O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que não foi informado sobre o retorno da líder oposicionista venezuelana María Corina Machado ao país sul-americano e sinalizou que Washington continuará apoiando a líder interina, Delcy Rodríguez. A declaração foi dada horas depois de a vencedora do Nobel da Paz ser recebida por milhares de apoiadores em Caracas, após vários meses no exílio.
Representantes da oposição divulgaram nesta segunda-feira (26) novas informações sobre a chegada de Maria Corina ao país, na véspera. Ela teria percorrido de carro o trajeto entre a cidade de Barquisimeto, no oeste da Venezuela, e a capital, Caracas, numa viagem de cerca de 400 km que durou oito horas devido às multidões que se concentraram nas estradas para saudá-la.
Ao chegar à capital na noite de domingo, Maria Corina cumprimentou e abraçou apoiadores. “Este país está dando lições a todos”, gritou a oposicionista. Em publicação nas redes sociais, ela escreveu que voltava em nome do reencontro de famílias, da liberdade de presos políticos e da libertação da Venezuela.
Na Casa Branca, Trump elogiou Maria Corina, mas voltou a demonstrar confiança em Delcy Rodríguez, que foi vice de Nicolás Maduro e assumiu a liderança do regime após a captura do então ditador por forças americanas, em janeiro. “Ela é uma mulher muito simpática”, disse Trump no domingo sobre a opositora. “Mas estamos indo muito bem na Venezuela.”
A fala reforça a posição do presidente americano, que tem demonstrado apoio a Delcy e priorizado acordos econômicos com o país sul-americano considerados vantajosos para Washington. Em setembro, Trump afirmou que ainda era cedo para considerar a realização de eleições democráticas na Venezuela.
A volta de Maria Corina Machado foi coordenada com os governos dos EUA, do Panamá e da Colômbia, segundo uma pessoa informada sobre os deslocamentos ouvida pela agência de notícias Reuters. Esse interlocutor afirmou que Trump autorizou o retorno e foi mantido informado sobre os planos. Procurados pela agência, a Casa Branca e o Departamento de Estado não se manifestaram sobre o assunto.
Maria Corina viajou em um avião particular do Panamá para a Colômbia e, no domingo, entrou por terra na Venezuela, segundo quatro pessoas familiarizadas com a viagem também ouvidas pela Reuters.
Uma delas afirmou que a opositora foi protegida por agentes de segurança americanos. Segundo o mesmo interlocutor, os EUA alertaram Delcy e as autoridades venezuelanas para que não interferissem na viagem nem ameaçassem a segurança da líder da oposição.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que o retorno foi resultado direto das negociações de reconciliação apoiadas por Washington. Segundo ele, o processo já permitiu a libertação de centenas de presos políticos e o retorno de centenas de opositores que viviam no exílio.
“Esperamos que todos os atores políticos apoiem essas negociações, que representam a melhor oportunidade que a Venezuela teve em 30 anos para alcançar de forma pacífica não apenas eleições livres e justas, mas uma democracia duradoura”, disse Rubio.
Uma ala da oposição e o regime fizeram neste mês uma rodada de conversas para discutir, entre outros objetivos, a reformulação do Tribunal Supremo de Justiça e do Conselho Nacional Eleitoral, em preparação para futuras eleições. O grupo político de Maria Corina, porém, não participa das negociações.
Também nesta segunda, a porta-voz da líder oposicionista, Claudia Macero, afirmou que Maria Corina está disposta a se reunir com Delcy e com outros atores políticos.
Em entrevista à rádio local Unión Radio, Macero disse que a líder opositora aceita dialogar desde que as conversas sejam transparentes e tenham uma agenda definida. Para a porta-voz, a volta de Maria Corina precisa ser considerada parte de um processo de transição que inclua todas as forças políticas.
O regime venezuelano não havia se pronunciado sobre o retorno de Maria Corina até a manhã desta segunda.
A opositora foi impedida pelo regime de disputar a eleição presidencial de 2024, vencida por Maduro em pleito contestado pela oposição e por observadores internacionais. Ela apoiou Edmundo González, que reivindicou a vitória e vive atualmente na Espanha. Após passar mais de um ano escondida na Venezuela, a líder oposicionista deixou o país no fim de 2025 para receber o Nobel da Paz. Ela ficou no exílio por cerca de dez meses.
A relação com o governo Trump passou por momentos de tensão durante esse período. A administração americana pediu ao menos uma vez que Maria Corina adiasse o retorno, segundo a agência Reuters, e a líder oposicionista fez tentativas frustradas de voltar ao país.
Representantes da União Europeia, por sua vez, saudaram nesta segunda o retorno de Maria Corina, classificando-o como uma oportunidade para avançar na realização de eleições livres e justas.
Anuar El Anuni, porta-voz de relações exteriores do bloco, pediu que as autoridades venezuelanas e todos os atores políticos aproveitassem o momento para promover um diálogo inclusivo, conduzido pelos próprios venezuelanos. “O retorno de líderes e representantes da oposição contribui para uma maior abertura do espaço político na Venezuela”, afirmou.
González, que disputou a Presidência com o apoio de Maria Corina em 2024, escreveu nas redes sociais que pretende se juntar a ela na Venezuela em breve.