07/01/2026

Relações impróprias de magistrados

Fachada do prédio do Banco Master, no Itaim Bibi, em São Paulo — Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo

O caso Master coloca na mesa questões cruciais como as relações de ministros do STF e escritórios de advocacia de parentes

Chama a atenção uma frase curta numa das notas em que o ministro Alexandre de Moraes nega ter mantido conversas sobre o caso Master com o presidente do BC, Gabriel Galípolo. Diz a frase: “Por fim, (o ministro) esclarece que o escritório de advocacia de sua esposa jamais atuou na operação de aquisição BRB-Master perante o Banco Central.”

Viviane Barci de Moraes, titular do escritório, não fez qualquer declaração sobre suas atividades nesse caso, desde que a colunista Malu Gaspar revelou a existência de um contrato milionário com o Banco Master. De amplo alcance, o contrato previa atuação junto a várias instituições, incluindo o Banco Central.

De modo que já temos aqui não um, mas dois fatos que chamam a atenção. Primeiro, é o marido, ministro do STF, que presta informação sobre a atividade do escritório de sua esposa. Sendo óbvio que Moraes não pode ser sócio de sua mulher nesse negócio.

Segundo, o caso mais importante do Master — que ameaçava sua existência — estava justamente na fiscalização do BC, que acabou por liquidar o banco de Daniel Vorcaro. Mas ali Viviane Barci não se envolveu, como ficamos sabendo não por ela, mas por nota de seu marido.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirma que não há qualquer ilicitude no contrato entre o escritório de Viviane Barci e o Banco Master. Digamos que a tese é discutível, mas a manifestação do PGR confirma formalmente a existência do contrato.

Estava correta, portanto, a primeira informação da jornalista Malu Gaspar. Mas a colunista acrescentou que Moraes fez pressão sobre o presidente do BC, em favor do Banco Master. Outros jornalistas apuraram a mesma história básica, com diferenças de nuances.

Moraes desmente. Disse que esteve com Galípolo para tratar dos efeitos da Lei Magnistiky. O presidente do BC, em nota curtíssima, confirmou essas reuniões. Mas não negou a ocorrência de outros encontros e/ou telefonemas, que seriam sobre o caso Master.

Por outro lado, Galípolo informou que toda a movimentação do BC está registrada e documentada. Fácil, portanto, saber onde está a verdade. Mesmo porque o presidente do BC se colocou pessoalmente à disposição dos órgãos que investigam a liquidação do Master.

O problema é que outro ministro do Supremo, Dias Toffoli, colocou todo o caso sob sigilo. Mas qual caso exatamente?

Do pouco que se soube, parece que Toffoli está interessado em descobrir se o BC teria demorado demais para apurar fraudes na atividade do Master e, portanto, teria agido tardiamente.

Mais circunstâncias estranhas aparecem aqui. Por que Toffoli não chamou Galípolo para prestar as informações? O ministro preferiu convocar o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, aparentemente um elo mais fraco e que não conhece toda a história, como a conhece o presidente do BC — inclusive as pressões exercidas por políticos.

De outro lado, entrou no caso um ministro do Tribunal de Contas da União, Jonathan de Jesus, ex-deputado do Centrão. Se Toffoli estaria interessado em saber se o BC se atrasou, o ministro do TCU considera precipitada a liquidação do Master.

De qualquer modo, o resultado dos dois processos daria na mesma: a anulação da liquidação, a devolução do Master a Daniel Vorcaro e eventual punição aos diretores do BC. E um enorme impacto negativo no sistema financeiro.

Quem teria interesse nisso? Vorcaro, claro, e um amplo elenco de políticos e governantes que fizeram negócios com o Master.

O caso Master é, de longe, o maior desastre do sistema financeiro. As possíveis fraudes e operações impróprias passam de uma dezena de bilhões de reais. E colocam na mesa questões tão cruciais como as relações de ministros do STF e escritórios de advocacia de cônjuges e parentes.

No discurso inaugural de 2026, o presidente do Supremo, Edson Fachin, disse que o Judiciário deve promover a transparência para ganhar a confiança da sociedade.

Confiança que se perde com relações impróprias de magistrados, tudo sob sigilo. E quando vaza alguma coisa, é constrangedora.

Tribuna Livre, com informações da Agência O Globo

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