A vizinhança da QI 15 do Lago Sul tem reclamado de transtornos relacionados ao funcionamento de uma academia próxima à quadra. O impasse entre as partes tem gerado incômodo, já que, segundo os moradores, as vias residenciais foram tomadas por veículos de clientes e funcionários do empreendimento. Os residentes denunciam, inclusive, abordagens agressivas e falta de segurança nas portas de suas casas. A equipe de reportagem foi até o local para conferir o cenário e ouvir o posicionamento de todos os envolvidos.
O empresário Filipe Rizzo, de 49 anos, mora no conjunto 4 da QI 15 há quase 20 anos. Ele contou à equipe do JBr que a situação com a academia teve início desde o começo das atividades do empreendimento na região, em 2025. “Essa academia diz ter 800 alunos e aproximadamente 30 vagas de estacionamento. Então, obviamente não estão preparados para receber essa quantidade de pessoas”, comentou. Além disso, Filipe argumentou que, no comércio onde a academia funciona, também estão abertos outros empreendimentos, como um restaurante, uma clínica de dermatologia e uma loja de vinhos. “Além dos alunos, você pode somar todo esse fluxo de pessoas. Por isso, a gente já previa que isso ia trazer transtorno.”
Filipe destacou que ele e os vizinhos consultaram a administração e não obtiveram respostas; mesmo com os questionamentos, a academia foi inaugurada e deu início às atividades, tendo como consequência a ocupação das ruas residenciais, o que atrapalha a vida dos moradores. “Um dos sócios colocou o telefone dele à disposição para direcionar as dúvidas e nos ajudar. Mas, desde o começo, ele falou que ia conversar com os funcionários para que não estacionassem nas quadras residenciais, que o estacionamento dos carros deveria ser no comércio e não nas ruas residenciais. Fez todas essas promessas, mas nunca foram cumpridas”.
Segundo Filipe, os manobristas do empreendimento têm utilizado as ruas residenciais como estacionamento preferencial desde o começo. “Além dos próprios manobristas utilizarem, os clientes que não querem o serviço de valet já param na nossa quadra direto e caminham para lá”, acrescentou. Os fornecedores do restaurante e os caminhões e vans também ocupam essas ruas. “A gente vem reclamando e eles sempre falam: ‘Olha, isso aí não é comigo, é coisa do cliente, é meu funcionário’, ou ‘isso não é comigo, é com o meu parceiro, é meu terceirizado’, o que quer que seja”. O medo de Filipe e dos vizinhos é que o fluxo de veículos impacte cada vez mais o trânsito, aumentando a possibilidade de acidentes na região.
Intimidação
Mas o impasse entre os moradores e a academia aumentou quando Filipe foi confrontado por um prestador de serviço que estava estacionado na rua em que o empresário mora. Ele descreveu que, no sábado, dia 10 de janeiro, foi levar o filho para brincar e, na volta, na frente da quadra, havia um carro parado e, do outro lado do veículo, estava a motocicleta do condutor que faz o “leva e traz” dos manobristas, ocupando uma pista inteira. “Eu chamei a atenção dele. Apontei que ele estava ocupando aquele espaço inteiro. Foi quando ele me fez um sinal com o dedo do meio e se aproximou, perguntando quem eu era e se eu queria brigar. Ele usou um tom intimidador e eu estava com meu filho no carro”, disse. Filipe tem registros visuais do ocorrido e foi até a delegacia mais próxima fazer um boletim de ocorrência.
Para ser justo, Filipe ressaltou que, ao entrar em contato com o proprietário da academia, o mesmo se colocou à disposição para resolver a situação. Mas, no dia seguinte, sem a autorização de Filipe, o proprietário da empresa de serviços de manobristas entrou em contato por telefone, quando o empresário acreditava que o assunto deveria ser tratado diretamente com a academia. A partir de então, a comunicação com o representante da academia ficou difícil. “Ele falou que não era com ele e depois disse nas mensagens: vai falar com a sua mãe”.
De acordo com os prints salvos das conversas com o proprietário da academia, não é a primeira vez que a comunicação com os donos da academia acaba mal. Os registros mostram frases com um tom mais agressivo. “Em outras mensagens que a gente tem guardadas, ocorreu um incidente com o carro de um cliente dele na outra rua. E ele passou a mensagem: ‘Olha só, dobraram o retrovisor do meu cliente. Isso não pode ficar assim. Se vocês não me ajudarem, eu vou partir para atrapalhar’”, contou. Por isso, Filipe acredita que a situação ficou insustentável. Ele e outros vizinhos se juntaram para procurar as autoridades e tentar resolver, perante a lei, todo o impasse. “A gente não quer nem que eles parem de funcionar; podem funcionar, mas que funcionem obedecendo às regras, não só as de convivência, como por exemplo, não mandar ninguém procurar a mãe, e as normas legais”, pontuou.
Resposta das autoridades
De acordo com Filipe, a vizinhança se reuniu e registrou queixas na Secretaria de Estado de Proteção da Ordem Urbanística (DF Legal), na Administração Regional do Lago Sul, no Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) e também no Ministério Público (MP). Como Filipe acrescentou, o mesmo indivíduo que o teria ofendido também teria trocado de roupa no meio da rua antes de confrontá-lo. Por isso, ele achou necessário procurar o Ministério Público do Trabalho (MPT) também, uma vez que o dono da empresa de manobristas teria indicado que o prestador de serviços seria alguém que faz “bicos” para a empresa de vez em quando. “O Ministério Público do Trabalho teria que averiguar isso e também que tipo de fornecedor essa empresa, que se diz seis estrelas, utiliza”, afirmou.
Ao JBr, o Detran-DF informou que, de acordo com as imagens registradas pelos moradores, as ocorrências dizem respeito exclusivamente a infrações de trânsito relacionadas a estacionamento irregular, não se caracterizando como ocupação irregular de área pública nem como irregularidade urbanística. Em nota, o órgão ressaltou que, por se tratar de um local de uso misto, com atividades comerciais e residenciais, não foi constatada a ocupação irregular de vagas. Mesmo assim, a autarquia afirmou que irá intensificar as ações de fiscalização no local.
O JBr também procurou a DF Legal que, em resposta, informou ter realizado uma vistoria no local no dia 17 de novembro, após reclamações feitas via Ouvidoria. Na ocasião, foi verificado que a Academia Six Sport Life possui o Registro de Licença de Estabelecimento (RLE) e não realiza ocupação de área pública. As vagas de estacionamento utilizadas são comuns a todos que frequentam o comércio daquela localidade. “Dessa forma, não cabe atuação da pasta dentro das competências que possui”, finalizou em nota.
Mudança na dinâmica residencial
O advogado Renato Lobo, de 52 anos, é vizinho de Filipe na QI 15 e também se preocupa com o uso das ruas residenciais como estacionamento por parte dos usuários e funcionários da academia. Para Renato, aquela região do Lago Sul é familiar desde seus 14 anos de idade, por isso, ele conhece a dinâmica da quadra e da maioria dos comércios que por ali passaram. “Certa vez, eu estava indo levar minha filha para a escola, e meu filho ia sair para a faculdade. Minutos depois, tive que passar na academia e pedir uma gentileza para o manobrista”, afirmou. Um carro estava estacionado na frente da garagem, impedindo a passagem do veículo do filho. Ele tirou foto do carro parado e pediu que o retirassem. “Eles resolveram, não tive problema, mas o fato é que mudou muito a dinâmica perto da minha rua”, acrescentou.
Ele declarou que, na frente de sua casa, sempre param dois carros. Para além da movimentação em massa na rua, Renato acredita que a situação pode aumentar a sensação de insegurança dos moradores. “Eu sempre gostei de lavar meu carro aos domingos ali na porta da minha casa, como eu fazia quando tinha 18 anos. E hoje eu não tenho essa privacidade, porque toda hora tem um carro parado na minha frente.” Com esse exemplo, ele argumentou que se sente sem privacidade e vulnerável.
Renato apontou que, além de os moradores perderem o espaço na vizinhança, nem o caminhão de lixo consegue se movimentar por lá. “O caminhão tem que ficar parado na via principal”, afirmou. Ele descreveu que a movimentação é tão grande que acaba gerando um engarrafamento para entrar na academia. Para ele, essa aglomeração e o uso constante das ruas residenciais atrapalham, principalmente, os mais idosos que moram por ali. Por isso, acredita que faltou um cuidado de orientar os manobristas, demais funcionários e usuários para estacionarem onde é apropriado. “Faltou um cuidado maior com as pessoas, os moradores das redondezas”, complementou.
Ele acrescentou que, além dos moradores do conjunto 4 da QI 15, os vizinhos dos conjuntos 2 e 3 também estão incomodados. Para o advogado, os proprietários do empreendimento não se prepararam para acomodar esse volume de carros e de alunos. “Como mudou toda a dinâmica da quadra, eu penso até que isso desvaloriza os conjuntos”, finalizou.
O que diz a academia
Para a equipe de reportagem do JBr, a Academia Six Lago Sul afirmou, em nota, que dispõe de estacionamento com 30 vagas e serviço de valet parking, operado por uma equipe profissional que não utiliza vias de acesso residencial para estacionar veículos. Também foi reforçado que os alunos, colaboradores e prestadores de serviço que preferem não utilizar o serviço de manobrista são orientados a estacionar nos bolsões comerciais próximos. No entanto, o empreendimento ressaltou que não é possível impor tal orientação.
Segundo a nota, a unidade adota constantemente medidas adicionais para minimizar eventuais transtornos, inclusive com o uso racional das vagas e o incentivo a práticas sustentáveis, como a utilização de meios de transporte alternativos. “A Six Lago Sul mantém canal aberto de diálogo com a comunidade local e com os órgãos competentes, e emprega práticas em conformidade com as normas urbanísticas e de trânsito vigentes”, declarou. A academia reafirmou o compromisso com a responsabilidade social, o cumprimento da legislação e a adoção de boas práticas que assegurem o equilíbrio entre a atividade empresarial e o bem-estar dos moradores da região.
Fotos cedidas pelos moradores da região, mostrando os carros estacionando nas ruas residenciais:
Fotos cedidas por moradores da região de prints de conversa com o proprietário da academia: