Moradores e proprietários de estabelecimentos localizados ao redor de pontos de concentração de blocos do Carnaval de 2026 dizem que as ruas têm virado banheiro ao ar livre ante a pouca ou nenhuma estrutura oferecida pela Prefeitura de São Paulo.
A gestão Ricardo Nunes (MDB) diz ter realizado mudanças na infraestrutura da festa para este ano e que isso visa “otimizar a operação do evento sem qualquer prejuízo ao padrão de excelência da festa, já confirmada em edições anteriores”.
Afirma também que prevê 16 mil diárias de banheiros químicos para atender os foliões, número que ainda pode ser ampliado a depender da demanda.
A quantidade de equipamentos sanitários, acrescentou o município, foi definida “após avaliações, bloco a bloco, por parte da SPTuris”, a empresa municipal que organiza o Carnaval de rua na capital paulista.
Reclamações ocorrem em diversas regiões.
Bianca Perioto, 46, chegou a se deparar com fezes na calçada em frente à empresa de vedação industrial da qual é proprietária, na Santa Cecília, no centro.
O negócio está localizado na rua Fortunato, via que nos dias de bloco viram um transtorno para ela e aos colaboradores da empresa, que funciona em formato 24 horas.
“A gente atende muita indústria e precisa descarregar produtos, trazer material. Mas a rua fica fechada e eu não consigo nem ter acesso à empresa”, afirma.
Não é diferente nas ruas Lavradio ou Camaragibe, na Barra Funda, ambas situadas a poucos metros do Memorial da América Latina.
“Aqui é todo mundo na rua. Os meninos urinando nas paredes. As meninas vão na praça e urinam na praça. É uma zona”, afirmou à reportagem o aposentado José Getúlio Maire, 70.
Em um dos dias de bloco não havia nenhum banheiro químico, afirmaram moradores à reportagem. Em outro, apenas dois.
Everaldo Oliveira, 38, é zelador de um prédio da região e testemunhou ocorrências do gênero no último final de semana, quando ocorreu o pré-Carnaval oficial da cidade.
“A bagunça fica grande. É muito lixo na rua e o caminhão da prefeitura não passa para recolher porque a via fica fechada”, afirma.
A solução seria carregar os resíduos até a rua seguinte. A questão, diz, é que recolher o lixo que nada tem a ver com ele ou com o prédio do qual cuida “não é responsabilidade minha, mas da prefeitura”.
O mau cheiro causado pela urina torna o cenário ainda pior. Foliões, segundo ele, fazem necessidades nas ruas, calçadas e nos portões e paredes de residências e o cheiro, por sua vez, “entra até no prédio”, afirma.
A situação é a mesma na região de Perdizes, na zona oeste da capital.
Na rua Ministro Ferreira Alves, onde centenas de pessoas se concentraram para um bloco no último final de semana, os únicos banheiros oferecidos pela prefeitura estavam nas vias adjacentes.
Sem equipamentos de higiene na concentração, foliões recorreram a bares e restaurantes do bairro. Com isso, os banheiros desses locais acabaram superlotados ante a grande quantidade de usuários. Restou a via pública.
“O que falta é estrutura. O bloco em si é organizado. Conversa com antecedência com os moradores, com a subprefeitura. Só que não existe um banheiro químico, não existe um pessoal que realmente faça uma limpeza efetiva”, diz o empresário Fábio Mantovani, 50, proprietário de um restaurante na região.
A rua Ferreira Alves tem uma travessa fechada com um portão, a Fernando Fernandieri, que se torna segundo ele um banheiro ao ar livre nos dias de bloco.
“Ela nunca tem zeladoria. É a gente que cuida dela porque aqui é muito ruim. Acabou virando o maior banheiro do folião”, diz.
A questão é ainda mais delicada porque tudo isso ocorre a poucos metros de restaurantes ao redor da rua. “Junta bicho, junta tudo, e gente tem que redobrar os cuidados que já tem. Senão não dá.”
As críticas à estrutura dos foliões se somam àquelas registradas após o tumulto causado pelo encontro de dois megablocos no domingo (8): o Acadêmicos do Baixo Augusta e a estreia do DJ escocês Calvin Harris, patrocinado pela Skol, marca oficial do Carnaval de São Paulo.
A confusão levou a gestão municipal a proibir o acesso de pessoas à região e acionar um plano de contingência. A PM chegou a pedir que as pessoas evitassem a Consolação.
No dia seguinte ao incidente, na segunda-feira (9), Nunes afirmou considerar que o final de semana havia sido um sucesso.
O Ministério Público de São Paulo chegou a abrir investigação sobre o caso e recomendou à prefeitura que aplique medidas de planejamento, controle e fiscalização com relação ao uso e à ocupação de áreas públicas durante o Carnaval de 2026.