O terceiro dia do julgamento do caso que chocou a população e ficou conhecido como “Chacina do DF”, segue com o interrogatório dos réus acusados de assassinar dez pessoas da mesma família. Depois de Gideon Batista de Menezes ter prestado seu depoimento durante a manhã, Horácio Carlos Ferreira Barbosa optou por exercer o direito constitucional ao silêncio. No plenário, Fabrício Silva Canhedo foi o terceiro réu a ser interrogado. Ele admitiu sua participação na vigilância das vítimas no cativeiro e revelou detalhes sobre a organização do grupo.
O depoimento de Fabrício fechou o terceiro dia do julgamento. Estão previstos para amanhã os depoimentos de Carloman dos Santos Nogueira e Carlos Henrique Alves da Silva. Os debates também estão previstos para começar depois do interrogatório dos réus.
Gideon Batista de Menezes, Horácio Carlos Ferreira Barbosa, Carloman dos Santos Nogueira, Fabrício Silva Canhedo e Carlos Henrique Alves da Silva são os acusados de cometer diversos crimes. Eles poderão responder por homicídio qualificado, latrocínio, ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, associação criminosa qualificada e corrupção de menores.
Marcos Antônio Lopes de Oliveira, 54 anos (patriarca); Renata Juliene Belchior, 52 (esposa de Marcos); Gabriela Belchior de Oliveira, 25 (filha do casal); Thiago Gabriel Belchior de Oliveira (filho do casal); Elizamar da Silva (esposa de Thiago); Rafael, 6 anos, Rafaela, 6, e Gabriel, 7 (filhos de Thiago e Elizamar); Cláudia Regina Marques (ex-mulher de Marcos), 39; e Ana Beatriz Marques de Oliveira (filha de Marcos e Cláudia), são as dez vítimas da chacina. Ainda faltam ser interrogados Carloman e Carlos Henrique.
O recrutamento para o crime
Fabrício destacou em seu depoimento que foi recrutado por Gideon e que este havia lhe prometido uma quantia alta para participar de uma ação que iria gerar dinheiro, mas alegou que não sabia inicialmente do que se tratava. “O Gideon chegou a mim e propôs que tinha uma coisa para fazer que ia dar muito dinheiro, e eu estava precisando porque tinha que fazer a cirurgia do meu filho”, disse. Ele descreveu que a função que tinha no grupo envolvia conhecimentos técnicos, como o cadastro de chips de celular que seriam utilizados pelos demais integrantes para evitar rastreios durante a execução do plano.
Em juízo, Fabrício confirmou que permaneceu na casa alugada no condomínio Vale do Sol, onde atuava na vigilância de Renata Juliene Belchior e Gabriela Belchior. De acordo com o réu, ele era responsável por manter o local e preparar a alimentação para as mulheres que estavam em cativeiro. “Eu fiquei lá fazendo comida para elas, cuidando do local, e as quatro vítimas eram mantidas vendadas o tempo todo no cativeiro”, afirmou. Ele confirmou que presenciou a chegada de Cláudia e Ana Beatriz no espaço.
Fabrício admitiu ter facilitado o acesso a um revólver. Entretanto, ele disse que não se tratava de um instrumento dele, mas que ele apontou onde os demais conseguiriam a arma. Ele também alegou que a arma deveria ser usada apenas por segurança na chácara. O acusado relatou ter tido uma discussão com Gideon, quando soube que as crianças seriam levadas para o cativeiro. “Ieu falei para o Gideon que não tinha como, que não precisava levar as crianças porque o plano dele era deixar elas lá no frio para dar continuidade ao que queriam fazer.”
Arrependimento e dinâmica do grupo
Fabrício contou que Gideon retornou ao cativeiro com ferimentos de queimadura após a execução das vítimas Renata e Gabriela. De acordo com o réu, ao saber das mortes, ele teria decidido abandonar o grupo e prometeu não denunciar os comparsas naquele momento. “Na hora que eu fiquei sabendo da morte delas, a gente discutiu e eu falei para eles que não queria saber mais de nada, mas que não ia entregar eles”, lembrou.
Ele descreveu o clima de tensão que se instalou entre os acusados após a queima do veículo com as vítimas. O réu salientou ter presenciado momentos em que Renata demonstrava disposição em transferir os direitos da propriedade para Gideon, por acreditar que isso poderia garantir a liberdade dela e da filha. “A Renata chegou a falar para mim que assinava os documentos para o Gideon, que ela não queria a chácara, ela queria a vida dela e da filha dela de volta.”
Ele se arrependeu de se associar a Gideon e Horácio, que ele apontou ser subordinado do primeiro. Também alegou arrependimento de se envolver com Carloman e Cacau (Carlos Henrique): “Me arrependo de ter conhecido essas pessoas.” Hoje ele não acredita mais que o plano criminoso foi motivado por ganância financeira e a tomada da chácara que vale R$ 2 milhões, mas que não pertencia aos mortos. “Porque não tem condições uma coisa dessas”, concluiu.