A relatora especial das Nações Unidas para os direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, Francesca Albanese, apresentou um relatório acusando Israel de praticar tortura de forma sistemática e generalizada contra palestinos, incluindo crianças, mulheres e homens. Publicado nesta semana, o documento, baseado em mais de 300 depoimentos de sobreviventes, denunciantes e organizações, afirma que essas violações são apoiadas pelos altos escalões do Executivo, Legislativo e Judiciário israelenses, além de segmentos da sociedade civil, como profissionais de saúde, autoridades religiosas e jornalistas.
Albanese descreve as torturas como uma doutrina de Estado, que ganhou escala sem precedentes desde outubro de 2023, com práticas brutais como estupros, incluindo coletivos com objetos, espancamentos, choques elétricos nos genitais, fome induzida, privação de sono, afogamento simulado, queimaduras e uso de cães de ataque. Os detidos são retratados como ‘esqueletos humanos’, com relatos de oficiais urinando sobre eles. A relatora destaca que crianças são detidas administrativamente, sem acusações formais, negando-lhes contato com família e advogados.
Desde outubro de 2023, Israel prendeu mais de 18,5 mil palestinos, incluindo pelo menos 1,5 mil crianças. Em fevereiro deste ano, cerca de 3,3 mil permaneciam sem acusação, e outras 4 mil teriam sofrido desaparecimento forçado, com probabilidades de mortes. O acesso de advogados e organizações humanitárias aos centros de detenção tem sido negado.
O relatório aponta impunidade quase total no sistema judiciário israelense, que prioriza a segurança sobre direitos fundamentais. Tribunais militares da Cisjordânia validam confissões obtidas sob coação. Entre 2001 e 2020, mais de 1.300 denúncias de tortura resultaram em apenas duas investigações e nenhuma acusação. Desde outubro de 2023, entre 84 e 94 palestinos morreram sob custódia, incluindo o caso de Walid Khalid Ahmad, 17 anos, em março de 2025, devido a inanição e negligência na prisão de Megido. Apenas um caso chegou a julgamento, com um reservista condenado a sete meses em fevereiro de 2025 por agressões.
Um episódio destacado é o suposto estupro coletivo de um prisioneiro na prisão de Sde Teiman, em julho de 2024, gravado em vídeo vazado. Guardas protegeram o ato com escudos, e o vazador foi processado, enquanto os perpetradores foram celebrados por autoridades, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que em março deste ano retirou acusações contra cinco soldados, chamando-os de ‘guerreiros heroicos’.
Albanese atribui a escalada a um plano coordenado pelo ministro de Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, que defendeu reduções calóricas e degradação das condições prisionais. Ela conclui que a tortura institucionalizada compõe um genocídio em curso, visando anexar territórios palestinos e forçar deslocamentos, sustentado por uma ‘indústria global de segurança’ e inação internacional. A relatora urge os Estados a prevenir e punir tais violações.
Israel rejeitou o relatório, com sua missão em Genebra acusando Albanese de antissemitismo e ativismo político, afirmando que o documento mina a credibilidade da ONU. O governo de Netanyahu defendeu que a relatora desonra a instituição e perdeu autoridade para tratar de direitos humanos.