‘Irresponsabilidade dos robôs de IA é um problema técnico difícil’, diz consultor do Banco Mundial

Pedro Teixeira
Folhapress

Hoje, 95% de todas as interações que um cidadão tem com o governo da Estônia ocorrem em um celular ou em um computador. “Como as pessoas aprenderam a confiar no nosso sistema, foi possível digitalizar até as eleições —na última disputa pelo Parlamento Europeu, mais de 50% dos votos foram online”, descreve o ex-presidente estoniano Toomas Hendrik Ilves, que hoje é consultor do Banco Mundial para digitalização do setor público.

Ele, que comandou a antiga república soviética entre 2006 e 2016, é conhecido por liderar a implementação do e-Estonia, principal projeto de governo digital no mundo iniciado ainda em 1994. Lá, pais conseguem, por exemplo, registrar uma criança na internet e já sair com o cartão de vacinação e o plano de saúde de uma só vez. “Esse tipo de processo nos gera uma economia anual de 2% do PIB”, contou o ex-presidente durante o Digi Americas Ciso Alliance, evento que reuniu líderes de segurança digital em Cancún, no México.

Segundo Ilves, um psicólogo que aprendeu a programar na adolescência com o professor de matemática, o próximo desafio é adicionar inteligência artificial no elo. O objetivo é que as pessoas consigam solucionar um problema com uma única ordem. “Eu preciso cortar uma árvore, mas preciso de uma permissão para isso. A ideia é poder falar isso a um agente de IA. Ele irá cuidar da burocracia e te entregará o documento necessário”, exemplifica Ilves.

Para ele, a irresponsabilidade dos robôs é um problema técnico mais difícil do que a confiança necessária para realizar toda uma eleição online, como a Estônia já faz. O governo tenta abordar a questão com uma ferramenta, ainda em desenvolvimento, de identificação de cada agente de IA.

“Isso é necessário para haver prestação de contas e não acontecerem episódios como o do Hugging Face no mês passado, quando os agentes da OpenAI saíram de controle e invadiram o site. É preciso haver responsabilidade.”

Apesar dessa ressalva, a Estônia já está em fase de implementação dessa tecnologia. O Banco Mundial coloca o país como uma das três lideranças no uso de IA em governos digitais, junto de Emirados Árabes e Singapura. O mesmo documento também cita o Brasil como um dos países com grande potencial de transformação, devido à existência de um sistema digital de pagamentos, o Pix.

Essa base tecnológica é fundamental, segundo Ilves. A fundação na Estônia foi o X-Road, uma plataforma de código aberto que coordena a troca de informações entre pessoas, empresas e o governo. No caso estoniano, todos os dados governamentais, de saúde, tributos e até de propriedade, estão na internet.

De acordo com o ex-presidente, foi necessário superar um obstáculo jurídico para implementar o sistema porque as leis de privacidade europeias já estavam em curso. O governo enfrentou a questão apelando à cultura de transparência radical estoniana, em que até as declarações de imposto de renda são públicas, com uma forte defesa para prevenir fraudes.

“A privacidade preocupa a população, mas a integridade é uma questão de vida ou morte. Se invadirem e alterarem meu tipo sanguíneo no sistema de saúde, as consequências podem ser fatais. Em 2008, colocamos todos os dados nacionais críticos numa blockchain [como a do bitcoin] modificada para garantir que informações cruciais não pudessem ser adulteradas”, recorda Ilves.

Toda a solução foi criada por técnicos estonianos ainda nos anos 2000, com base em código aberto. Hoje, outros 25 países têm plataformas baseadas no sistema, sem depender do fornecimento de grandes conglomerados de tecnologia.

“Como vivemos numa vizinhança geograficamente e geopoliticamente perigosa, criamos o conceito de embaixada de dados. Firmamos um acordo para nomear um servidor em Luxemburgo como uma embaixada estoniana (com imunidade diplomática total) e conectamos a ele uma linha direta criptografada. Todos os nossos dados críticos nacionais existem lá como backup simultâneo. Essa não é uma solução apenas para ameaças russas; é vital para desastres naturais, como o Japão vivenciou em Fukushima”, afirma o ex-presidente.

IA tenta rastrear fatores ocultos na ciência

Para o estoniano, as pessoas valorizam acima de tudo serviços eficientes. “Isso reduz imensamente os casos de corrupção mais rasteiros, e a Estônia é um dos países menos corruptos da União Europeia, de acordo com rankings internacionais. É difícil subornar um computador.”

A popularidade do e-Estônia que já atravessa seu quinto governo supera a popularidade de qualquer mandato. “A coalizão dominante hoje tem ao seu lado 37% do eleitorado, de acordo com pesquisas recentes. Os partidos políticos têm apoio entre 17% e 18%. O sistema de governo digital tem apoio de 81%, é a coisa mais popular do meu país”, diz Ilves.

T CSM
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