Indicadores de endividamento e inadimplência compilados por diferentes birôs de risco terminaram o ano passado em nível recorde, apesar do desemprego em um patamar de baixa histórica.
De acordo com especialistas que acompanham esses números, os atrasos nos pagamentos de dívidas pioraram porque a Selic, a taxa de juros básica da economia, está em um ciclo de alta há um ano e meio, os prazos para quitar empréstimos encurtaram e os bancos passaram a cobrar mais pelo crédito.
Segundo a Serasa, havia 81,2 milhões de inadimplentes no fim de 2025, último dado disponível. É um aumento de 10,5% em relação a dezembro de 2024.
Os critérios para considerar uma pessoa inadimplente variam de acordo com a empresa. Para a Serasa, isso acontece a partir do momento em que o credor faz a notificação. Em alguns casos, as contas estão atrasadas há menos de 30 dias.
O número atual é um recorde, de acordo com Camila Abdelmalack, economista da Serasa. Ela afirma que, de forma indireta, o mercado de trabalho aquecido até colaborou com a alta de inadimplência: quando as contratações aumentaram, mais gente passou a poder financiar compras.
A taxa de desemprego do Brasil recuou a 5,1% no trimestre até dezembro de 2025, menor nível da série histórica iniciada em 2012, apontaram dados divulgados na sexta-feira (30) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Abdelmalack diz que a concessão de crédito crescia a mais de 10% em 2024. “Houve um momento em que a Selic estava em 10,5% (ou seja, estaria relativamente baixa), e isso favoreceu essa expansão; quando a taxa foi para 15%, a torneira foi fechada. Antes, era possível rolar a dívida em boas condições, mas isso ficou complicado.”
A Equifax Boa Vista afirma que foi observado aumento de 7,2% no total de indivíduos negativados, e cerca de 59 milhões de CPFs estavam negativados no fim de 2025, ante cerca de 55 milhões no final de 2024.
O birô negativa um nome dez dias após receber uma notificação do credor de que a conta está em atraso, segundo Ricardo Leite Raposo, líder de Strategic Analytics.
Ele afirma que, apesar de um estoque muito alto de devedores negativados, a taxa de crescimento vem caindo nos últimos meses.
A CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) observou uma alta de 2,3 pontos percentuais. Pelos dados da entidade, o nível de endividamento de dezembro de 2025 (78,9%) é o maior para o mês em toda a série histórica da pesquisa.
O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, afirma que o cenário de 2025 foi marcado pelo encarecimento do crédito com a Selic em 15% e pela cautela dos bancos, que encurtaram os prazos das operações.
De acordo com ele, o prazo médio em novembro de 2025 era de 58,6 meses, contra 60,9 meses no ano anterior
No crédito pessoal, que é muito demandado, o prazo encurtou de 71,24 para 67 meses.
Esses números impactaram as vendas no ano passado, segundo Bentes. “As vendas no comércio tiveram crescimento de cerca de 2%. Se os juros não estivessem tão em alta, seriam pelo menos 5%, e pode ter certeza que o comércio estaria comemorando.”
O economista diz que a taxa básica teve que subir porque a política fiscal foi erodida.
Joelson Sampaio, professor de economia da FGV (Fundação Getulio Vargas), afirma que há repasses de alta da Selic para as taxas de juros livres (ou seja, linhas de empréstimo que não são direcionadas), o que faz com que a inadimplência aumente.
A alta da inadimplência, por sua vez, também implica um aumento das taxas pagas pelos tomadores de recursos, num ciclo que se retroalimenta, afirma.
De acordo com dados do Banco Central, ao longo do ano passado o spread (a diferença entre a taxa de juros que os intermediadores bancários emprestam e captam) subiu. Em dezembro de 2024, era de 17,5%, e em novembro de 2025, 20,9%.
Um alto endividamento compromete o consumo no futuro, diz Sampaio. Ainda assim, a expectativa do professor para este ano é de uma melhora impulsionada pela queda dos juros.
MONTANTE EM INADIMPLÊNCIA
Os dados do BC para inadimplência da pessoa física no sistema financeiro também mostram uma alta, mas é difícil fazer uma comparação por causa de uma mudança de regra que passou a vigorar neste ano.
Uma resolução do CMN (Conselho Monetário Nacional) mudou o conceito de inadimplência: antes era uma perda incorrida, e passou a ser uma perda esperada. Além disso, todos atrasos superiores a 90 dias passam a caracterizar crédito em inadimplência (antes, havia critérios mais flexíveis).
Como houve mudanças de critério, é difícil fazer comparações com dados anteriores a 2025.
Ao longo do ano, no entanto, o volume total de empréstimos em inadimplência subiu de 5,6%, em janeiro, para 6,9%, em dezembro, uma alta de 1,3 ponto percentual. Aqui trata-se do montante atrasado, diferentemente do que a Serasa e o Boa Vista medem, que é a quantidade de CPFs.
Luiz Fernando Castelli, gerente de Assuntos Econômicos da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), diz que parte significativa da alta ocorreu por causa da nova regra do CMN, que passou a permitir que as instituições financeiras fiquem com créditos sem pagar mais tempo em suas carteiras.
“De fato, temos visto algum aumento (da inadimplência) em 2025, mas não é tão expressivo como os dados do BC sugerem”, ele afirma.
O especialista afirma que as instituições não estão super preocupadas com inadimplência, mas que o tema não foi totalmente ignorado. Ele cita que houve desaceleração em algumas linhas de crédito, como em veículos.
Em linhas como o cheque especial e o rotativo do cartão de crédito, a situação toma outra proporções: um salto de 13% para 17,2% na primeira e de 55% para 64,7% na segunda.