A breve coalização entre o Comando Vermelho e o PCC (Primeiro Comando da Capital) feita no começo de 2025 foi articulada em uma conversa por WhatsApp feita entre líderes das duas facções.
Detalhes dessa união foram obtidos por intermédio de uma investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro, deflagrada nessa quarta (11). O acordo entre os dois grupos foi rompido cerca de dois meses depois, mas hoje eles mantêm um pacto para evitar agressões -apesar de alguns episódios pontuais de violência.
Pelo lado do grupo carioca, a negociação ficou a cargo de Edgar Alves, o Doca, considerado o chefe da organização nas ruas, segundo os diálogos. O representante do PCC é identificado apenas como “São Paulo” nas conversas. A reportagem teve acesso ao documento.
Considerado a pessoa mais procurada do Rio de Janeiro, Doca não possui defesa constituída, segundo um advogado que tem como clientes traficantes da facção. No Tribunal de Justiça também não há defensor cadastrado.
As mensagens mostram os dois conversando no dia 25 de fevereiro do ano passado. Primeiro, eles fazem uma ligação de 4 minutos. Depois, o representante do PCC manda uma mensagem para Doca: “Hoje é um dia histórico parça. Só nós sabemos o bem que estamos fazendo para gerações vindouras. Sem palavras. Orgulho de vc [você], conta com nós sempre” (sic).
O líder do Comando Vermelho responde em aúdio: “É nós, meu irmão, estamos juntos”.
Ainda na conversa, Doca envia um estatuto atualizado da facção, em que regras de não agressão com o PCC foram incluídas. No artigo 2, estão descritos os pilares do Comando Vermelho, que incluem liberdade, respeito, justiça e união, além do respeito às organizações rivais com as quais o grupo carioca se relaciona.
“Nestes princípios básicos se resumem o grau de nossa convivência harmoniosa que idealizamos entre irmãos e todos aqueles dignos de consideração no qual nos relacionamos”, afirma o texto.
O estatuto foi feito 93% por inteligência artificial, de acordo com análise feita pela reportagem.
No texto há também detalhes da hierarquia do conselho do Comando Vermelho, órgão máximo do grupo, formado por 13 pessoas. O presidente, segundo a polícia, seria Márcio Nepomuceno, o Marcinho VP, que está preso em presídio federal. Sua defesa nega que ele comande a facção.
Marcinho é o pai do cantor Oruam, que a polícia afirma ter ligação com o Comando Vermelho -o que ele nega.
Também no documento há um “Código de Conduta e Proibições”. O artigo 8 detalha condutas proibidas, sujeitas a correções. São elas: agressões ou intrigas entre membros; “pilantragem ou irresponsabilidade”; “faltar com o comando”; apoderar-se de áreas de outros membros; “derramar sangue inocente”; matar outros membros sem a avaliação do conselho e a emissão de um decreto (ordem para alguém ser morto).
As punições são graduais, dependendo da infração. Elas variam de leve (uma advertância verbal) a super-grave (morte).
O estatuto diz ainda que o Comando Vermelho é uma “instituição progressista” e uma “família unida” que luta contra a opressão, o autoritarismo e as “autoridades tirânicas”. O texto afirma que o crime é uma opção quando as vozes da organização não são ouvidas, visando o “progresso” para as gerações futuras.
As conversas entre Doca e São Paulo também registram um “comunicado geral” anunciando o fim da guerra entre os dois grupos. A união entre as facções é resumida pela frase: “o crime fortalece o crime”.
A mensagem foi repassada para todos os estados, segundo a polícia. Um relatório da Senappen (Secretaria Nacional de Políticas Penais), feito na ocasião, detectou o pacto.
O acordo encerrou, segundo a polícia, a falta de diálogo de quase dez anos entre as duas facções. As desavenças começaram após a morte do traficante Jorge Rafaat Toumani, em 2016, que teria sido planejada pelo PCC.
A união, no entanto, ruiu um mês depois, no fim de abril do ano passado. O PCC, segundo advogados ouvidos pela reportagem na época, reprovaram as práticas violentas atribuídas ao Comando Vermelho.
Um exemplo citado foi o assassinato de um turista de Brasília, que, antes de ser morto, teria sido forçado a comer partes do próprio corpo por supostamente portar em seu celular fotos ligadas a uma facção rival. A disputa de rotas de drogas também foi motivo de discussões entre os traficantes.