Durante anos, o Brasil assistiu à lenta demolição do sistema de pesos e contrapesos previsto pela Constituição. O processo não aconteceu por golpe, decreto, ruptura formal ou por meio da ação de um cabo e um soldado. Foi muito mais eficiente do que isso. O poder foi sendo transferido aos poucos, decisão por decisão, omissão por omissão, precedente por precedente. Até que aquilo que deveria ser excepcional se transformou em rotina.
Pouco a pouco, competências originalmente pertencentes ao Legislativo e ao Executivo foram absorvidas pelo Judiciário, algumas vezes por iniciativa própria, outras em reação à incapacidade ou à conveniência dos outros Poderes. As justificativas variaram ao longo dos anos. O resultado foi sempre o mesmo: o Brasil construiu um poder que, na prática, se tornou supremo não apenas no nome.
Em julho de 2022, o ex-ministro Carlos Ayres Britto escreveu no X uma frase que expõe sua visão distorcida do Supremo e sintetiza involuntariamente o atoleiro institucional do Brasil: “não há um Supremo Congresso Nacional, menos ainda um Supremo Presidente da República, porém um Supremo Tribunal Federal”. O problema está justamente aí. “Supremo” deveria descrever a posição do STF dentro da estrutura do Judiciário, e não estabelecer uma hierarquia política sobre a República.
Não existe na Constituição um Poder encarregado de tutelar os outros dois. Executivo, Legislativo e Judiciário deveriam conviver sob tensão permanente, cada um dispondo de instrumentos capazes de conter os excessos dos demais. Quando um deles passa a determinar os limites dos outros e, ao mesmo tempo, a definir praticamente sozinho os limites de sua própria atuação, os freios deixam de funcionar.
A Suprema Corte é composta por onze membros não eleitos e protegidos da pressão periódica das urnas, com mandatos que podem durar décadas. Um presidente pode receber dezenas de milhões de votos e perder o cargo quatro anos depois. Deputados e senadores precisam periodicamente prestar contas ao eleitor.
Ministros do STF permanecem até a aposentadoria compulsória, salvo circunstâncias extraordinárias, e dispõem de instrumentos capazes de alterar políticas públicas, suspender decisões do Executivo, interferir em deliberações do Congresso e produzir efeitos políticos nacionais. Em determinados casos, basta uma decisão monocrática.
Durante anos, essa anomalia foi normalizada porque muitas de suas decisões produziam resultados considerados convenientes por setores influentes da política, da imprensa, da academia e do próprio Estado. O Congresso descobriu que era confortável terceirizar decisões difíceis. O Supremo descobriu que os espaços vazios podiam ser ocupados. Um Poder abriu mão de autoridade; o outro aprendeu a acumulá-la.
O problema de construir um poder dessa dimensão aparece quando seus próprios integrantes entram em guerra. E é isso que o Brasil começa a assistir.
A guerra civil suprema já escapou das entranhas do tribunal e expõe ao público algo que durante anos permaneceu protegido pelo discurso da unidade institucional: existem alianças, rivalidades, ressentimentos e disputas concretas pelo controle dos instrumentos extraordinários acumulados pelo STF
É nesse momento que entram em ação as milícias retóricas da política, da imprensa, da advocacia e das redes sociais. Para cada acusação grave contra um ministro, seus aliados vasculham a vida dos rivais em busca de alguma impropriedade que permita fabricar equivalência. Não importa se os fatos têm natureza, dimensão ou consequências completamente diferentes. Um pecadilho serve para relativizar uma acusação grave; uma dúvida menor é inflada para equilibrar uma suspeita muito maior. O objetivo não é esclarecer o que aconteceu, estabelecer responsabilidades ou construir uma regra que valha igualmente para todos. É reduzir tudo ao menor denominador moral possível: se o outro também errou, então ninguém deve ser cobrado. A defesa deixou de ser “meu ministro não fez” e passou a ser “o seu também fez”.
Essa lógica é devastadora para o próprio Supremo. Quanto mais os lambe-botas trabalham para salvar seus ministros favoritos, mais revelam a falência da estrutura que querem proteger. Quando a resposta a uma possível irregularidade deixa de ser a demonstração de que ela não existiu e passa a ser uma lista das irregularidades atribuídas aos adversários, a mensagem que chega à sociedade é simples: o problema não é excepcional. Está disseminado. O esforço para proteger uma facção termina destruindo a legitimidade do conjunto, porque transforma a defesa da instituição numa competição para descobrir qual dos seus integrantes teria acumulado menos esqueletos no armário.
Esse é o ponto realmente importante da crise atual. Ela não deve ser compreendida como uma disputa entre ministros bons e ruins, moderados e radicais, legalistas e abusivos. Essa é a narrativa conveniente das facções e de seus porta-vozes. O problema está na arquitetura de poder que permitiu que diferenças pessoais, políticas ou jurídicas entre onze indivíduos adquirissem tamanho impacto sobre a vida institucional do país. Durante anos, o Brasil tolerou essa concentração porque imaginava que os instrumentos excepcionais estavam nas mãos certas. Quem dizia que havia algo errado era logo tachado de fascista.
A guerra interna apenas retirou a cortina. Quando todos pareciam marchar juntos, era fácil confundir concentração de poder com estabilidade institucional. Agora que os ministros apontam suas armas uns para os outros, torna-se possível enxergar o que estava sendo construído. A crise não criou o problema. Apenas mostrou ao Brasil o que acontece quando uma República permite que exista, acima de seus três Poderes, um único poder verdadeiramente supremo.