O edifício-sede do Ministério da Educação (MEC), em Brasília, abriga uma obra de grande valor histórico: o Painel Educação, criado pela artista Gilda Reis em 1960. Encomendado pelo arquiteto Oscar Niemeyer durante a construção da capital federal, o afresco de 15 metros quadrados retrata contrastes na realidade educacional brasileira. De um lado, estudantes uniformizados e sorridentes; do outro, uma mãe com filhos descalços, expressando olhares distantes e sem esperança.
Originalmente posicionado no gabinete do ministro, o painel simbolizava o compromisso com a educação pública. No entanto, ao longo dos anos, sofreu com descaso e negligência. Agora, a restauração está a cargo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), por meio de um termo de execução descentralizada (TED). O projeto integra o Programa Multiações para o Patrimônio Cultural, do curso de conservação e restauração de bens culturais móveis da instituição. A finalização e entrega da obra estão previstas para o segundo semestre de 2026.
O professor Roberto Heiden, do Departamento de Museologia, Conservação e Restauro da UFPel, destaca a importância da iniciativa para a preservação do patrimônio nacional e a história da arte brasileira. “É fundamental salientar que se trata da obra de uma artista mulher e que, no contexto da história da arte no Brasil, não faltam exemplos de invisibilização de trajetórias femininas”, afirma. Ele ressalta que Gilda Reis, ao longo de sua carreira, foi frequentemente exaltada pela imprensa por sua beleza, relegando sua produção artística a segundo plano, um reflexo do machismo estrutural.
O convite para a realização do painel veio por intermédio do irmão de Gilda, o arquiteto Wilson Reis Neto, integrante da equipe de Niemeyer. Em entrevista ao Correio Braziliense em 2009, a artista relatou que Niemeyer ficou surpreso ao vê-la pintando, sem saber previamente que era mulher. Heiden enfatiza que o projeto de restauração contribui para a revalorização da obra, especialmente raro em um século XX com poucas mulheres atuando na pintura mural no Brasil.
Gilda Reis, nascida no Rio de Janeiro em 1928 e falecida em 2017, teve uma extensa trajetória artística. Estudou com Ivan Serpa e André Lhote no Brasil, e em Paris foi bolsista na Académie de la Grande Chaumière e no Ateliê Kokoschka. Participou de mais de 50 exposições individuais e coletivas no Brasil e exterior. Em Brasília, pintou murais na Escola Parque (1959-1961) e no Iate Clube (1962), ambos destruídos posteriormente. Outras obras suas estão no Museu Casa dos Pilões, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e em uma residência em Anápolis (GO).
A artista recebeu medalha de bronze no 33º Salão de Artes Plásticas da Associação dos Artistas Brasileiros em 1962, participou da VII Bienal de São Paulo em 1963 e foi convidada no 2º Salão de Arte Moderna do Distrito Federal em 1966. Entre 1967 e 1982, viveu e trabalhou nos Estados Unidos e na Argentina, retornando ao Brasil em 1982. Sua última exposição individual ocorreu no Rio de Janeiro em 1999.