O monitoramento de tubarões no litoral do Recife e do restante da região metropolitana da capital pernambucana está interrompido há mais de uma década -as últimas ações foram realizadas em 2015.
Nos últimos 30 dias, dois incidentes com os animais foram registrados: uma turista foi mordida na perna por um tubarão-lixa em Fernando de Noronha no dia 9 de janeiro, com ferimentos sem gravidade, enquanto um adolescente de 13 anos morreu após ser mordido por um tubarão-cabeça-chata na praia de Del Chifre em Olinda (no Grande Recife) no dia 30.
O jovem foi levado para o hospital, mas não resistiu. O padrão da mordida indica que o animal envolvido tinha entre 3 e 3,5 metros de comprimento, compatível com indivíduos adultos da espécie.
Em nota, o governo de Raquel Lyra (PSD) afirmou que de 2023 a 2026 investiu cerca de R$ 5,5 milhões em ações de educação ambiental, pesquisa e monitoramento de incidentes com tubarões no litoral do estado e em Fernando de Noronha. As atividades de monitoramento no arquipélago não foram interrompidas.
A gestão disse ainda que lançou um edital para retomar o monitoramento de tubarões após 11 anos, com investimento previsto de R$ 1,05 milhão e duração de 24 meses.
O monitoramento era feito com campanhas pontuais de pesquisa conduzidas por um laboratório da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco). As ações envolviam saídas de campo com um barco de pesquisa e uso de linhas e anzóis para capturar os animais próximos à costa.
Após a captura, os tubarões eram identificados, avaliados e, em alguns casos, transportados vivos para áreas mais profundas, afastadas da faixa costeira.
Professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e doutor em oceanografia, Marcelo Nóbrega afirma que não há relação direta entre a interrupção dessas ações e o aumento de incidentes, já que os tubarões têm comportamento sazonal e se aproximam da costa em determinadas épocas do ano.
Para o pesquisador, a estratégia mais eficaz não envolve a captura ou o deslocamento dos animais, mas ações preventivas. Entre as medidas citadas estão educação ambiental, presença de monitores nas praias, sistemas de câmeras subaquáticas e uso de drones para vigilância em tempo real.
“Em países como Austrália e África do Sul, o monitoramento é feito com sistemas de imagem e alerta. Quando a presença de tubarões é identificada nas áreas de maior risco, um alarme é acionado e os banhistas são imediatamente retirados da água”, afirmou o professor.
Segundo ele, os incidentes na região metropolitana do Recife costumam envolver duas espécies de grande porte: o tubarão-cabeça-chata e o tubarão-tigre, que são animais de hábitos costeiros, que se aproximam com frequência da faixa de areia.
“Os incidentes com tubarões não estão ligados a um fator único ou pontual, mas a um conjunto de questões estruturais, como a degradação ambiental e a pressão humana contínua sobre a zona costeira.
A escassez de presas naturais, como peixes e crustáceos, somada à poluição dos estuários, altera a dinâmica ecológica e contribui para que os tubarões se aproximem com mais frequência da costa”, explicou Mário Barletta, doutor em ecologia marinha e também professor da UFPE.
De acordo com ele, países que tiveram sucesso em evitar os ataques têm ações de prevenção de forma contínua com equipes permanentes e protocolos claros a serem acionados sempre que é detectada a presença de tubarões.
“Mesmo assim, incidentes ainda podem ocorrer, mas a resposta é rápida. As pessoas são retiradas da água em poucos minutos, e isso reduz significativamente os riscos. Esse modelo poderia ser adaptado à realidade de Pernambuco”, afirmou ele.
O governo estadual disse que existem 150 placas de avisos em 33 km de extensão no litoral do estado, entre Cabo de Santo Agostinho e Olinda. Com a retomada do monitoramento, será possível adotar práticas semelhantes às da Austrália e África do Sul, diz a gestão Lyra.
Segundo a nota do governo, esses países têm “redes acústicas, telemetria e sistemas de alerta em tempo quase real têm se mostrado eficazes na redução de riscos, por meio de abordagens não letais, baseadas em evidências científicas e comunicação preventiva.”
O litoral pernambucano tem 82 casos registrado de incidentes com tubarão desde 1992.