A compra de imóveis por estrangeiros em Balneário Camboriú e região tem crescido nos últimos anos.
Em algumas construtoras de Santa Catarina, os negócios fechados com clientes do exterior ultrapassam 20%, o que equivale dizer que 1 a cada 5 compradores são de fora do Brasil.
O movimento é marcado predominantemente por investidores e, em menor proporção, por estrangeiros que vão morar nessas cidades. Em três construtoras consultadas pela Folha, essa divisão é de 80% a 20%. Em outra, metade dos compradores são investidores e a outra metade adquiriu imóveis para morar na região.
O português Frederico Dantas, 33, comprou um apartamento em Porto Belo, a 25 km de Balneário Camboriú. Ele é investidor e disse que a aquisição ocorreu por uma combinação de fatores que, segundo ele, são hoje difíceis de encontrar em muitos mercados consolidados.
“Além da segurança e da qualidade de vida, a região possui uma costa extraordinária, um enorme potencial de valorização e um mercado em plena expansão. Em Portugal, percebemos um cenário mais estável e com menor espaço para crescimento”, diz.
“Aqui, encontrei oportunidades de rentabilidade muito atrativas, além de empreendimentos com padrão construtivo elevado, excelente acabamento e atenção aos detalhes. É um investimento que une retorno financeiro e confiança no futuro da região”, afirma Dantas.
Já o contador português Ricardo Cruz, 51, adquiriu um apartamento na planta por R$ 1 milhão. O imóvel em Porto Belo tem mais de 100 metros quadrados e deve ficar pronto em 2030.
A ideia do contador é utilizá-lo como investimento ou para moradia temporária em alguns períodos do ano. Ele nunca esteve na região, mas agora pensa em viajar para a cidade antes do fim do ano.
É o primeiro imóvel dele fora de Portugal. Antes de fechar a compra, realizada toda online, o contador pesquisou sobre a região e a construtora, e ainda pediu ajuda para amigos que moram em cidades próximas, como Itajaí e Balneário Camboriú.
Ele tem família no Rio de Janeiro. Em Portugal, Cruz compra imóveis para reformar e revender ou adquire de leilões.
A escolha do contador pelo Brasil ocorre por uma série de fatores, como o idioma, a proximidade com a família e a afinidade. “Gosto do povo, das pessoas daí.” Já a opção por Santa Catarina se deve ao clima, semelhante ao europeu, e ainda pela segurança. A escolha por Porto Belo foi pelo custo-benefício e, segundo ele, queria um imóvel “pé na areia”, o que seria difícil de encontrar em Balneário Camboriú, por exemplo, considerado por ele como um mercado já “saturado”.
Em Itajaí, vizinha de Balneário Camboriú, a Alumbra Empreendimentos Design estima que, em 2022, o percentual de vendas para estrangeiros era de 3%. Já em 2023 marcava 7%, enquanto em 2024 passou para 12%. No ano passado, alcançou 21%.
“Esse dado mostra que o estrangeiro deixou de aparecer como caso isolado e passou a representar uma fatia concreta da demanda por imóveis de alto padrão”, afirma o fundador da Alumbra, Alex Sales.
A construtora tem quatro obras em andamento, em diferentes estágios: uma para ser entregue até outubro, outra em fase de projeto e outras duas em construção.
Ao todo, 52 apartamentos foram vendidos para compradores internacionais, com os argentinos correspondendo a 60% desse público. O estado é um destino tradicional dos hermanos.
Também há compradores da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia.
Uma das maiores construtoras de Balneário Camboriú, a FG detectou a alta do interesse estrangeiro nos últimos três anos, com predomínio de argentinos e uruguaios.
Em 2024, os gringos representavam 1% das vendas da construtora. Já em 2025 esse índice passou para 3% e, até maio de 2026, estava em 8%, com previsão de aumento até o final do ano.
A venda de imóveis para brasileiros que moram no exterior também teve alta: em 2024, representava 5%; em 2025, 9%; e, até maio deste ano, chega a 12%.
A FG é responsável pela construção do Senna Tower, que deve ser o mais alto residencial do mundo, com mais de 500 metros de altura. Até agora, 35% dos 228 apartamentos já foram vendidos.
Desses, 14% foram negociados com público do exterior metade para estrangeiros e metade para brasileiros que moram fora do Brasil. O empreendimento foi lançado há pouco mais de um ano.
Em outros empreendimentos, as vendas para o exterior ficariam na casa de 2% com um ano de lançamento”, diz Alex Brito, diretor comercial, de marketing e experiência do cliente da FG. Ao todo, 15 obras da construtora estão em andamento.
No caso da FG, o aumento de compradores do exterior pode ser explicado por uma estratégia iniciada há três anos para chegar a novos compradores, com prioridade para brasileiros que moram no exterior e, na sequência, com gringos que minimamente conhecem a região ou tenham algum vínculo.
A empresa intensificou parcerias com imobiliárias no exterior, inaugurou em maio deste ano um escritório em Miami, nos Estados Unidos (pretende abrir outro na Europa) e intensificou a presença em grandes eventos, como a Copa do Mundo.
A construtora bancou ainda viagens de potenciais compradores nacionais e internacionais para a cidade, no projeto chamado de Sensações. Nele, a FG tem à disposição dois aviões, dois helicópteros, um barco de 60 pés (aproximadamente 18 m) e dez apartamentos decorados e mobiliados, que podem ser usados na “imersão” em Balneário Camboriú.
Em 2025, a FG gastou R$ 7 milhões com o projeto, que resultou em cerca de R$ 500 milhões em vendas a clientes participantes do Sensações. Já até maio de 2026 foram aplicados outros R$ 3 milhões, com retorno de aproximadamente R$ 300 milhões.
Presidente do Sinduscon (Sindicato da Indústria da Construção de Balneário Camboriú e Camboriú), Carlos Haacke confirma o aumento na procura de estrangeiros por imóveis na cidade e em outros municípios vizinhos. Porém, diz que a situação varia conforme a construtora e o tipo de estratégia adotada por elas para atrair clientes.
“Individualmente, cada empresa construtora tem o seu perfil consumidor. Algumas são focadas no público local e dificilmente atingem esse investidor [estrangeiro]. Já outras fazem investimento, com uso de mídias direcionadas para esse público de fora. Então depende de cada empresa”, diz Haacke.
Outra construtora que registrou alta do interesse estrangeiro foi a Thozen, em Porto Belo, a 25 km de Balneário Camboriú. Entre 2023 e 2025, a empresa registrou uma média de 10% nos negócios para gringos. Em 2026, o percentual ficou em 15%, sendo que, em maio, subiu para 20%.
“Isso acontece pela combinação entre qualidade de vida, segurança, potencial de valorização e o desenvolvimento acelerado da região”, diz Magnos Franzen de Souza, presidente da Thozen Construtora.
Também de Porto Belo, a Portohaus estima que, nos dez últimos meses, a empresa viu negócios com gringos saírem da estaca zero para representarem 10,8%.
Patrícia Fernandes, diretora de expansão da empresa, afirma que houve uma intensificação das parcerias entre imobiliárias daqui com estrangeiras, além do direcionamento do tráfego pago de anúncios.