“O sol sempre brilha depois da tempestade”. Essa foi uma frase que Davidson de Souza usou em uma rede social há alguns meses. A imagem mostrava ele sobre uma cama de hospital ainda com as marcas de uma operação recém-realizada nas pernas.
Integrante da seleção brasileira de bobsled a “Fórmula 1 do gelo”, Boka, como é conhecido, esteve perto de um ponto final na carreira, mas contrariou qualquer prognóstico médico para estar nos Jogos Olímpico de Inverno de Milão-Cortina.
“Acho que reflito nisso quase todos os dias da minha vida. Sofri um acidente totalmente fora de mão e que poderia ter custado minha vida. Depois que acordei do acidente, sabia que eu tinha uma missão a ser cumprida. Falei que eu ia competir pelo Brasil e que queria ir para as Olimpíadas pelo Brasil, poder compartilhar minha experiência, a garra que eu tenho. Foi um ano muito difícil, pessoalmente. Um ano que me ensinou muita paciência e muita resiliência”, disse Davidson de Souza.
“Eu já era uma pessoa resiliente, mas, agora, sim, me considero uma pessoa resiliente e dedicada. É a dedicação que você tem de colocar no trabalho de recuperação”, completou.
Em dezembro de 2024, durante um treinamento, Davidson sofreu uma colisão de frente que resultou em uma fratura no fêmur e exigiu uma cirurgia complexa. Foi colocado um pino da altura da cintura até o joelho da perna direita.
O episódio fez com que a carreira de Boka no bobsled estivesse em xeque. Ele teve de reaprender a andar e, seis meses depois, conseguiu empurrar um trenó pela primeira vez.
Voltar depois de quebrar o osso mais forte da sua perna, o fêmur, e quatro diferentes músculos da sua perna, é uma coisa muito difícil até para voltar a andar. Imaginem voltar a correr ou empurrar um trenó de 210 quilos? Então, voltar a competir pelo Brasil, para mim, é uma honra imensa. É uma felicidade gigante. Minha família e meus amigos estão orgulhosos, depois de ter quase tido um fim em minha carreira.
DEFENDEU O CANADÁ
Davidson de Souza começou no esporte através do lançamento de disco e de dardo, ainda aos 12 anos. Aos 20, ele foi convidado a tentar vaga na seleção de bobsled. Conseguiu e foi para os Jogos Olímpicos de Sochi-2014 como reserva.
Após o torneio, vendeu alguns pertences, como moto, celular, computador, e mudou-se para o Canadá e recomeçou. No país, criou o próprio negócio e, inicialmente, mudou de modalidade, passando a se dedicar ao fisiculturismo natural. A velha paixão, porém, apareceu e ele retornou ao bobsled.
Entre 2022 e 2023 defendeu a equipe nacional do Canadá, considerada uma das mais fortes da modalidade, como breakman. Pelo país, obteve conquistas de peso, como medalhas em etapas da Copa do Mundo.
O acidente aconteceu, justamente, em um momento em que Boka já pensava na transição para voltar a defender o Brasil. “Quando aconteceu o acidente, eu já tinha decidido voltar a competir pelo Brasil, mas tinha de terminar a temporada com o Canadá”, conta.
COMPOSITOR
Boka foi autor da música “Hino do bobsled”, que embalou a seleção brasileira de bobsled nos Jogos Olímpicos de Pequim-2022. A canção, da prateleira do chamado “samba trap”, tem influências de ritmos brasileiros, como dos grupos Timbalada e Olodum,
“Em relação à letra que fiz em 2014, mudei pouca coisa. Amadurecimento ajuda bastante. Já o beat é uma releitura. Fizemos numa pegada mais abrasileirada, com mais calma, tempo, com mais amor. Algo pra dar um gás nos moleques em Pequim e também pra atingir um público maior no Brasil, pra entenderem de forma mais lúdica e fácil o que é o bobsled”, disse, à época, ao site da Confederação Brasileira de Desporto na Neve.
“Deu uma mistura bacana pra caramba”, completou.