Levado ao cargo em 2024 graças a uma vitória histórica do Partido Trabalhista, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, pode deixar a posição ainda em fevereiro, três anos antes do fim do mandato.
O premiê está sob intensa pressão da opinião pública, da oposição e do próprio partido graças ao envolvimento de figuras de seu governo com o falecido criminoso sexual americano Jeffrey Epstein -e a uma eleição especial que adquiriu novo significado nas últimas semanas.
A crise já derrubou o poderoso chefe de gabinete de Starmer, Morgan McSweeney, estrategista eleitoral do premiê e responsável pela indicação de Peter Mandelson, amigo próximo de Epstein ao cargo de embaixador nos Estados Unidos. Homem forte nos bastidores de Downing Street, a sede do Executivo do Reino Unido, McSweeney foi o principal arquiteto da guinada do Partido Trabalhista à direita que ocorreu após a derrota do esquerdista Jeremy Corbyn nas eleições gerais de 2019.
Analistas apontam que há poucas alternativas viáveis a Starmer no Partido Trabalhista hoje, e McSweeney tem muito a ver com isso. Após a longa era Margaret Thatcher, nos anos 1980, a sigla só voltou ao poder com Tony Blair, premiê por 10 anos e que reformulou o partido ao levá-lo mais ao centro. Desde então, e ao longo de todo o período de quase 15 anos que o Partido Conservador esteve no poder recentemente (2010-2024), os trabalhistas estão engalfinhados em uma virulenta disputa interna a respeito dos rumos da sigla.
Enquanto era líder, Corbyn tentou eliminar as influências blairistas do partido e reposicioná-lo como um movimento progressista. Enfrentou amarga resistência de correligionários mais à direita -entre eles McSweeney, que organizou uma campanha para remover Corbyn do poder e enfraquecer seus apoiadores na liderança do partido, e Starmer, à época secretário da oposição para o brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia.
Hoje no poder, Starmer sofre ataques da ala mais à esquerda do partido, como o líder trabalhista na Escócia, Anas Sarwar, e o prefeito de Manchester, Andy Burnham. No comando da importante cidade desde 2017, Burnham é muito popular na ala à esquerda do partido, e a possibilidade de que desafie Starmer pela liderança trabalhista é real.
Por essa razão, quando comunicou à chefia do partido que pretendia concorrer a uma vaga no Parlamento em 2026 em uma eleição especial no distrito de Gorton e Denton, Burnham viu a executiva nacional barrar seu pedido. Localizado em Manchester, a zona eleitoral vota nos trabalhistas há décadas.
Starmer justificou a decisão dizendo que queria evitar “uma eleição desnecessária” para a Prefeitura de Manchester, mas críticos viram uma tentativa do premiê de se proteger de desafios -hoje, Burnham não pode ser escolhido como novo líder trabalhista, uma vez que apenas membros da Câmara dos Comuns podem se tornar premiês.
A eleição especial, desencadeada pela renúncia de um parlamentar trabalhista por motivos de saúde, acontece no dia 26 de fevereiro. A imprensa britânica afirma que os candidatos do Partido Verde e do ultradireitista Reform UK são tão competitivos quanto os trabalhistas, e uma derrota no distrito seria desastrosa para Starmer, especialmente após barrar Burnham da disputa.
A saída do braço direito de Starmer não fez o escândalo arrefecer, e mais três assessores já foram removidos desde o início da crise -sem sinal de que essas demissões fortalecerão a precária posição do líder trabalhista.
Líderes da oposição, como Nigel Farage, do Reform, e a conservadora Kemi Badenoch exigem a renúncia de Starmer, assim como Sarwar, a figura mais sênior do partido do premiê a pedir sua saída até aqui.
Em resposta, na última terça-feira (10), em evento em Hertfordshire, na periferia de Londres, Starmer foi categórico. “Estou lutando por milhões de pessoas que sofrem porque o sistema não funciona para elas.
Nunca abandonarei essa luta e nunca abandonarei o mandato que me foi dado para mudar esse país”, afirmou.
Se Starmer se mantiver firme nessa decisão, seus correligionários precisariam removê-lo. Embora a troca de premiês sem eleições por conta de disputas internas seja comum em países parlamentaristas -o próprio Reino Unido teve seis líderes e apenas três eleições desde 2016-, o Partido Trabalhista nunca o fez em toda a sua história.
Isso acontece porque, diferentemente do Partido Conservador, onde pode haver um voto de desconfiança contra o premiê, um líder trabalhista só perde o cargo em uma votação que eleja um sucessor. Isso significa que facções precisam angariar apoio suficiente em torno de uma alternativa, o que é mais politicamente delicado do que apenas remover o líder