Um inquérito da Corregedoria da Polícia Militar aponta supostas conexões entre o ex-vereador Milton Leite (União Brasil), que presidiu a Câmara de Vereadores de São Paulo, e policiais militares que foram presos por trabalharem na escolta particular de dirigentes da empresa Transwolff, que responde na Justiça à acusação de lavagem de dinheiro do PCC (Primeiro Comando da Capital). A empresa nega as acusações.
Leite foi chamado de “chefe” pelo sargento da PM Nereu Aparecido Alves em uma mensagem enviada a Cícero de Oliveira, diretor da Transwolff. O inquérito também aponta relações financeiras e políticas entre o ex-vereador e a empresa de ônibus municipal, que teve o contrato cancelado após a Operação Fim da Linha, do Ministério Público de São Paulo.
Procurado, Milton Leite afirmou que não conhece o sargento e que ele nunca trabalhou em sua escolta -não há registros. A Transwolff afirmou que “repudia veementemente qualquer tentativa de associação da empresa e de seus representantes com organizações criminosas ou atividades ilícitas” e que sempre contratou empresas regulares para serviços de segurança.
A defesa do sargento Nereu disse que “o policial é inocente das acusações que lhe são imputadas, inexistindo provas concretas que sustentem a narrativa acusatória”, afirmou o advogado Márcio Antonio Sousa Ferreira da Silva.
O sargento e outros dois policiais militares foram presos preventivamente no dia 4 de fevereiro por suspeita de integrar organização criminosa, devido às acusações de elo entre a Transwolff e o PCC -que estão sob análise da Justiça, ainda sem conclusão.
No dia 18 de outubro de 2023, Nereu enviou mensagens a Cícero de Oliveira informando que estava em uma agenda, a “inauguração da escola do nome da mãe do chefe Milton” -referência ao CEI (Centro de Educação Infantil) Nathalia Pereira da Silva, em M’Boi Mirim. Não fica claro na troca de mensagens quem o sargento acompanhava na ocasião.
À Folha de S.Paulo Leite afirmou que sua escolta naquele dia era formada apenas por policiais cedidos por meio da Assessoria Policial Militar da Câmara Municipal. Nereu já estava na reserva da PM nesse período.
Foi na casa do sargento Nereu que a Correegedoria encontrou a quantia de R$ 1,1 milhão em dinheiro vivo, na ocasião em que ele foi preso. O policial ainda não esclareceu qual é a origem do dinheiro.
Segundo depoimentos de policiais, a escolta pessoal de dirigentes da Transwolff era organizada pelo capitão Alexandre Paulino Vieira, que atuava na Assessoria Policial Militar da Câmara desde outubro de 2014.
Ele ingressou no setor durante a gestão do petista José Américo e lá permaneceu durante a presidência de outros quatro vereadores, incluindo Leite e o atual mandatário, Ricardo Teixeira (União Brasil).
Em interrogatório no dia 4 de fevereiro, um dos policiais presos em operação da Corregedoria -o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezario- disse que acreditava que o capitão Alexandre havia sido indicado para coordenar a segurança de dirigentes da Transwolff por Milton Leite.
Romano afirmou ter trabalhado cerca de quatro meses na escolta da Transwolff, entre 2020 e 2021, e que recebia pagamentos diretamente do capitão pelos serviços.
Relatório da Corregedoria também cita “estreitas ligações” do vereador com o capitão Alexandre, pelo período em que ele trabalhou no Legislativo municipal. Questionado pela Folha de S.Paulo, Leite afirmou que nunca indicou PMs para prestação do serviço na empresa e disse que o manteve no cargo após ele ter permanecido ali por outras duas gestões da Câmara Municipal.
Em nota, a Câmara Municipal afirmou que o capitão Alexandre “atuou ininterruptamente nas gestões de cinco presidentes” e que “não há nenhum registro que o desabone”.
Defensores do capitão, os advogados Renato Soares e Mauro Ribas afirmaram que ele é um “oficial exemplar com carreira ilibada e não tem e nunca teve nenhuma relação com qualquer organização criminosa”.
Os documentos da Corregedoria também citam um contrato de aluguel de um terreno da empresa Neumax, da qual Milton Leite é sócio, pela Transwolff. O vereador ressaltou que o contrato é lícito.
“O aluguel é, inclusive, inferior ao preço de mercado – jamais superior”, disse o ex-vereador, em nota.
“Desconheço qualquer avaliação de imóvel feita pela Corregedoria da PM que permita questionar o valor.”
Há menção a um e-mail tratando de notas fiscais relativas a funcionários da Transwolff que teriam prestado serviços ao gabinete de Milton Leite, o que ele diz que nunca ocorreu.
“Repito o que eu já disse à própria Folha de S.Paulo, em maio de 2024, quando as mesmas mentiras foram ditas e apuradas pelo Ministério Público: não tenho nenhum tipo de conhecimento”, disse o ex-vereador, em nota. “Nunca nenhum funcionário da Transwolff prestou serviço para mim, em meu gabinete ou em qualquer outra situação.”