Projeto apoiado pela FAPDF investiga uso responsável da inteligência artificial

Projeto apoiado pela FAPDF investiga uso responsável da inteligência artificial
Projeto apoiado pela FAPDF investiga uso responsável da inteligência artificial – Reprodução

Um projeto desenvolvido no Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília (UnB), com apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa (FAPDF), investiga os desafios e limites da inteligência artificial no Brasil. A pesquisa, coordenada pelo professor Philippe Claude Thierry Lacour, examina os fundamentos epistemológicos da tecnologia para entender como ela funciona e até onde pode ir.

O núcleo da pesquisa sobre inteligência artificial

A inteligência artificial já está presente em diversas dimensões da rotina, como em celulares, no ambiente de trabalho e em serviços públicos, recomendando conteúdos, selecionando currículos e auxiliando em diagnósticos médicos. O projeto é apoiado pela FAPDF por meio do edital Demanda Espontânea (2023), que faz parte do Programa de Pesquisa Básica da instituição, direcionado a projetos em níveis iniciais de maturidade tecnológica.

Coordenado pelo professor Philippe Claude Thierry Lacour, o estudo se dedica a examinar os fundamentos epistemológicos da IA. “A inteligência artificial opera principalmente por cálculo formal, probabilidade e indução. O problema é que esses mecanismos não esgotam as formas de racionalidade que estruturam o conhecimento humano”, afirma o professor.

Segundo Philippe Lacour, o apoio da FAPDF foi decisivo para consolidar o grupo de pesquisa. “O fomento da FAPDF foi crucial para estruturar uma dinâmica coletiva de investigação, formar estudantes e ampliar cooperações internacionais. Nosso objetivo é consolidar, no Distrito Federal, um polo de reflexão crítica sobre inteligência artificial”, disse o coordenador do estudo.

Cálculo não é compreensão

Um dos eixos centrais do projeto é demonstrar que os grandes modelos contemporâneos de IA são eficientes na identificação de padrões, mas não produzem explicações causais no sentido científico clássico. A pesquisa distingue dois níveis fundamentais:

  • correlação estatística, que identifica padrões recorrentes em grandes bases de dados;
  • explicação científica, que envolve causalidade, fundamentação teórica e interpretação.

De acordo com Lacour, a IA funciona como um instrumento heurístico, capaz de organizar informações e formular hipóteses, mas não substitui o processo explicativo que caracteriza a ciência. “A IA é racional, mas não é uma ciência completa. Ela identifica regularidades, mas isso não equivale a explicar causas”, pontuou.

Essa distinção é relevante em áreas como saúde, direito e na formulação de políticas públicas, onde decisões exigem justificativas transparentes.

Tradução automática como estudo de caso

Para aprofundar a análise, o projeto retoma o campo da tradução automática, área que deu origem histórica à própria inteligência artificial. Ao examinar os limites da tradução de textos culturais e filosóficos, a pesquisa demonstra que o sentido não se reduz à frequência estatística de palavras. Traduzir envolve interpretação, comparação de contextos e escolhas qualitativas, evidenciando que existem dimensões da racionalidade humana que não podem ser integralmente formalizadas por algoritmos.

Críticas e impactos sociais da inteligência artificial

O estudo também sistematiza críticas contemporâneas à IA em dois níveis. As críticas internas dizem respeito aos próprios limites do cálculo formal, da probabilidade e da indução. Já as críticas externas envolvem impactos sociais e políticos, como:

  • vieses algorítmicos;
  • riscos à privacidade de dados;
  • concentração de poder tecnológico;
  • consumo de energia elevado.

O funcionamento das atuais aplicações de IA baseia-se em grandes modelos de linguagem, que dependem de infraestrutura computacional de alto desempenho. O processo de treinamento consome grande quantidade de energia elétrica e exige sistemas de resfriamento intensivos. Mesmo após o treinamento, o consumo energético continua, pois cada interação é processada em data centers que consomem energia permanentemente.

A expansão da IA tem levantado debates sobre sustentabilidade ambiental e responsabilidade no uso da tecnologia, especialmente no cenário de transição energética.

Formação e consolidação de um polo crítico

O projeto fomenta bolsas de iniciação científica e apoio técnico, produção acadêmica e cooperação internacional, fortalecendo a Universidade de Brasília como referência no debate filosófico sobre inteligência artificial. A iniciativa contribui para a construção de fundamentos teóricos capazes de orientar políticas públicas, regulamentações e decisões institucionais.

*Com informações da FAPDF

T LB

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