Imagine entrar no Teatro Goiânia depois que o público foi embora e ouvir instrumentos musicais sem ninguém no palco. Ou descobrir que, debaixo de um dos prédios mais antigos da capital, existiria um túnel secreto até o Palácio das Esmeraldas. Essas histórias fazem parte das lendas urbanas associadas ao teatro, no Centro de Goiânia. Os relatos foram registrados em uma pesquisa da Universidade Estadual de Goiás (UEG), mas não há comprovação da existência dos fantasmas nem da suposta passagem subterrânea.
O Teatro Goiânia aparece entre os lugares associados às 17 lendas urbanas da capital identificadas pelo historiador Luiz Felipe Pereira Nunes. O levantamento faz parte da pesquisa “Pelas ruas de Goiânia: evocando lendas urbanas como patrimônio imaterial (2000-2023)”, apresentada à UEG em dezembro de 2024. O pesquisador analisou histórias que circulam entre moradores e investigou como esses relatos passaram a fazer parte da memória da cidade.
Inaugurado em 1942, o Teatro Goiânia é um dos prédios históricos da capital. O edifício foi projetado pelo arquiteto Jorge Félix em estilo art déco e participou das comemorações do Batismo Cultural de Goiânia, evento que marcou a inauguração oficial da cidade. Sua história pode ser consultada nos registros da Secretaria de Estado da Cultura de Goiás.
Teatro Goiânia teria túnel secreto até o Palácio das Esmeraldas?
Uma das histórias mais conhecidas afirma que existiria um túnel debaixo do Teatro Goiânia, com uma passagem subterrânea até o Palácio das Esmeraldas, na Praça Cívica.
Segundo a lenda, o corredor teria sido construído para permitir a circulação de autoridades sem que elas precisassem passar pelas ruas do Centro. A passagem faria parte de uma estrutura escondida durante a construção da nova capital.
A história desperta curiosidade porque os dois edifícios fazem parte dos primeiros anos de Goiânia e estão localizados na região central. O Teatro Goiânia foi inaugurado em 1942, enquanto o Palácio das Esmeraldas já funcionava como sede do governo estadual.
Entretanto, a pesquisa da UEG não encontrou comprovação da existência desse túnel. O levantamento registrou a história como uma lenda urbana, e não como uma descoberta arquitetônica.
Também não foi apresentada documentação que identifique a entrada, a extensão ou o percurso da suposta passagem subterrânea.
Portanto, não é possível afirmar que o Teatro Goiânia tenha uma ligação secreta com o Palácio das Esmeraldas.
Fantasmas apareceriam nos bastidores do Teatro Goiânia
Além do túnel, outra lenda envolve os bastidores do teatro. Segundo o relato popular, espíritos de antigos trabalhadores continuariam a circular pelo prédio depois da morte.
As histórias falam de passos em corredores vazios, ruídos durante a noite e sons de instrumentos musicais quando não há espetáculos. Algumas versões também mencionam vultos que apareceriam nas áreas internas.
Esses relatos fazem parte da tradição oral associada ao Teatro Goiânia. A pesquisa da UEG documentou a existência das narrativas, mas não confirmou que os acontecimentos tenham origem sobrenatural.
O estudo também não identifica, de forma comprovada, quem seriam os supostos fantasmas ou quais antigos funcionários estariam relacionados às aparições.
A fama de assombração, portanto, está ligada às histórias transmitidas sobre o edifício, e não a evidências de atividade paranormal.
Teatro Goiânia foi construído nos primeiros anos da capital
Muito antes de ganhar fama de mal-assombrado, o Teatro Goiânia já fazia parte de um dos momentos mais importantes da história da cidade.
A construção começou em 1940 e foi concluída em 1942. O prédio nasceu como Cine Teatro Goiânia, preparado para receber apresentações artísticas e sessões de cinema.
O edifício também foi escolhido para sediar solenidades do Batismo Cultural de Goiânia, realizado em julho de 1942. A programação reuniu autoridades e convidados de diferentes regiões do país.
A fachada foi construída no estilo art déco, caracterizado por formas geométricas e linhas marcantes. Segundo registros históricos da Assembleia Legislativa de Goiás, o projeto também buscava lembrar um navio transatlântico.
O Teatro Goiânia passou por reformas ao longo dos anos e foi reconhecido como patrimônio histórico nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2003.
Atualmente, o espaço continua a receber peças, concertos, apresentações de dança e espetáculos musicais. Informações sobre sua história e funcionamento estão disponíveis na página oficial do Teatro Goiânia.
Por que o Teatro Goiânia ganhou fama de mal-assombrado?
O teatro reúne características que ajudam a explicar sua presença nas histórias de mistério: foi construído nos primeiros anos da capital, possui corredores e bastidores que não são conhecidos por todos os visitantes e guarda lembranças de diferentes gerações.
Ao longo das décadas, histórias sobre sons misteriosos e supostas aparições passaram a ser associadas ao prédio. A narrativa do túnel até o Palácio das Esmeraldas acrescentou outro elemento ao imaginário popular.
A pesquisa da UEG mostra como construções históricas podem ganhar significados que ultrapassam sua função original. Um teatro, por exemplo, não representa apenas o lugar onde acontecem apresentações. Ele também pode reunir histórias contadas por moradores, trabalhadores e frequentadores.
Isso não significa que os relatos sejam verdadeiros. O estudo investigou a circulação dessas narrativas, não a existência de fenômenos sobrenaturais.
Afinal, o Teatro Goiânia tem fantasmas ou passagem secreta?
Até o momento, não há comprovação de fantasmas no Teatro Goiânia nem da existência de um túnel subterrâneo até o Palácio das Esmeraldas.
O que está documentado é a importância do edifício para a história da capital, desde sua inauguração em 1942 até o reconhecimento como patrimônio histórico.
Mesmo sem provas das aparições, as histórias continuam associadas ao teatro e ajudam a preservar uma parte da memória popular de Goiânia.
Esta é a segunda reportagem da série especial Goiânia Assombrada, do Mais Goiás. A primeira apresentou os relatos de gritos, fantasmas e supostas torturas nas antigas caixas-d’água do Centro Cultural Martim Cererê. As próximas matérias vão abordar outras lendas identificadas pela pesquisa da UEG, entre elas a história do passageiro fantasma do Cemitério Santana.