O manobrista Severino José da Silva, 43, responsável pela manutenção das piscinas de uma academia na zona leste de São Paulo, disse à polícia que recebia instruções por WhatsApp de um dos sócios do estabelecimento sobre o preparo de produtos químicos.
O funcionário prestou depoimento nesta terça-feira (10) no 42º DP (Parque São Lucas), ma investigação iniciada após a professora Juliana Faustino Bassetto, 27, passar mal e morrer após uma aula de natação na academia no último sábado (7).
Câmeras de segurança mostram Severino manuseando um preparo que seria usado na limpeza da água.
O sócio, segundo o funcionário, orientava todo o trabalho e teria dito apenas “paciência” ao receber informação sobre as vítimas.
O preparo não chegou a ser lançado na piscina, mas o balde com o líquido foi deixado ao lado da água, o que teria intoxicado o ambiente, que é fechado. Juliana chegou a ser levada para um hospital, onde morreu. O marido dela segue internado, assim como um adolescente de 14 anos. Ambos estavam na mesma aula.
A direção da Academia C4 GYM tem dito lamentar profundamente o ocorrido e afirma que prestou imediato atendimento a todos os envolvidos. Declara ainda que tem mantido contato direto com as pessoas envolvidas para oferecer todo o suporte e que está colaborando integralmente com as autoridades competentes.
Severino estava acompanhado nesta terça da advogada Bárbara Bonvicini. O manobrista contou que trabalha na academia C4 Gym há cerca de três anos.
Além de dirigir carros de alunos, ele disse que sempre exerceu outras atividades solicitadas por seu chefe, sócio da academia, como abertura do estabelecimento e manutenção das piscinas.
Ele afirmou não possuir habilitação técnica para manuseio das piscinas ou dos produtos químicos para a limpeza, e que tal situação era de conhecimento do proprietário.
Severino relatou que aprendeu com um antigo manobrista a fazer as manutenções, medir os níveis da água e do cloro, fotografar o resultado e encaminhar ao sócio da academia.
De acordo com o funcionário, há cerca de um ano a piscina apresentou grande quantidade de sujeira e formação de espuma, o que levou o sócio a contratar um especialista, que trabalhou por uma semana, até estabilizar o problema. O homem teria se oferecido para trabalhar de forma permanente, o que foi recusado pelo chefe.
Sócio orientou uso de produto para tirar turbidez da água
Severino relatou para os investigadores ter notado na quinta-feira (5) que a água da piscina estava turva. Ele então fez a análise usual e encaminhou para o sócio da academia.
A resposta, que veio na sexta-feira (6), era a de que seriam aplicados produtos na tentativa de sanar o problema para o final de semana. Naquele mesmo dia foi pedido que o manobrista aplicasse o cloro na piscina grande, segundo seu depoimento,
Após a última aula do dia, Severino aplicou duas medidas do produto HidroAll Hipercloro 60 e deixou o sistema da piscina na função filtrar.
Ainda segundo o funcionário, no sábado pela manhã ele abriu a academia e constatou que a água continuava turva.
Segundo o depoimento de Severino, o sócio viu por meio das câmeras que a qualidade da água continuava inadequada e solicitou nova testagem, o que foi feito.
Após o envio da foto, o sócio teria respondido para Severino que ele deveria aplicar de seis a oito medidas do cloro HidroAll Hipercloro 60 na piscina grande.
Severino afirmou não ter despejado o produto na piscina. No entanto, cumprindo as determinações do dono da academia, entre 13h20 e 13h30 preparou a solução, retirando um balde de água da piscina, deslocando-se até o depósito e colocando seis medidas de cloro no balde. “Após isso, deixou o recipiente próximo ao acesso do trocador infantil, a cerca de dois metros da borda da piscina grande, e retornou para a parte frontal da academia para exercer suas funções de manobrista”, segundo trecho do depoimento.
Dez minutos depois, disse, ele notou uma movimentação incomum e viu uma mulher sentada na recepção, amparada pelo marido -ambos com roupas de banho.
Severino seguiu para o interior da academia e percebeu forte odor de cloro no ambiente. Ao se aproximar das piscinas, viu um pai socorrendo o filho adolescente.
O manobrista disse ter avisado aos professores para retirar os alunos do local.
Severino afirmou aos policiais ter sentido dificuldade de respirar no ambiente. Ao sair do local, notou a passagem de uma viatura da Guarda Civil Metropolitana e pediu ajuda. Ela ainda disse ter feito contato com o Corpo de Bombeiros e o Samu, mas nenhuma equipe respondeu, segundo ele.
Severino disse ter utilizado uma camiseta para cobrir a boca e nariz para pegar o balde com a solução, que foi levado para uma área externa, onde ficam os produtos de manutenção.
Na sequência, a academia foi fechada por ele e por outra funcionária.
Assim que viu as vítimas passando mal, Severino disse ter feito três ligações para o proprietário, mas sem resposta. O retorno ocorreu por volta das 14h11, quando o local já havia sido evacuado e as vítimas deixado a academia.
O sócio teria apenas respondido “paciência”, sem fornecer orientações. Ainda conforme o depoimento, o sócio o ligou no domingo e disse: “Vai, sai de casa que a polícia tá batendo na porta de todo mundo.”
Severino confirmou apenas ter usado o produto mencionado. Segundo ele, o uso é recente, uma vez que antes era utilizado hipoclorito de outra marca. A substituição teria sido uma determinação do sócio.
Os policiais ainda questionaram Severino sobre a ida de um homem à noite na academia, quando ela já estava fechada, registrada por câmeras de segurança.
Conforme relatou manobrista, se trata de outro funcionário que exerce as mesmas atividades que ele no período da tarde. O homem possui as chaves do local, mas não estava a serviço naquela data.