“Jamais imaginamos que fosse um crime”, diz filha de servidor da Caesb morto no Hospital Anchieta

Por Daniel Xavier e Mateus Souza
daniel.xavier@grupojbr.com

A família de João Clemente Pereira, servidor da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), afirma que vive um luto ainda mais doloroso, após descobrir que a morte não foi natural. Em entrevista ao Jornal de Brasília, a filha, Valéria Leal, relatou que a suspeita de homicídio foi comunicada apenas na semana passada, já durante o avanço das investigações da Polícia Civil. O impacto emocional aumentou com o vazamento de imagens relacionadas à apuração. “Hoje houve o vazamento dessas imagens, e nem sabemos de onde partiram. Minha mãe ficou muito mal ao ver aquilo. Já é difícil lidar com a perda, e isso só piora”, afirmou.

João Clemente foi internado no Hospital Anchieta, em Taguatinga, no dia 4 de novembro, após apresentar tonturas. Exames identificaram um coágulo na cabeça, e a família foi informada de que a drenagem seria um procedimento considerado simples, com previsão de cerca de cinco dias na UTI e alta em seguida. A família aguardou a volta, que não aconteceu. Não esperavam nunca mais vê-lo.

Segundo Valéria, o pai saiu da cirurgia sedado e permaneceu assim até o óbito. “Aquele dia da internação foi o último momento em que tivemos contato consciente com ele”, disse.

A confirmação de que a morte foi tratada como homicídio surpreendeu os familiares. Valéria relata que a evolução clínica nunca pareceu compatível com o quadro inicial. “Ele não tinha problemas cardíacos e sofreu uma parada cardíaca. Isso sempre nos intrigou”, afirmou. Ela chegou a solicitar o prontuário médico, mas disse não ter tido condições emocionais de analisá-lo. “Jamais imaginamos que fosse um crime. Decidi falar agora porque isso pode ter acontecido com outras famílias.”

Foto: Reprodução

Segundo a filha, o hospital comunicou o envolvimento de técnicos de enfermagem, mas o suporte à família foi considerado insuficiente. “Saímos da reunião sem nenhum telefone de contato. Disseram que estavam à disposição, mas não nos orientaram de forma clara”, relatou. A principal reivindicação é por responsabilização criminal e civil. “Confiamos a vida do meu pai ao hospital, não a um técnico individualmente. Onde estavam os enfermeiros? Onde estava o médico? Talvez, se tivessem agido antes, a última morte pudesse ter sido evitada”, questionou.

Novos casos suspeitos

Paralelamente, a Polícia Civil do Distrito Federal passou a apurar se outros dois pacientes do Hospital Anchieta também podem ter sido vítimas dos mesmos suspeitos. As novas denúncias partiram de familiares que reconheceram, em reportagens, o técnico Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, como profissional que atendeu parentes internados em agosto e setembro, ambos mortos após paradas cardíacas súbitas.

Principal suspeito ex-técnico de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo – Foto: Reprodução

Um dos casos envolve uma mulher de 80 anos, cuja filha afirma ter visto o técnico no quarto momentos antes da parada cardiorrespiratória. O outro é de um homem de 89 anos, morto em agosto. As apurações ocorrem em inquérito separado e, segundo a polícia, não exigem exumação dos corpos. A análise se concentrará em prontuários e exames realizados à época.

Casos divulgados até agora

Foto: Daniel Xavier/Jornal de Brasilia

Além dessas suspeitas, a PCDF já investiga oficialmente três mortes atribuídas à atuação de técnicos de enfermagem: João Clemente Pereira, de 63 anos; Marcos Raymundo Fernandes Moreira, de 33; e Miranilde Pereira da Silva, de 75. No caso de Marcos Moreira, a família relata que o paciente apresentou melhora clínica antes de uma nova piora abrupta e uma parada cardíaca fatal, ocorrida em 1º de dezembro.

Os familiares não descartam que aplicações irregulares tenham ocorrido em mais de um momento da internação. A professora aposentada Miranilde, segundo a investigação, recebeu múltiplas aplicações de desinfetante na veia.

Os três técnicos presos são Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, apontado como principal executor, além de Amanda Rodrigues de Sousa e Marcela Camilly Alves da Silva, acusadas de dar cobertura às ações. Marcos Vinícius chegou a negar envolvimento, mas confessou após ser confrontado com imagens das câmeras de segurança.

A polícia afirma que os pacientes sofreram paradas cardíacas depois da aplicação de medicamentos em dosagens incompatíveis com qualquer prescrição médica. Os investigados devem responder por homicídio qualificado, com penas que podem chegar a 30 anos de prisão por cada crime.

Posicionamentos

A defesa institucional e entidades de classe acompanham o caso. Em nota, o Conselho Regional de Enfermagem do DF informou que solicitou acesso formal aos autos, respeitando o segredo de justiça. Uma ex-técnica de enfermagem do hospital, ouvida pelo Jornal de Brasília, afirmou que a unidade sempre teve reconhecimento pelos processos internos e avaliou que a atuação da comissão de óbitos demonstra compromisso com a segurança do paciente.

O Hospital Anchieta declarou que identificou circunstâncias atípicas, instaurou investigação interna em menos de 20 dias, comunicou as autoridades e ofereceu apoio psicológico às famílias, além de reafirmar o respeito à LGPD e ao sigilo judicial.

O caso veio a público após a deflagração da Operação Anúbis, em janeiro, que resultou em prisões temporárias e apreensão de materiais e dispositivos eletrônicos. A Polícia Civil aguarda laudos periciais para esclarecer a motivação dos crimes e verificar eventuais trocas de mensagens entre os investigados. Também não descarta a existência de outras vítimas, inclusive em unidades de saúde onde os suspeitos possam ter trabalhado anteriormente. Com a repercussão, novas famílias passaram a procurar a polícia para relatar mortes consideradas suspeitas ocorridas no mesmo hospital.

T CSM

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