02/01/2026

Mercado reage com otimismo à aprovação da reforma tributária

Bolsa de Valores fecha em alta e dólar cai no primeiro dia de operações após a votação da PEC da reforma tributária, na madrugada de quinta-feira

O mercado financeiro demonstrou mais otimismo, ontem, ao amanhecer com a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Reforma Tributária, a PEC 45/2019, aprovada em dois turnos pela Câmara dos Deputados, após mais de 30 anos de discussões em torno do tema no Congresso, com poucos avanços. Após fechar com queda de 1,78%, na véspera — em meio à indecisão se haveria ou não votação e à sinalização do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) de que vai retomar a alta de juros nas próximas reuniões —, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) encerrou o pregão de com alta de 1,25%, a 118.897 pontos. O dólar comercial, por sua vez, recuou 1,3% frente ao real e finalizou o dia cotado a R$ 4,866 para a venda.

De acordo com analistas, a reação positiva reflete que, apesar dos vários problemas na redação da PEC aprovada pelos deputados, principalmente os jabutis que deixam o texto muito complexo, o atual sistema tributário ainda é muito pior, com excesso de regras e de alíquotas, além de ser cumulativo na cadeia total. Eles destacam que o processo de transição é bastante lento e o impacto ainda é incerto, por conta da indefinição do valor da nova alíquota, mas elogiam o fato de que haverá uma simplificação para os contribuintes com a unificação dos regimes de 27 unidades da Federação.

“Acho que é um divisor de águas, se a reforma aprovada ficasse só na unificação do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) já teria valido a pena. Imagina ir de carro de São Paulo ao Rio e não ter que ficar calculando a quantidade de gasolina para não precisar encher o tanque no Rio porque lá o ICMS é muito maior do que em São Paulo?”, exemplificou Luis Otávio de Souza Leal, economista-chefe da G5 Partner, empresa especializada em serviços financeiros. “Agora, postos da fronteira vão perder clientes, uma prova de que não é uma reforma que vai agradar a todos em um primeiro momento”, acrescentou.

“A reforma tributária, comparada com o que a gente tem hoje, um sistema completamente caótico e irracional, melhora de forma significativa, diminui contenciosos fiscais e tributários, diminui dramaticamente a quantidade de alíquotas, vai acabar essa história de cada produto praticamente ter uma alíquota diferente, provocando uma briga infinita no Judiciário”, avaliou Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Muitas isenções
Os analistas demonstraram preocupação com o excesso de isenções tributárias e reduções de alíquota, que ainda não estão definidas e podem ser bem altas. Questionado sobre o assunto, o secretário extraordinário da Reforma Tributária do Ministério da Fazenda, Bernard Appy, não deu sinal do valor dessa alíquota. Informou apenas que ela ainda será fixada durante o período de transição, até 2027, para a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), e entre 2029 e 2033, para o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços). “Na verdade, o texto deixa a possibilidade de fazer ajustes finos nas alíquotas (para manter a carga tributária) até 2033”, disse.

Na avaliação de Leal, da G5, a reforma ainda vai continuar confusa porque ela precisará ser regulamentada por lei complementar, mas ele não tem dúvida de que a alíquota, que ainda não está definida, deverá ficar acima de 25%, por conta do excesso de isenções tributárias incluídas durante a votação. “Como dizia Margaret Thatcher (ex-primeira-ministra britânica), se tem alguém recebendo sem trabalhar é porque alguém está trabalhando sem receber”, citou o gestor.

Vale, da MB, também demonstrou preocupação com o excesso de exceções incluídas no texto, principalmente, às vésperas da votação na Câmara. “Os problemas foram aparecendo desde o relatório inicial. Tem exceções demais. Setores demais estão colocados ou em regimes específicos ou com corte significativo de alíquota, que já era alta em 50%, e, agora, um corte de 60% na alíquota. Essas exceções preocupam um pouco, porque não são setores pequenos, são setores que, no final, eventualmente, a gente pode acabar tendo uma alíquota final maior do que se imaginava antes para contemplar esses cortes colocados agora”, alertou. Ele torce para que esses jabutis sejam retirados pelo Senado Federal, onde também será preciso a aprovação de três quintos de parlamentares da Casa, em dois turnos.

Mudanças no futuro
“O ideal, obviamente, seria que o texto fosse mais parecido com o da PEC 45. A gente não vai conseguir esse nível neste momento, mas é uma reforma inicial, um momento inicial que pode, no futuro, ter ajustes na emenda constitucional que demandem menos recursos políticos do que essa reforma, que é muito mais ampla e muito mais desgastante”, afirmou Vale. “A partir dessa base inicial que a gente tem agora e, eventualmente, reformas adicionais que precisam ser feitas no futuro sejam mais fáceis de acontecer. Isso é bastante positivo de se pensar. Quer dizer, a gente está fazendo essa primeira grande reforma no futuro, eventualmente precisa, vai precisar de ajustes. Mas, pelo menos, a gente está passando por esse grande teste”, acrescentou.

Tiago Sbardelotto, economista da XP Investimentos, lembrou que os cinco tributos unificados pela reforma respondem por mais de 40% da arrecadação do setor público e também demonstrou preocupação com as alterações, porque elas reduziram o potencial da reforma. Ele lembrou que a alíquota de referência (padrão), varia entre 15%, em países em desenvolvimento, a 25%, em países mais desenvolvidos. “Do lado negativo, ressaltamos que a ampliação do rol de exceções pode contribuir para uma alíquota mais elevada. Do lado positivo, a redução dos benefícios tributários e o incentivo à formalização da economia pela adoção da não cumulatividade plena podem ajudar a se chegar a uma alíquota menor”, destacou. “Vale ressaltar que, na proposta final, introduziu-se um artigo para assegurar que a carga tributária não será elevada. No entanto, é preciso destacar que isso depende também da referência a ser adotada”, disse ele.

Basicamente, a reforma vai unificar cinco tributos em um Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual. São três impostos federais — Programa de Integração Social (PIS), Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) —; um estadual — ICMS —; e um municipal — Imposto Sobre Serviços (ISS). Dessa forma, serão criados a CBS, federal, e o IBS, regional.

A Bolsa de Valores de São Paulo (B3) encerrou o pregão de com alta de 1,25%, a 118.897 pontos. O dólar comercial, por sua vez, recuou 1,3% frente ao real e finalizou o dia cotado a R$ 4,866 para a venda.

(crédito: Miguel Schincariol/AFP – 29/1/19

Deixe um comentário

Leia também
flavio-bolsonaro-2-640x370
Bolsonaro burla monitoramento eletrônico enquanto filho convoca apoiadores
japonesa-casamento-ia
Casamentos digitais: solitários buscam companhia em inteligência artificial
Ramagem-e1746027118404-770x433-1
Chip internacional de ramagem levanta suspeitas sobre votação do pl antifacção
pessoatomandocafefotomarcossantos015
Café diário associado à menor incidência de arritmias cardíacas
AFP__20251027__827N9NR__v3__HighRes__TopshotBrazilUnClimateCop30-620x620-1-e1763291997919
Lobistas de combustíveis fósseis dominam a cop30 com número recorde de participantes
54879511412_c116fd07d7_o-1
Trump altera tarifas de importação, mas mantém taxação sobre brasil
Novo título: crédito de carbono em xeque e tensões em santa catarina na revista liberta
f1280x720-147518_279193_5050
Primeira parcela do 13º salário tem data antecipada para novembro
spotify-logo
Spotify é processado por suposta fraude em streams de artistas famosos
1809-Presidente-Lula-sanciona-lei-de-protecao-a-criancas-e-adolescentes
Eca digital: dúvidas persistem sobre a verificação de idade online
Minha casa minha vida (Tuca Melges - Estadão Conteúdo)
O Ministério das Cidades está preparando a aquisição de energia sustentável para os lares do programa Minha Casa, Minha Vida
SAUDE
Planos de saúde têm 900 queixas por dia; saiba o motivo

Ponte Honestino Guimarães terá faixas bloqueadas para reparos

Serviço será executado pela Novacap, com isolamento da faixa central e do sentido Plano Piloto, em momentos alternados, desta segunda (29) até quarta (31) O Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) informa que a Ponte Honestino Guimarães terá faixas interditadas a partir desta segunda-feira (29) até a manhã de

Leia mais...

Desfecho em 2025 pode marcar fim de Maduro na Venezuela

Caso ocorra a intervenção, será a primeira vez que os Estados Unidos atacam um país da América do Sul Sob o comando da Venezuela desde 1999, a ideologia do chavismo, atualmente liderada por Nicolás Maduro, pode chegar ao fim em breve. Sob as ordens de Donald Trump, os Estados Unidos

Leia mais...

Corrida de bebês vira fenômeno de audiência e viraliza; veja

Disputa realizada nos intervalos de jogos da NBA e da WNBA coloca bebês engatinhando pela quadra de basquete; a atração virou tradição desde 2024 e já conta com vencedores oficiais A chamada “corrida de bebês” da NBA virou um momento esperado do universo do esporte norte-americano. Organizada como atração de

Leia mais...

Varejo cresce 2,6% no Natal com foco em itens essenciais

Compras on-line avançam 10,2%, enquanto setores tradicionais de presentes recuam, segundo dados do Índice Cielo do Varejo Ampliado O varejo brasileiro registrou crescimento nominal de 2,6% no Natal de 2025, na comparação com o mesmo período de 2024. Os dados são do Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA) e consideram

Leia mais...

A sua privacidade é importante para o Tribuna Livre Brasil. Nossa política de privacidade visa garantir a transparência e segurança no tratamento de seus dados pessoais.