ANA PAULA BRANCO E THIAGO BETHÔNICO
FOLHAPRESS
A abertura do processo que aplica a Lei de Reciprocidade Econômica contra o tarifaço de Donald Trump não significa que o Brasil vá retaliar imediatamente os Estados Unidos. Prevista em lei, a ação deve se estender por etapas de análise e consulta e, neste momento, serve mais como uma ferramenta de pressão sobre Washington do que como o início de uma guerra comercial.
Essa é a avaliação de especialistas em comércio internacional, que se dividem sobre os benefícios do caminho adotado pelo governo brasileiro. Para alguns, a estratégia impõe riscos e pode acabar “punindo” empresas em dobro. Para outros, é uma resposta natural e sinaliza que o Brasil tem instrumentos para reagir.
A percepção em comum é que o governo terá de fazer um “ajuste fino” na resposta para evitar que uma eventual retaliação encareça insumos, máquinas e tecnologias importados pelos setores produtivos brasileiros e acabe agravando os efeitos das tarifas americanas sobre a economia nacional.
A Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), que reúne empresas brasileiras e americanas, defende que a prioridade para solucionar o impasse seja a negociação e disse que acompanha o início do processo com atenção.
“A adoção de eventuais contramedidas deve ser evitada, diante do considerável risco de elevar custos para empresas e consumidores, afetar cadeias produtivas e investimentos e levar a uma escalada comercial e política na relação com os Estados Unidos, reduzindo o espaço para o diálogo e tornando mais difícil alcançar uma solução negociada”, disse a entidade em nota divulgada nesta sexta-feira (14).
Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, a decisão do governo é legítima e adequada neste momento, justamente por preservar a possibilidade de negociação antes de uma eventual retaliação.
“A lei brasileira manda avisar [sobre a reciprocidade] para dar oportunidade ao diálogo”, afirma Barral. Segundo ele, a abertura do processo funciona como instrumento de pressão para destravar as negociações.
Barral diz que o procedimento é longo e ainda prevê consulta pública, etapa em que a indústria poderá se manifestar. “Nenhuma medida imediata vai ser tomada”, afirma.
A leitura é compartilhada por Celso Figueiredo, sócio do Barral Parente Pinheiro Advogados e doutor em direito internacional pela USP (Universidade de São Paulo), que avalia a decisão do governo como natural.
Figueiredo diz que o Brasil sempre indicou que essas tarifas seriam injustas e, inclusive, iniciou um processo contra os Estados Unidos na OMC (Organização Mundial de Comércio) sobre isso. Além disso, a abertura do processo sinalzia à Casa Branca que o governo brasileiro dispõe de instrumentos jurídicos para reagir.
“Em outras palavras, a abertura do processo pode funcionar como instrumento de pressão diplomática, voltado a reabrir ou intensificar as tratativas bilaterais, bem como a estimular eventual revisão, mitigação ou calibragem das tarifas impostas”, afirma.
O especialista ainda afirma ser essencial que o Brasil module o tom da comunicação institucional e diplomática para evitar uma reação prematura e desproporcional por parte do governo dos Estados Unidos, especialmente em relação aos setores que foram incluídos nas listas de exceções.
“Uma condução bem articulada pode abrir espaço para a inclusão de novos produtos nas listas de exceções”, disse.
Por outro lado, Jackson Campos, especialista em comércio exterior, critica a estratégia de acionar a lei de reciprocidade e diz que a estratégia não é acertada.
“O Brasil depende muito de tecnologia de lá por meio de importações. Aplicar a lei da reciprocidade é punir o brasileiro duas vezes, uma pelo desemprego que a queda nas exportações pela sequência de tarifaços pode gerar e outra porque, aumentando o imposto de produtos importados, o custo será repassado ao consumidor, gerando inflação”, afirma Campos.
Um estudo da Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) realizado em 2025 estimou que uma sobretaxa recíproca de 50% sobre as importações dos Estados Unidos poderia provocar uma perda de R$ 259 bilhões para o PIB (Produto Intertno Bruto) brasileiro, equivalente a 2,21%.
O impacto, segundo a entidade, não ficaria restrito ao comércio exterior. Poderia atingir fornecedores, trabalhadores, investimentos, produção e arrecadação.
Para a Fiemg, uma guerra comercial não interessa ao Brasil nem aos EUA. A entidade defende que a prioridade deva “continuar sendo a construção de uma solução negociada, com firmeza, rapidez e capacidade técnica para ampliar as exceções às tarifas, reduzir barreiras e preservar o acesso dos produtos brasileiros ao mercado norte-americano”.
Paulo Feldmann, professor da FIA Business School, diz, porém, que o risco de uma escalada mais ampla é relativamente baixo se o Brasil mantiver uma resposta proporcional.
“O Brasil tem agido com muita prudência e ter procurado a OMC mostra que queremos sair do confronto político e sim uma negociação técnica”, afirma. “Apesar de a OMC estar bem desgastada, ela ainda é respeitada, tanto que a China está querendo adotar o mesmo caminho”.
Na avaliação de Feldmann, a disputa comercial mostra que a diversificação de mercados se tornou inevitável para as empresas. Para ele, o Brasil não deveria depender excessivamente nem dos EUA nem da China.
A concentração das exportações em poucos parceiros deixa as empresas mais expostas a decisões políticas e mudanças abruptas nas regras comerciais.
“Precisaríamos buscar outros mercados, principalmente na Europa e na Índia”, afirma.
Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), diz que o governo brasileiro está dobrando a aposta.
“Isso não é negociar. Isso fere todos os princípios da boa diplomacia. Mais uma vez, isso está virando uma pauta eleitoreira. Isso não é defender a soberania brasileira, e sim um gesto que vai contra o emprego de milhares de brasileiros. Os EUA são a maior economia do mundo e um parceiro com mais de 200 anos de história com o Brasil. Quem você acha que vai perder nesse cabo de guerra?”, afirma.