Líder Kuikuro aprendeu português para proteger aldeia no Xingu, revela biógrafo

O escritor indígena Yamaluí Kuikuro Mehinaku, de 43 anos, lançou o livro ‘Dono das palavras: a história do meu avô’ (Aki Oto: Api akinhagü, da Editora Todavia), vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional no ano passado. A obra relata como seu avô, o líder Nahu Kuikuro, aprendeu português na década de 1940 para defender a aldeia Ipatsé, no Alto Xingu, e preservar as raízes do povo Kuikuro.

Nahu foi o primeiro indígena da região a dominar o idioma, o que lhe permitiu barrar interferências de não indígenas e proteger o território. Órfão de pai, ele aprendeu a língua inicialmente por interesse em obter roupas e itens dos brancos, tornando-se tradutor entre sua etnia e os forasteiros. Conhecido como ‘dono das palavras’ em sua cultura, Nahu expandiu seu conhecimento para as línguas de 16 etnias do Rio Xingu, atuando como contato de confiança dos irmãos indigenistas Villas-Bôas.

Sua atuação foi fundamental na fundação do Parque Indígena do Xingu e na demarcação das terras em 1961, assinada pelo presidente Jânio Quadros. Além de líder, Nahu era mestre de cantos e detentor de conhecimentos ancestrais. Aos 104 anos, quando faleceu em 2005, insistia com os netos na importância do estudo e na documentação das memórias orais para proteger o território contra invasões.

Yamaluí, neto de Nahu, atende a esse legado ao transformar a história oral em livro escrito. ‘Quando a gente conta apenas de forma oral, vocês não indígenas não acreditam. Agora, está no papel para que vocês acreditem’, afirma o escritor. Ele participa esta semana do Acampamento Terra Livre em Brasília, evento que reúne mais de 7 mil indígenas para protestos por políticas públicas e intercâmbios culturais.

O biógrafo alerta para a falta de ênfase nas histórias indígenas nas escolas da região, onde predomina a cultura não indígena. Sua missão é garantir que as novas gerações conheçam figuras como Nahu, que se encontrou com presidentes da República e com o marechal Cândido Rondon, primeiro diretor do Serviço de Proteção ao Índio, inspirando a continuidade da luta pela preservação cultural e territorial.

T CSM

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