuvens grandes, que causam chuvas de muito volume, também deve diminuir, dando lugar a nuvens menores.

Recomendações e segurança

Mesmo com o recuo do alerta laranja, o especialista ressaltou que os riscos ainda continuam e a possibilidade de raios e alagamentos repentinos ainda pode acontecer. Ele alertou que pode ter bolsões de água nas ruas, aquaplanagem e até cheias repentinas em cachoeiras. Por isso as recomendações para o período chuvoso continuam: “As descargas atmosféricas são muito perigosas. Se a pessoa estiver em campo aberto e perceber o risco, deve tentar se abrigar em um prédio ou casa, e nunca embaixo de árvores, que podem virar para-raios”, indicou. Para quem for pego em local descoberto e sem abrigo próximo, o especialista orientou que a pessoa fique com os pés unidos e se agache. “A chance de um raio cair nela é muito menor.”

O meteorologista pontuou ainda que o Inmet monitora o clima e o tempo do DF em tempo real e pode elevar o nível do aviso caso as análises indiquem nova severidade. Por isso é sempre recomendável que as pessoas acompanhem os sinais de alerta no site da instituição e também se inscrevam para receber as mensagens da Defesa Civil. “O aviso diz respeito à possibilidade de um evento que causa transtornos. Cabe a nós praticar o autocuidado e prestar atenção na evolução do tempo no dia a dia”, finalizou.

Regularização

Walter Marques Siqueira, prefeito comunitário da Vila Cauhy, explicou que os incidentes deste final de semana, com água entrando em casas e subindo até o tornozelo, estão diretamente ligados à falta de infraestrutura. Mas ele apontou que o Córrego Riacho Fundo suportou bem o volume, e que o problema foi a força da enxurrada. Walter contou que o administrador regional esteve na Vila depois das enchentes e que houve uma reunião com a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) para buscar alternativas de escoamento e sanar os problemas que afligem os moradores. Para Walter, a solução definitiva depende da regularização da área, mas este é um processo que já dura 20 anos. Ao ser procurada pela equipe de reportagem, a administração do Núcleo Bandeirante — responsável pela Vila Cauhy — não retornou à demanda até o fechamento da edição.

Saiba mais

A neblina que atingiu Brasília na manhã da última segunda-feira impactou diversas regiões do DF e também gerou consequências para as operações aéreas do Aeroporto de Brasília. Segundo a Inframerica, administradora do aeroporto, devido à baixa visibilidade provocada pela densa massa de ar, 40 voos alternaram para outros terminais aéreos. Por volta de 10h, os voos começaram a retornar e pousar em Brasília. Cerca de 34 voos tiveram que ser cancelados, sendo 11 de chegada e 23 de partida. Mas, de acordo com a operadora, ainda pela manhã o aeroporto voltou a operar em modo visual.

T CSM

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