Rio, 22 – O sistema de monitoramento por câmeras de Praia do Forte, na Bahia, um dos destinos turísticos mais badalados do País, foi determinante para prender o empresário paulista Sérgio Nahas, de 61 anos, condenado por assassinar sua mulher, Fernanda Orfali, então com 28 anos, em 2002.
Ele foi localizado e preso no sábado, dia 17, em um condomínio de luxo pela Polícia Militar baiana. Ao Estadão, a defesa disse que ele está com problemas de saúde e não tinha interesse de ficar foragido.
Há quase 24 anos, o crime ocorreu no apartamento onde o casal morava, em Higienópolis, região central de São Paulo. Fernanda foi atingida por um disparo no peito após ela pedir a separação. Segundo a investigação, ela havia confrontado o marido pelo uso abusivo de cocaína e um relacionamento amoroso que ele mantinha
Durante o processo, o Ministério Público defendeu a condenação por homicídio qualificado. A defesa, entretanto, sustentou a tese de que Fernanda sofria de depressão severa e cometeu suicídio. A família Orfali sempre rechaçou esta versão e afirma que ela jamais passou por tratamento psiquiátrico. Após uma série de recursos, o julgamento de Nahas ocorreu 16 anos após do assassinato. Ele foi condenado em júri popular por homicídio simples, sem qualificadoras, e sentenciado em primeira instância à pena de sete anos em regime semiaberto.
O Ministério Público recorreu e a pena foi elevada para 8 anos e 2 meses de prisão. No ano em que o crime ocorreu, não havia a Lei do Feminicídio (2015), nem mesmo a Lei Maria da Penha (2006)
Nahas permaneceu em liberdade enquanto recorria da condenação. Quando o caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), a Corte confirmou a pena do empresário e determinou o cumprimento imediato, inicialmente em regime fechado. A defesa ainda apresentou novos embargos até a condenação transitar em julgado. Em junho de 2025, o juiz da 1ª Vara do Júri na capital, Roberto Zanichelli Cintra, expediu o mandado de prisão do empresário e determinou a inclusão dele na Difusão Vermelha da Interpol. Havia o receio de que ele estivesse foragido no exterior.
LIVREMENTE
Ele circulava livremente pelas ruas de Praia do Forte, onde em 2002 passou a lua-de-mel com Fernanda seis meses antes de assassiná-la. Foi, então, reconhecido pelas câmeras de videomonitoramento e reconhecimento facial. Os policiais confirmaram a identidade com mandado de prisão em aberto e localizaram o empresário no condomínio Kawai, na Praia dos Artistas, no centro de Praia do Forte.
Ao ser abordado, não ofereceu resistência. Com Nahas, a polícia encontrou 17 pinos de cocaína, três aparelhos celulares, um carro modelo Audi, cartões de crédito e medicamentos de uso contínuo.
“Nestes 23 anos de meio de luta, uma luta incansável, eu sempre acreditei que minha irmã, primeiro, não tinha se matado. E, segundo, que merecia justiça”, afirmou o empresário Júlio Orfali, irmão de Fernanda.
“Foi uma luta muito dolorosa porque, em um crime como esse, o culpado demorou 23 anos e meio pra pagar, e com uma pena ridícula. Mesmo que seja a pouco tempo, ele vai pagar por uma destruição de uma família. Essa é uma cicatriz eterna.”
Para o advogado da família Orfali, Davi Gebara, o alto poder aquisitivo de Nahas permitiu que a tramitação do processo se alongasse na Justiça, por meio da interposição de recursos. “Observamos um padrão de atraso processual, com apresentação sucessiva de recursos e embargos”, afirmou.