A Frente de Libertação Popular de Tigré (TPLF) travou uma guerra civil devastadora contra o governo federal entre 2020 e 2022, que matou quase 600.000 pessoas, segundo estimativas da União Africana.
Confrontos esporádicos nos últimos meses alimentaram o temor de um retorno ao conflito. Há vários meses, as tropas federais se concentram na fronteira com Tigré e executaram dezenas de ataques com drones desde agosto.
No domingo, a TPLF anunciou que se uniu a uma nova aliança de grupos armados antigovernamentais de todo o país.
“Há combates em todos os lados”, afirmou, nesta quinta-feira, Amanuel Assefa, vice-presidente da TPLF, um movimento político que governou por muito tempo a Etiópia e que, de fato, dirige este território no norte do país.
Em Mekelle, capital do Tigré, o trauma do último conflito ainda está presente.
“Muitas pessoas morreram na guerra anterior e, com o reinício dos combates, a única coisa que prevejo é outro massacre. Os líderes dos dois lados precisam se sentar à mesa de negociações”, afirmou Gebretsadik Abraha, de 35 anos.
Em meio ao pânico, muitos moradores correram para comprar alimentos e produtos de primeira necessidade por medo da escassez, e os preços dispararam.
Na quarta-feira, os rebeldes tomaram o controle de três aeroportos em Tigré e lançaram ataques contra as regiões vizinhas de Afar e Amhara.
O Exército etíope informou, nesta quinta-feira, que matou 272 rebeldes que participavam do ataque contra Amhara, a segunda região mais populosa do país. Além disso, as Forças Armadas informaram que 260 insurgentes ficaram feridos.
Uma fonte humanitária, que pediu para permanecer sob anonimato, relatou disparos com armas pesadas nos arredores da localidade de Yalo, em Afar, a quase 40 quilômetros de Tigré.
“Há feridos e pessoas deslocadas”, disse.
A retomada das hostilidades acontece menos de quatro anos após a assinatura de um acordo de paz em Pretória.
Diante da situação, a União Africana e a União Europeia pediram, na quarta-feira, a todas as partes uma “desescalada imediata”.
– “Tomar” a capital –
Na quarta-feira, diante da Assembleia Geral da ONU, o presidente etíope, Taye Atske Selassie, que desempenha principalmente um papel protocolar em um país de 130 milhões de habitantes, parabenizou seu lado pela “imensa moderação” demonstrada.
Isto apesar de ter denunciado “as persistentes interferências de elementos hostis em nossos assuntos internos”.
Sete grupos contrários ao governo federal em diversas regiões do país africano — entre eles a TPLF, as milícias amhara Fano e o Exército de Libertação Oromo (OLA) — anunciaram no domingo uma aliança com o objetivo de “derrubar” o governo de Adis Abeba.
Assefa afirmou que membros de grupos armados de Tigré estão lutando ao lado de integrantes de grupos de Afar e Amhara, segundo os termos da aliança.
Também foram registrados combates nos arredores de Waldiya, uma cidade estratégica em Amhara, localizada a 330 km da capital.
O objetivo dos grupos armados é “tomar” Adis Abeba, “mas ainda se desconhecem as manobras táticas que planejam empregar para chegar à cidade”, afirmou Kjetil Tronvoll, especialista na região do Oslo New University College, da Noruega.
O conflito provoca o risco de uma conflagração regional.
Analistas destacam que os rebeldes de Tigré contam com o apoio da Eritreia, que teme que a Etiópia, país sem saída para o mar, planeje invadir seu território para obter acesso ao Mar Vermelho.
O conflito anterior no Tigré começou em 2020, quando o governo enviou o Exército para expulsar o governo regional, que desafiava sua autoridade havia vários meses e que, segundo o Executivo, havia atacado bases militares na região.