Estão disponíveis para consulta os relatórios com premissas e resultados de cenários que apoiaram a elaboração da segunda Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil para 2035, apresentada em 2024 durante a COP29, e do Plano Clima Mitigação, que inclui a Estratégia Nacional de Mitigação e os Planos Setoriais. Esses documentos definem trajetórias setoriais e políticas de descarbonização até 2035, alinhados à meta de neutralidade de emissões até 2050.
Os cenários de longo prazo foram elaborados por pesquisadores do Centro de Economia Energética e Ambiental (Cenergia) da COPPE da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que integra a Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima). O grupo foi contratado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e financiado pela União Europeia por meio da GIZ, agência de cooperação alemã, para identificar os melhores caminhos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa no país.
“Essa é uma contribuição científica fundamental para o planejamento climático nacional de longo prazo. O esforço técnico-científico que permite a rastreabilidade dos dados reforça o comprometimento com a transparência climática e fortalece a utilização de evidências para a definição de políticas públicas. É a primeira vez que o país estipula metas setoriais para redução das emissões de gases de efeito estufa e que a ciência brasileira foi totalmente utilizada para orientar a tomada de decisão”, afirma a secretária de Políticas e Programas Estratégicos do MCTI, Andrea Latgé.
Os cenários foram gerados com o modelo Sistemas de Energia e Uso da Terra do Brasil (BLUES), um modelo nacional de análise integrada que representa a evolução do sistema energético e do uso do solo sob diferentes restrições tecnológicas, econômicas e ambientais. “O Blues entra em uma categoria de modelos baseado em processos, que é tecnologicamente muito detalhado. As tecnologias estão explicitamente representadas no modelo. Não há outro modelo integrado no mundo com esse grau de detalhamento”, explica o pesquisador e coordenador do Cenergia, Roberto Schaeffer.
Diferente de modelos integrados econômicos que calculam apenas custos, o BLUES testa todas as tecnologias e seleciona as trajetórias de menor custo e maior efetividade, considerando a economia como um todo. A pergunta central respondida pelo modelo foi: qual o caminho para o Brasil alcançar emissões líquidas zero até 2050 com o mínimo custo, garantindo o atendimento de toda a demanda do país e a redução de emissões de gases de efeito estufa.
O modelo representa a realidade brasileira com mais de 30 mil tecnologias distribuídas entre setores da economia, incluindo cadeias de oferta e demanda em energia, transportes, indústria, edificações e resíduos, além do sistema de uso do solo com agricultura, pecuária, florestas e tecnologias disruptivas. Ele abrange seis regiões, corresponde às macrorregiões brasileiras e uma agregada nacional, com horizonte de simulação de 2020 a 2060 em intervalos de cinco anos. Além disso, integra um módulo de água com 12 bacias hidrográficas e de poluição atmosférica, e dialoga com o modelo global Coffee para avaliar interações com demandas internacionais de energia e alimentos.
O BLUES considerou premissas de políticas setoriais, como redução do desmatamento e percentual de etanol na gasolina, além de dados do Inventário Nacional de GEE. O desmatamento legal foi identificado como variável-chave na integração de medidas entre setores. Durante o processo, foram realizadas mais de 60 oficinas, reuniões e seminários, com cerca de 800 horas dedicadas ao diálogo entre academia, sociedade civil e governo federal.
O modelo BLUES é reconhecido internacionalmente e é o único do Sul Global considerado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). No Brasil, tem sido usado em iniciativas como cenários para estados de Pernambuco e Minas Gerais, avaliações para a Febraban pós-Acordo de Paris, o Programa de Transição Energética de 2023 e estudos sobre minerais críticos para metas de mitigação.
A utilização de evidências científicas na NDC brasileira trouxe prestígio internacional pela transparência e robustez. “Conseguimos justificar cada vírgula”, afirma Schaeffer, que colabora com o IPCC. Os resultados subsidiaram as metas setoriais do Plano Clima, com ajustes possíveis por questões sociais, econômicas e políticas não capturadas pelo modelo, mantendo o processo transparente.