Dias de secura: desigualdade e racismo ambiental moldam cotidiano no DF

Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
Por Ana Luisa Oliveira, Isadora Carmona e Laura Cunha 

Fim da manhã, quase 13h. O portão do Colégio Militar de Brasília, na Asa Norte, se abre e as crianças disparam em direção à rua. Entre elas, o estudante Fábio Vieira, do 9º ano, segue até a parada de ônibus da W5 Norte. Já é primavera, mas o calor seco do Cerrado, beirando os 30ºC, é suavizado pelas copas altas e generosas das árvores do Plano Piloto. 

Ele mora no Setor P Norte, na divisa entre as regiões administrativas da Ceilândia e do Sol Nascente, a mais de 30 quilômetros dali. Quando chega em casa, por volta das 14h, o cenário já é outro: as sombras desaparecem, e a paisagem tem ruas áridas, quase sem árvores  para enfrentar o sol a pino. Um contraste diário que espelha os diferentes cenários de desigualdade e também de racismo ambiental.

Contraste e secura

E na Ceilândia…

Por outro lado, a área verde mais próxima da família Vieira fica a 20 quilômetros, às margens do Rio Melchior. Atualmente, esse curso d’água recebe dejetos de estações de tratamento de esgoto e de aterros sanitários da região, o que lhe rendeu a pior classificação de poluição estabelecida pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama). 

Além da distância das áreas verdes, o cotidiano da família também é marcado pela proximidade da usina de compostagem do Serviço de Limpeza Urbana (SLU), instalada em 1986 no Setor P para transformar lixo orgânico em adubo.

O ativista Newton Vieira, que é policial militar e pai de Fábio, relembra que, há 40 anos, o espaço era protegido por árvores, que funcionavam como barreira contra o odor da usina. Com o avanço das invasões, porém, o desmatamento eliminou essa proteção natural, deixando a comunidade exposta ao cheiro forte. 

“Esse mau cheiro já é intenso por natureza. Sem árvores, fica insuportável. O calor, então, é direto. Não tem para onde fugir”, afirma o ativista. 

Racismo ambiental

Essa desigualdade na arborização das regiões do Distrito Federal revela uma realidade que vai muito além da questão ambiental. Newton sabe o nome do fenômeno: é o racismo ambiental. 

Ele conta que, sem apoio governamental, moradores do Setor P se mobilizam para plantar árvores e garantir sombra mínima aos pedestres. Entretanto, ele revela que a ausência de orientação técnica faz com que as raízes acabem destruindo as calçadas, o que agrava ainda mais os problemas de infraestrutura. 

“A resposta do governo, em vez de oferecer políticas adequadas de arborização na periferia, é derrubar tudo. Isso nos tira a dignidade e, por isso, eu acredito que existe, sim, um racismo ambiental”, afirma Vieira.

“É preciso avaliação”, diz Novacap

Em resposta às críticas, a Novacap destacou que o plantio de árvores precisa obedecer a critérios técnicos, já que se realizado de forma incorreta pode comprometer calçadas e gerar riscos à segurança por interferir em redes de infraestrutura. A companhia acrescentou que podas e supressões só ocorrem após avaliação técnica e quando autorizadas pela legislação vigente.

O professor de geografia, Fernando Luiz Araújo, da Universidade de Brasília (UnB), reforça que Brasília foi concebida em escala bucólica, com uma “dedicação à vegetação em um projeto não apenas arquitetônico, mas também paisagístico”. Esse cuidado, no entanto, ficou restrito ao centro da capital. 

Segundo o professor, que é mestre em planejamento urbano, as regiões administrativas enfrentam os piores índices de qualidade de vida, justamente pela ausência de políticas de planejamento urbano e ambiental que garantam condições mínimas de bem-estar.

Araújo cita que o Sol Nascente não tem arborização alguma. “Nem nas ruas ou dentro das casas porque os lotes são totalmente ocupados. Falta o lazer que a arborização proporciona e também o bioclimatismo”, afirma.  Segundo o especialista, bioclimatismo pode ser identificado como a prática de integrar as construções urbanas ao meio ambiente local.

Mapa de vegetação urbana registrada em 2024 no Sol Nascente e Lago Sul . Fonte: Map Biomas

Assim, a  percepção do ativista Newton Vieira encontra respaldo no que dizem os especialistas, que define o termo “racismo ambiental” como a desigualdade nas condições de qualidade de vida, refletida em ambientes precários e desassistidos.

O ativista afirma que o combate ao racismo ambiental faz parte de suas reivindicações, principalmente no esforço de pressionar o governo pela instituição de políticas públicas que garantam dignidade às periferias.

“O Sol Nascente merece ter ar digno e ter sombra como lá no Plano Piloto. As pessoas merecem caminhar com uma sombra e que seu bairro tenha árvores”, argumenta.

Ilhas de secura

Dados de temperatura do Map Biomas, plataforma que monitora as transformações ambientais e climáticas no Brasil e no mundo, indicam que, nos últimos 10 anos, o Sol Nascente apresentou temperaturas máximas anuais entre 33,5°C e 34,9°C.

Enquanto isso, o Lago Sul atingiu índices mais amenos, variando entre 30,6°C e 31,7°C. Essa diferença revela um contraste significativo no DF e evidencia como fatores urbanísticos influenciam diretamente o conforto térmico da população. 

Mapa das temperaturas máximas anuais em 2024 no Sol Nascente e Lago Sul. Fonte: Map Biomas 

Segundo o professor, essa diferença de quase 3°C entre as regiões pode estar relacionada justamente à falta de cobertura vegetal na área periférica, mecanismo essencial para evitar a formação de ilhas de calor nas áreas urbanas.

“Esse fenômeno pode aumentar em até 6ºC a temperatura dentro de uma mesma cidade e influenciar diretamente o microclima, que também conhecemos como temperatura média”, detalha. 

Essa variação térmica é tão relevante que o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) utiliza a diferença de temperatura média entre áreas centrais e periféricas para calcular a magnitude das ilhas de calor.

Quando a diferença varia de 0°C a 2°C, a ilha de calor é classificada como de magnitude fraca. Já variações entre 2°C e 4°C caracterizam uma magnitude média, dado que revela o cenário preocupante em que se encontra o Sol Nascente. 

Dados do Índice Urbano de Desempenho Ambiental do DF (IUDA-DF), elaborado pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPE-DF Codeplan) em 2021, reforçam essa desigualdade na arborização. O índice atribui notas de 0 a 10 às regiões administrativas em termos de áreas verdes. O Sol Nascente obteve uma nota de apenas 1,7, enquanto o Plano Piloto alcançou 9,5 na avaliação.

Fonte: Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal

A partir dessa avaliação, o Codeplan aponta que a desigualdade de arborização não influencia apenas no microclima, mas também nos processos de infiltração natural de água, indicados pelo potencial de infiltração.

O professor explica que a vegetação urbana favorece a absorção da água da chuva, já que reduz o impacto direto das gotas sobre o solo. 

“Em áreas sem vegetação, por exemplo, o escoamento ocorre de maneira superficial e intensa, dificultando a penetração da água. Isso aumenta o risco de erosão”, complementa. 

Saúde da população

A partir de solicitação feita pela reportagem via Lei do Acesso à Informação (LAI), a Secretaria do Meio Ambiente do Distrito Federal (Sema) explica que a arborização também influencia diretamente os níveis de evapotranspiração na cidade, processo pelo qual as plantas liberam vapor d’água na atmosfera.

Esse mecanismo é fundamental para o equilíbrio climático urbano, já que contribui para a regulação da umidade relativa do ar. 

Segundo a secretaria, dependendo da densidade de plantio, esse indicativo pode proporcionar um aumento local da umidade em até 22%, o que torna a sensação térmica mais confortável. 

Ainda segundo o governo, em Brasília, ambiente naturalmente mais seco, a piora nos níveis de umidade está associada à baixa evapotranspiração, causada pelo avanço das áreas desmatadas e pela redução da cobertura vegetal.

Com base em dados da Sema, essa situação resulta nos eventos extremos de calor na capital. O monitoramento da secretaria indicou que a temperatura média aumentou em quase 2ºC ao longo de seis décadas. 

O professor Fernando Luiz Araújo explica que aumentos como esse são o que levará o mundo a vivenciar ondas de calor cada vez mais prolongadas, com duração de até um mês, além de provocar alta na demanda por energia elétrica e até mesmo ampliar o risco de doenças transmitidas por insetos.

Conforme avalia, o público com menos recursos está mais suscetível às crises do clima.

A situação será pior ainda para aqueles que estão em situações de vulnerabilidade e moradores das periferias urbanas”, afirma. 

Ele acrescenta que, para os moradores do Distrito Federal, a intensificação da seca e a inevitável piora na qualidade do ar são fatores diretamente relacionados ao aumento de doenças respiratórias.

“A ausência de chuvas resulta na desagregação do solo, que se transforma em pó e aumenta a quantidade de partículas na atmosfera. Isso pode ser reduzido em áreas mais florestadas”, explica. 

Por outro lado, para a família de Newton, o período é marcado por calor intenso e piora significativa na qualidade do ar, situação agravada pela proximidade com a usina do SLU, que durante os meses mais quentes exala forte mau cheiro.

“Além da usina, o bairro fica a aproximadamente 4 quilômetros de um aterro sanitário, que, durante o período de calor, duplica a quantidade de insetos e roedores”, testemunha o ativista. 

O professor exemplifica que uma família que mora no Lago Sul, em um terreno bem mais verde, vai sentir menos a seca do que uma família do Sol Nascente, que tem terrenos inteiramente edificados, por vezes, sem asfalto na rua.

Ele entende que a desigualdade se traduz em diversos aspectos da vida, seja no acesso à saúde, na qualidade da moradia ou até mesmo nas oportunidades de lazer. 

Para ele, a definição de políticas públicas voltadas à arborização e ao planejamento urbano é um caminho necessário para enfrentar essa realidade.

Segregação

No entanto, o professor ressalta que essas medidas podem não ser suficientes se não forem acompanhadas de mudanças estruturais mais profundas, capazes de reduzir a segregação socioespacial e garantir condições dignas de vida para todos os moradores do Distrito Federal.

A Novacap argumenta que o DF reúne realidades urbanas diversas. Algumas regiões foram planejadas desde a origem, com áreas públicas reservadas para arborização, enquanto outras se desenvolveram de forma irregular ou passaram por processos de ocupação.

Nessas situações, segundo a companhia, há limitações físicas para novos plantios, como ocupação irregular de espaços públicos e presença de redes subterrâneas de infraestrutura.

Ainda assim, a Novacap garante que realiza ações contínuas de arborização em todas as regiões, com participação das administrações locais na indicação de áreas prioritárias. Essas áreas passam por vistoria das equipes técnicas antes de receber novas mudas.

A companhia garante que tem o compromisso de ampliar a cobertura vegetal em todas as regiões administrativas do Distrito Federal, por meio de ações planejadas e alinhadas às características urbanísticas de cada localidade. Enquanto isso, os brasilienses convivem com desigualdades e sol a pino sem árvores.

Supervisão de Katrine Boaventura e Luiz Claudio Ferreira

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF
plugins premium WordPress