Rejeitos de barragem de Brumadinho se espalharam por ao menos 2,4 mil hectares após cheias

Os rejeitos da barragem da mina Córrego do Feijão, da Vale, que se rompeu há sete anos, alcançaram uma área de ao menos 2,4 mil hectares com as enchentes que atingiram municípios da região de Brumadinho (MG) em 2020 e 2022.

A conclusão é de um estudo feito por pesquisadores do Nacab (Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens).

Por meio de imagens públicas de satélite, os pesquisadores buscaram identificar o aumento da incidência de óxido de ferro, de vegetação suprimida e da concentração de argila na área afetada pelas enchentes em 2020 e 2022.

As cheias da época fizeram transbordar o rio Paraopeba, o curso mais atingido pelos rejeitos da barragem da Vale.

O artigo está em análise avançada para ser publicado pela revista acadêmica Remote Sensing Applications Society and Environment e está em fase de pré-print (ainda sem revisão por pares), mas já foi disponibilizado na página da revista.

A análise ficou restrita à região do médio Paraopeba, que abrange dez municípios e é onde atua o Nacab.

“Cada elemento na superfície tem uma resposta espectral, como se fosse uma assinatura digital relacionada ao que ele reflete de luz, de energia. Não é diferente para argila e ferro, materiais que predominam nos rejeitos”, afirma Hugo Salis, engenheiro florestal e um dos autores do estudo.

O estudo buscou identificar quatro “anomalias” na área atingida pelas enchentes: a alta incidência de argila, de redução da vegetação e de ferro tipo I e de ferro tipo II, indícios característicos de rejeitos da mineração.

Segundo os pesquisadores, nos locais em que as quatro anomalias aparecem de forma simultânea nas imagens de satélite, é onde existe a principal evidência dos rejeitos da barragem da Vale. Essa área corresponde a 2.442 hectares e representa 17,1% da área de inundação considerada no estudo.

O pesquisador afirma que a estimativa é conservadora, e não exclui a possibilidade de que possa haver rejeitos em casos de duas ou três anomalias encontradas simultaneamente -em 50% e 40% da área de inundação, respectivamente.

A diretora de reparação da Vale, Gleuza Jesué, afirma à Folha que dados históricos pré-rompimento já apontavam para a incidência de metais pesados no rio Paraopeba, devido ao descarte ilegal de efluentes sanitários e industriais na região. Ela diz que esses materiais sempre foram levados para a margem em épocas de cheias.

“Nosso rejeito é inerte [sem movimento] e atóxico. Todos os elementos contidos nele estão abaixo dos padrões legais”, afirma.

A Vale também encaminhou nota em que afirma que após as enchentes de 2022 empresas especializadas fizeram mais de 2.000 análises em cerca de 100 amostras coletadas na bacia do rio Paraopeba. A conclusão foi de que os sedimentos não apresentavam semelhança com os rejeitos, diz a empresa.

No estudo, os autores identificaram a “zona de anomalias”, área que foi inundada com as cheias de 2020 e 2022, e cruzaram os resultados captados com aqueles indicados na chamada “zona quente”, território de 290 hectares que fica localizado no entorno da barragem rompida e que serve como referência para a caracterização espectral dos rejeitos “puros”.

Eles ainda consideraram uma área “testemunho” situada antes do ponto do rompimento e que preserva as características que existiam em toda a região antes de 2019.

Os gráficos do estudo mostram que a identidade dos espectros das zonas de anomalias e testemunho é quase idêntica nos anos anteriores ao rompimento. A partir de 2020, porém, a característica dos espectros da área inundada converge com os da zona quente.

O resultado do levantamento feito pelo Nacab é reforçado pelo depoimento da produtora rural Mona Lisa Cardoso, 63, cuja propriedade, no município de Paraopeba (127 km de Brumadinho), fica a 700 metros do rio de mesmo nome.

“A enchente de 2020 trouxe o rejeito, com um cheiro terrível, aquela água horrorosa. Queimou a plantação, queimou tudo. E [o rejeito] ficou lá, e a água não drenava. Quando conseguiu drenar e veio o verão, ficou aqueles blocos de um barro esquisito, um trem pesado”, afirma a produtora.

“Veio a enchente de 2022, aconteceu a mesma coisa, mas as nossas terras já estavam impermeabilizadas. Quando o rio encheu e não tinha para onde a água ir, ela veio subindo, pegou poço artesiano, lugar de guardar silagem, teve casa que ficou com água no teto”.

Mona Lisa afirma que 94% de sua propriedade de 54 hectares está contaminada. “Eu só tenho uma faixa [não contaminada] que é onde o gado fica e uma parte lateral em que ele sobe. Meu gado vive praticamente confinado”.

A produtora, que trabalhava também com plantações de milho, abóbora e feijão antes do rompimento, hoje cuida de 125 cabeças de gado diante da impossibilidade de cultivar alimentos na área.

“Eu só tenho gado hoje porque a Vale me fornece o silo e a água, porque fez um poço artesiano para mim. Se amanhã falarem que não vão mais me dar silagem, eu vendo minha produção a qualquer preço, porque não tenho mais o que fazer”.

A gerente de reparação da mineradora diz que a companhia seguirá garantindo o fornecimento de insumos aos produtores até que o rio Paraopeba esteja liberado para a captação de água para atividades agrícolas. A decisão cabe aos órgãos ambientais do Governo de Minas.

T CSM

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