O piloto Henrique Donizeti Ferri, de 32 anos, vai continuar preso após decisão da Justiça de Goiás que converteu sua prisão em flagrante em prisão preventiva. Investigado por transportar 281 kg de cocaína e 61 kg de crack em um avião monomotor que fez um pouso forçado na zona rural de Itarumã, na região Sudoeste de Goiás, o piloto teve o pedido de liberdade negado porque, segundo o Judiciário, há fortes indícios de envolvimento com uma organização criminosa especializada no tráfico interestadual de drogas. A decisão também levou em consideração a tentativa de destruir provas, o risco de fuga e a possibilidade de continuidade das práticas criminosas.
A prisão preventiva foi decretada durante audiência de custódia realizada na sexta-feira (17). Embora a defesa sustente que Henrique é réu primário, possui residência fixa e exerce atividade profissional lícita, o juiz entendeu que esses fatores isolados não são suficientes para afastar a necessidade da prisão neste momento da investigação.
O advogado Luís Henrique Viana dos Reis informou que vai recorrer da decisão por meio de um pedido de habeas corpus. Segundo ele, o piloto não possui antecedentes criminais e estaria sendo enquadrado como “mula do tráfico”, expressão utilizada para pessoas contratadas apenas para realizar o transporte de drogas, sem participação direta na estrutura da organização criminosa.
Operação planejada e estruturada
Na decisão, o juiz Gabriel Carneiro Santos Rodrigues afirmou que os elementos encontrados durante a investigação revelam uma operação planejada e estruturada, incompatível com uma atuação isolada. Entre os fatores destacados estão a utilização de uma aeronave para o transporte da droga, a existência de rotas previamente definidas, anotações com coordenadas de pistas de pouso alternativas, referências geográficas utilizadas durante a navegação, o uso de telefone via satélite para comunicação em locais sem cobertura de celular e a existência de uma rede de apoio em solo capaz de auxiliar a operação.
Para o magistrado, esse conjunto de informações demonstra uma logística sofisticada e reforça os indícios de que Henrique integrava uma organização criminosa voltada ao tráfico interestadual de entorpecentes.
Outro aspecto considerado decisivo foi a destruição de provas logo após o pouso forçado da aeronave. Conforme a investigação, o piloto incendiou o monomotor antes de fugir do local. Na avaliação do juiz, o incêndio eliminou vestígios importantes que poderiam contribuir para o trabalho da perícia, como equipamentos eletrônicos, registros de bordo, marcas de identificação da aeronave e outros elementos técnicos.
Além disso, segundo o Ministério Público de Goiás (MPGO), Henrique informou que destruiu o GPS utilizado durante o voo e descartou, em uma área de mata, anotações contendo coordenadas da pista de pouso e informações relacionadas ao planejamento da viagem.
Pouso forçado e incêndio
O caso teve início na manhã de quarta-feira (15), quando o avião apresentou problemas mecânicos durante o voo que saiu do Mato Grosso, em uma região próxima à fronteira com a Bolívia, e seguia em direção a Frutal, em Minas Gerais. Sem condições de prosseguir, o piloto realizou um pouso forçado em uma propriedade rural de Itarumã.
De acordo com a Polícia Militar, após aterrissar, Henrique pediu que trabalhadores da fazenda retirassem da aeronave a carga de cocaína e a escondessem em uma área de mata. Durante as buscas realizadas pelas equipes policiais, aproximadamente 340 quilos de droga foram localizados em sacolas espalhadas entre a vegetação.
Em seguida, conforme apontam as investigações, o piloto colocou fogo no avião e fugiu a pé pela mata, dando início a uma operação de buscas que mobilizou diversas equipes policiais.
Pai, esposa e amigo do piloto também são investigados
Henrique permaneceu escondido durante várias horas e só foi localizado na madrugada do dia seguinte. A prisão ocorreu depois que policiais identificaram um veículo parado às margens da GO-206. No carro estavam o pai, a esposa e um amigo do piloto.
Segundo a polícia, o trio havia saído de São Paulo para resgatar o homem. A comunicação entre eles era feita por meio de um telefone via satélite, utilizado para combinar o ponto de encontro.
O plano previa que o motorista piscasse os faróis do carro três vezes para indicar que o local era seguro. Com essa informação, os policiais monitoraram a região e reproduziram o sinal combinado. Quando Henrique deixou o esconderijo e caminhou até o veículo, foi abordado e preso.
Durante a ação, foram apreendidos o telefone via satélite, um aparelho celular, uma faca e R$ 5.327 em dinheiro.
Os familiares e um amigo também foram encaminhados para a Delegacia da Polícia Federal em Jataí para prestar esclarecimentos. A polícia não divulgou as identidades e não confirmou se permaneceram presos ou foram liberados.
Piloto já fez transporte de drogas
Henrique não tem registros de condenações anteriores, mas as investigações indicam que esta não teria sido sua primeira viagem transportando drogas. Segundo o coronel Heber Souza Bastos, do 5º Batalhão Rodoviário da Polícia Militar, o próprio piloto informou que havia sido contratado pelo proprietário da aeronave para realizar três voos transportando entorpecentes. O pouso forçado em Itarumã era a terceira viagem.
Ainda conforme o relato do oficial, Henrique receberia R$ 70 mil por cada transporte realizado.
Essas informações também foram consideradas pelo juiz ao analisar o pedido de liberdade. Para o magistrado, os indícios reforçam a atuação contínua dentro de uma estrutura criminosa organizada.
Além de manter a prisão preventiva, a Justiça autorizou a quebra do sigilo telemático do investigado e determinou a busca completa dos dados armazenados nos celulares e no telefone via satélite apreendidos durante a operação. O objetivo é aprofundar as investigações e identificar possíveis integrantes da organização responsável pelo transporte da droga.