Planta considerada extinta volta a ser vista em ilha no litoral de SP após cem anos

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Planta considerada extinta volta a ser vista em ilha no – Reprodução

Pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro encontraram uma espécie que não era vista havia mais de cem anos e era considerada extinta na Ilha de Alcatrazes, litoral norte de São Paulo.

A planta Begonia larorum, espécie endêmica da formação insular, não era observada desde sua descrição, na década de 1920, a partir de exemplares coletados pelo zoólogo alemão Hermann Luederwaldt (1865-1934).

A descoberta foi relatada em um artigo publicado em outubro do ano passado na revista Oryx The International Journal of Conservation. Participaram do estudo Gabriel Sabino, botânico e doutorando do programa de pós-graduação em biologia vegetal da Unicamp, e seu orientador, o professor Fábio Pinheiro, da mesma instituição, além de outros pesquisadores.

No artigo, eles descrevem a área de ocorrência, características da planta e chamam a atenção para o seu estado de conservação e a importância de preservação do seu habitat.

Apesar de ser um dos gêneros de planta com o maior número de espécies no mundo (mais de 2.000, com cerca de 230 no Brasil, a maioria endêmica da mata atlântica), os pesquisadores diziam acreditar que a B. larorum, dada a sua raridade, estava localmente extinta.

Pinheiro, que também é professor associado do CBioClima (Centro de Pesquisa da Biodiversidade e Mudanças do Clima), estava interessado em fazer um levantamento florístico da Ilha de Alcatrazes e submeteu um projeto à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), em 2022, com validade de cinco anos. “Apesar de ser uma ilha com um plano de manejo, não havia nenhuma lista atualizada das espécies de plantas na região.”

Foi então que, em fevereiro de 2024, Sabino encontrou um único indivíduo da planta (fora da fase de reprodução) em uma área de sub-bosque na face sul da ilha. “Toda vez antes de começar as expedições [de coleta] eu revisitava a espécie descrita na década de 1920 para treinar meu olho e, talvez, encontrá-la.

Eu fiquei surpreso. Encontramos um indivíduo só, sem flor, e conseguimos fazer cinco clones [a partir de partes da planta] e cultivá-los no laboratório na Unicamp”, diz o biólogo.

Depois disso, foram realizadas mais expedições e, em setembro de 2024, o grupo encontrou uma população com 19 indivíduos de B. larorum, dos quais 17 estavam em fase reprodutiva.”E foi uma festa, porque aí fizemos amostras para a coleção do herbário da Unicamp e a partir desses indivíduos fizemos esse artigo.”

A Ilha de Alcatrazes é a maior das ilhas do arquipélago de mesmo nome, localizado a cerca de 35 quilômetros do continente, no litoral norte de São Paulo. De origem continental, Alcatrazes é, desde 2017, parte de unidade de proteção conhecida como Estação Ecológica Tupinambás e Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, criada pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Biodiversidade).

Por anos, a ilha foi ocupada de forma desordenada e explorada economicamente, o que levou à introdução de espécies exóticas. Na década de 1970, a Marinha utilizava parte do local como treinamento para tiros, o que gerou um impacto ambiental, incluindo incêndios locais que podem ter levado a microextinções locais de espécies endêmicas. Com a abertura da vegetação, espécies exóticas, como o capim-gordura (Melinis minutiflora), acabaram proliferando, o que pode ter restringido a begônia a uma parte da ilha.

“A localização da população que encontramos fica na face sul da ilha, em um lugar onde quase ninguém vai, e ela tem uma distribuição restrita. Talvez por isso, por essas características, que ela tenha resistido a esses impactos ambientais”, afirma Sabino.

Como havia até agora poucos indivíduos em coleções de botânica no mundo, pouco se sabia sobre características como a coloração e morfologia das folhas e flores, qual o tipo de solo em que ela era encontrada e outros aspectos estruturais, como espessura dos caules e das raízes.

O estudo atual revelou que, diferentemente da espécie do continente, a B. larorum é mais glabra (sem pêlos nas superfícies das folhas), é mais adaptada à escassez de águas, com raízes mais robustas e de hábitos rupícolas (cresce em solos rochosos ou rente às pedras).

No artigo, os autores pedem que a espécie seja incluída na Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza) de Espécies Ameaçadas.

Para Pinheiro, a descoberta é crucial para trazer informações sobre a ecologia e evolução dessa espécie.

“Pretendemos fazer análises filogenéticas e biogeográficas e que comparam a comunidade da ilha como um todo e como ela se diferencia do continente. Além disso, a partir deste ano, vamos começar estudos de interações bióticas, principalmente relacionadas às interações da planta e polinizador.”

O pesquisador espera também elucidar questões relacionadas à resistência frente à mudança climática, uma vez que as espécies de ilhas são, em geral, mais vulneráveis a impactos ambientais. “A ilha é como um laboratório de como será o planeta no futuro, seguindo as previsões de mudanças climáticas e, talvez, a maneira como as plantas vivem já nos adiante o que vai ser importante [em termos de ação de mitigação] no futuro.”

T CSM

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