O professor de História Pedro Santiago, de 30 anos, encontrou no videogame uma forma de aproximar o conteúdo escolar das linguagens que os estudantes já conhecem e consomem no dia a dia, sem abrir mão do rigor da disciplina. Há dez anos em sala de aula, ele passou a utilizar jogos digitais como recurso pedagógico nas turmas da 3ª série do Ensino Médio do Colégio Estadual Martins Borges, em Rio Verde, no sudoeste de Goiás.
Em entrevista ao Mais Goiás, Pedro explicou que os jogos, assim como filmes, livros e músicas, constroem narrativas sobre o passado, fazem recortes e apresentam pontos de vista específicos. Segundo ele, isso possibilita um espaço para leitura crítica e para a problematização em sala de aula.
A estudante Wanessa de Sousa Pontes, de 16 anos, afirma que as aulas do professor Pedro se destacam pela dinâmica. Segundo ela, a proposta vai além de compreender a matéria: permite que os alunos se conectem com os temas estudados. A aluna cita como exemplo a vez em que o professor abordou a crueldade do gás mostarda utilizado na Primeira Guerra Mundial. Para ela, ao visualizar a cena de forma gráfica, o conteúdo se torna mais real e palpável, facilitando a compreensão do impacto humano dos acontecimentos históricos.
Segundo o professor, um dos recursos utilizados nas aulas é o jogo eletrônico Verdun, ambientado na Primeira Guerra Mundial e inspirado na Batalha de Verdun, de 1916. O game simula a guerra de trincheiras na frente ocidental, priorizando uma experiência mais realista e estratégica, com uso de armas da época, artilharia e atuação em esquadrões, nos quais cada jogador exerce uma função específica. Ao retratar as condições históricas do conflito e a dinâmica da guerra de posição, o jogo contribui para que os estudantes compreendam, de forma mais concreta, os impactos humanos e tecnológicos do período.
Alunos mais engajados
Pedro destaca que a participação dos estudantes aumentou significativamente com a metodologia. “Os estudantes ficam mais engajados e mais ativos na construção da aula, trazendo exemplos, possibilidades e conexões com outros conteúdos. É muito interessante porque, muitas vezes, eles conhecem o jogo melhor do que eu, mas quando trabalhamos esse recurso com intencionalidade pedagógica, eles passam a enxergar um conjunto de possibilidades que antes não percebiam”, relata.
Segundo o professor, os alunos são estimulados a problematizar as narrativas apresentadas nos jogos. “Eles entendem que o jogo não é o passado como aconteceu, mas uma reconstrução com escolhas e intencionalidades. A partir disso, analisamos quais discursos estão presentes, quem aparece como protagonista, quem fica invizibilizado e como isso dialoga com outras interpretações históricas”, explica.
Além dos games, Pedro também desenvolve atividades em que os próprios estudantes produzem vídeos, debatendo conceitos como uso de fontes históricas, recorte, linguagem e escolhas narrativas. O objetivo é desnaturalizar a ideia de neutralidade nas produções audiovisuais e fortalecer a leitura crítica.
A iniciativa está alinhada ao Documento Curricular de Goiás e à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), garantindo que o uso da tecnologia esteja integrado às habilidades previstas para a rede estadual. Segundo o professor, o engajamento dos alunos aumentou significativamente após a adoção da metodologia, refletindo inclusive nas avaliações.
Apesar dos resultados positivos, ele ressalta que a estratégia exige planejamento e depende das condições estruturais de cada escola, como acesso à tecnologia e familiaridade do docente com o universo dos jogos digitais. “A ideia não é depender exclusivamente dos games, mas buscar diferentes caminhos para dar sentido à aula e valorizar as vivências dos estudantes”, destaca.
Jogos também podem ser utilizados em outras disciplinas
Pedro contou que recebe feedback de outros profissionais que também utilizam esse tipo de metodologia em sala. Segundo ele, em disciplinas como Geografia e Matemática, por exemplo, o jogo Minecraft aparece como recurso para trabalhar conteúdos como noções de espaço e território, além de conceitos matemáticos, como ângulos e construção de formas geométricas.
Ele afirma que também é possível explorar temas como recursos minerais e mineração a partir do próprio ambiente do jogo, sempre com mediação pedagógica e objetivos pedagógicos bem definidos.