Na metade da década passada, Joana* celebrou o casamento com um agente de segurança. De véu e grinalda, ela e o então companheiro selaram a união na igreja e no cartório. “Cinco meses depois, começaram as agressões”, narra a mulher, que, por motivos de segurança, não será identificada. “Eu não podia trabalhar, participar de eventos sociais, as roupas eram ditadas por ele, com episódios de ciúmes constantes. Num dos episódios, ele rasgou minha roupa logo antes de uma confraternização”, relata. Ela diz, ainda, que não era assim durante o namoro, permeado por carinho e respeito.
Policial civil, o homem passou dois anos perpetrando violências físicas, materiais e psicológicas. Andava armado em casa e, além de controlar até as vestimentas de Joana, usava da influência nas ruas, conquistadas graça ao distintivo, para demover qualquer tentativa de solução para o ciclo de violências. “Isso contribuiu, sim, para me manter calada. Quando existe essa situação de violência doméstica e familiar, se há uma posição hierárquica superior, isso dificulta. Quando é da polícia, isso fica ainda mais latente”, conta.
A situação de Joana se espelha em, pelo menos, dezenas de mulheres no Distrito Federal. Em resposta a pedido do Jornal de Brasília via Lei de Acesso à Informação (LAI), a Polícia Civil (PCDF) informou que foram 86 inquéritos instaurados contra agentes da corporação, entre 2020 e 2025, por violência doméstica, com base na Lei Maria da Penha. Também há 53 sindicâncias deste tipo no mesmo período. Os números não conversam entre si (ou seja: não necessariamente os inquéritos abertos saíram de apurações internas).
Fontes dentro da PCDF confidenciaram à reportagem que os números são altos e a legislação administrativa da corporação é antiga, com alguns pontos redigidos há 30 anos ou mais, mas que há uma evolução dentro da instituição, sobretudo com a criação da Divisão Integrada de Atendimento à Mulher (DIAM), diretamente ligado à Direção-Geral. “Há, inclusive, uma preocupação com relação às agentes que são vítimas de violência doméstica, seja por parte de policiais ou não”, relata uma das pessoas ouvidas.
Tiro no pé
Hoje diretora da DIAM, a delegada Karen Langkammer chegou a ser baleada no pé por um agente da própria Polícia Civil. Em 2023, Rodrigo Rodrigues Dias estava num bar com a companheira e passou a agredi-la com puxões de cabelo. Eles chegam a trocar tapas em meio ao estabelecimento. Na sequência, Langkammer, desarmada, abordou o homem, que puxou uma arma, ameaçou os presentes e disparou no pé da delegada. No ricocheteio, uma amiga da delegada também foi ferida.
Ele foi condenado em 2025 a três anos de prisão em regime fechado, mas o processo ainda se arrasta em instâncias recursais. Dias continua na PCDF, apesar de realizar apenas trabalhos administrativos e perder o direito a andar armado. “Depois, descobri que ele já havia agredido uma conhecida, já era uma reincidência”, comenta a delegada ao JBr.. “Eu poderia ter regredido na minha luta, ter desistido, mas eu ganhei mais força, penso eu. Porque, se o Rodrigo tivesse sido punido quando ele agrediu a esposa, ele não teria feito isso comigo”, crava.
Panorama
Joana precisou deixar o país em 2017. Ficou pouco mais de um ano e meio longe da família, que, apesar da distância, prestou auxílio que ela considera essencial para ter saído da situação em que estava. Na volta, porém, mais medo: “Ele me procurou logo depois que eu retornei, inclusive usou o fato de ser policial para me achar. Andava armado, intimidava, metia medo. A gente espera que um policial deixe a sociedade segura, mas tem elementos que usam o cargo para cometer crimes”, desabafa.
Atualmente, procura ajudar mulheres em situação de vulnerabilidade gerada pela violência doméstica. As agressões cometidas por agentes da Polícia Civil, como a que a vitimou, são apenas a ponta de um iceberg no Distrito Federal. De acordo com o Anuário de Segurança Pública do DF e o Painel de Feminicídios, organizados e publicados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF), foram registrados 236 feminicídios desde a sanção da Lei, em 2015, até janeiro deste ano.
Destes, 70,8% foram cometidos dentro da residência da vítima – e, em muitos casos, também do algoz -, além de mais de 80% das mulheres vitimadas serem mães. Dos agressores, 75,2% já tinham antecedentes criminais quando do crime, e, entre as mortes, quase 30% delas já haviam registrado ocorrências relacionadas a agressões domésticas e .62,6% sofreram violência anterior ao feminicídio.
“Quem cometeu uma violência contra a mulher tem que ser punido de forma rígida, porque, se não, o agressor vai ter mais força moral para repetir o crime”, diz Joana, que vê avanços na legislação.
Seis por uma dúzia
No ano passado, um único semestre bastou para equiparar os números de atendimentos de 2025 aos de 2024. As instalações dos Núcleos Integrados de Atendimento à Mulher (NUIAM) acolheram 988 mulheres nos seis primeiros meses de 2025, enquanto, no ano anterior inteiro, foram 1.102 atendimentos. Para Langkammer, o número pode até assustar, mas mostra evolução.
“Tanto ele pode ser por um aumento da ocorrência da violência, que aumenta as ocorrências, mas também por um aumento da confiança que a mulher tem no sistema, na polícia, um aumento da possibilidade de acesso à ocorrência policial, uma facilidade no registro. A gente acredita que seja essa segunda opção, porque realmente a gente tem aumentado os canais”, comemora a diretora.
Ela também vê avanços na cultura da corporação. “Há muitos anos existia um grande corporativismo, porque a sociedade sempre foi muito machista, né? Não foi um momento que eu vivi dentro da polícia. Na minha experiência como delegada não vejo essa proteção, não vejo essa dificuldade [de punição] por ele ser policial. Exatamente ao contrário, a gente quer tirar as maçãs podres porque elas efetivamente mancham toda a imagem de uma corporação que é bonita, que tem muita gente que trabalha muito bem”, finaliza.
*Nome fictício por solicitação da personagem