A Caixa Econômica Federal alterou uma consulta pública para a mudança de uma agência bancária na Paraíba e estabeleceu critérios que permitiriam ao banco alugar um terreno do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB).
O banco afirma que desistiu de mudar o endereço da agência de Patos (PB), mas se recusa a dizer se a decisão foi tomada antes ou depois que o caso se tornou público. Em outubro passado, a alteração do edital foi noticiada por um jornalista de Patos. A reportagem pediu três vezes para que a Caixa informasse em que data o processo de transferência da agência foi considerado inviável, mas não houve resposta.
Reduto político de Motta, Patos é governada pelo pai dele, Nabor Wanderley (Republicanos), pré-candidato a senador nas eleições deste ano.
Na primeira consulta, lançada em janeiro de 2023, a Caixa determinou que o terreno ou o imóvel poderiam estar localizados no entorno de sete ruas da cidade, próximas ao endereço atual da agência, que fica em um shopping.
O chamamento listava: “no entorno da rua Juvenal Lucio, rua Enaldo Torres Fernandes, rua João de Barros, rua Cel. Miguel Sátiro, rua Pedro Firmino e rua Felizardo Leite, localizadas no centro, bem como na rua Horácio Nóbrega, bairro Belo Horizonte”.
O processo não avançou e, em março de 2025, uma outra consulta foi aberta. Na segunda tentativa, a possibilidade de endereço era “preferencialmente” na rua do Prado, entre os números 1 e 200, no centro, ou “da rua Pedro Firmino até a rua Felizardo Leite”. O terreno de Motta fica no primeiro quarteirão da rua do Prado, num imóvel sem numeração, próximo ao número 15.
Outra alteração foi a diminuição do tamanho da área exigida, de aproximadamente 1.400 m² para 935 m². O terreno de Motta, com 1.070 m², não se encaixava na exigência inicial, mas passou a ser aceito na segunda consulta.
A reportagem obteve por meio da LAI (Lei de Acesso à Informação) todas as respostas protocoladas nas duas consultas públicas feitas pela Caixa.
O chamamento de 2025 recebeu duas ofertas até o encerramento, em 8 de maio: uma da empresa Medeiros e Medeiros, que está no nome da esposa do presidente da Câmara, Luana Motta, e outra de Antonio de Araújo Amorim, primo dele.
Amorim queria receber R$ 44,1 mil por mês de aluguel, enquanto Motta pedia R$ 43 mil mensais durante cinco anos, totalizando R$ 2,6 milhões. Segundo a certidão do terreno, Motta comprou a área em março de 2023 por R$ 900 mil.
A segunda consulta pública foi aberta em 6 de março de 2025. A proposta da Medeiros e Medeiros é assinada em 4 de abril. No cabeçalho consta, porém, outra data: 4 de março, dois dias antes da abertura da consulta. A proposta de Amorim, por sua vez, foi protocolada em 23 de abril.
A Caixa inspecionou os terrenos dos dois concorrentes. Ela considerou inviável o terreno do primo de Motta porque a área construída era inferior ao mínimo pleiteado pelo banco, e “o proprietário descartou qualquer tipo de intervenção”. O mesmo terreno foi o único inscrito na consulta de 2023. Na época, a Caixa entendeu ser viável o aluguel do local.
Já o terreno de Motta, segundo o relatório da vistoria, foi considerado apto. A Caixa chegou a fazer uma estimativa dos custos para a realocação da agência. Os proprietários deveriam gastar R$ 4,1 milhões com a construção do edifício no padrão exigido. O banco, por sua vez, investiria R$ 685 mil em mobiliários e outros itens.
Procurado pela reportagem, Motta disse que não participou de nenhuma tentativa de obtenção de favorecimento junto à Caixa. O deputado afirmou que há uma ilação baseada em vínculo familiar e versão preliminar de documentos e reforçou “seu compromisso com a ética pública e com a impessoalidade no desempenho de suas funções”.
“O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, esclarece que não participou de qualquer iniciativa para direcionar consulta pública ou obter favorecimento em eventual contratação pela Caixa”, disse Motta.
“O presidente também ressalta que insinuações de conflito de interesses baseadas em vínculos familiares ou em versões preliminares de documentos carecem de lastro para sustentar qualquer narrativa de irregularidade, sobretudo quando tais ilações envolvem contratos sequer celebrados.”
Questionada, a Caixa disse que “realizou estudos para readequação da agência Patos (PB) para local com maior visibilidade na cidade”, mas desistiu da mudança.
“Considerando a pouca oferta de propostas, análises técnicas quanto ao custo-benefício e critérios de sustentabilidade, concluiu-se pela não viabilidade financeira da mudança e o processo foi encerrado”, afirmou.
“O banco informa que realiza avaliações contínuas da sua rede de atendimento, sempre com o objetivo de oferecer conveniência, qualidade e eficiência para a população.”
No pedido de informações via LAI, a Caixa informa que “foi realizado estudo para avaliar a possibilidade de readequação para um local com maior visibilidade” a unidade atual está no Guedes Shopping, no centro.
“Após análises técnicas, concluiu-se pela não viabilidade financeira da mudança, razão pela qual o processo foi encerrado”, acrescenta.
A escolha do terreno de Motta foi noticiada pelo radialista Célio Martinez em 3 de outubro. O vídeo da íntegra do programa não está mais disponível no Facebook do jornalista.
Martinez dizia que o edital já havia sido aprovado e que, “nos próximos dias”, uma empresa iniciaria a construção da estrutura. O radialista também dizia que o terreno escolhido havia sido adquirido “recentemente” pela família de Motta. “A licitação foi aprovada pelo governo federal”, afirmou na ocasião, ao vivo.
A reportagem apurou que a mudança da agência estava de fato acertada em 3 de outubro, mas foi posteriormente suspensa.
Desde o fim de 2023, a Caixa está sob o comando de Carlos Vieira, apadrinhado do ex-presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira (PP-AL).
Como mostrou a Folha, Motta foi responsável pela indicação do vice-presidente de Governo do banco, o paraibano José Marcos de Carvalho. Antes de ser alçado a vice, em agosto, Carvalho foi superintendente da Caixa em áreas responsáveis pelo atendimento à cidade de Patos.
CRONOLOGIA
27 de janeiro de 2023: Caixa abre consulta pública para mudar agência de Patos de endereço
24 de março de 2023: Motta compra terreno na rua do Prado, em Patos
6 de março de 2025: Caixa abre nova consulta pública para mudar agência de endereço
3 de outubro de 2025: O jornalista Célio Martinez noticia transferência de agência para terreno de Motta
5 de novembro de 2025: Folha pede, via LAI, todos os documentos das duas consultas públicas
6 de novembro de 2025: Folha é informada, por meio de pessoa com acesso ao caso, que a mudança havia sido suspensa