Um casal de advogados seguia para a missa na manhã de domingo (19) quando foi abordado por um ladrão armado na avenida Juriti, em Moema, zona sul de São Paulo. Luciano Teixeira dos Santos, 46, que passava pelo local, decidiu intervir teria dito “aqui não”, segundo testemunhas e avançou em direção ao criminoso, que atirou. Ferido na cabeça, Luciano foi encaminhado ao Hospital São Paulo, onde morreu.
O roubo foi interrompido.
No mesmo dia, cerca de três horas antes e a 9 km dali, a guarda-civil metropolitana Sara Andrade dos Reis, 34, foi baleada e morta por criminosos em uma moto no acesso da rodovia dos Imigrantes para o viaduto Matheus Torloni, na Água Funda. Ela seguia de Diadema, na Grande São Paulo, para o trabalho, no Jabaquara. Arma e celular foram roubados.
Três dias antes, na quinta-feira (16), o motorista de aplicativo Alison Oliveira de Jesus, 42, morreu ao intervir em um roubo de moto na rua das Margaridas Amarelas, na Vila Calu, extremo da zona sul. Ele, que dirigia um carro, atropelou os ladrões, mas um deles se levantou e atirou na sua cabeça.
Os assassinos dos três fugiram e não foram localizados até quarta-feira (22).
O número de vítimas de latrocínio (roubo seguido de morte) somente na zona sul em um intervalo de quatro dias é o mesmo observado na junção dos meses de janeiro e fevereiro em toda a cidade, até aqui os dados mais recentes disponibilizados pelo governo Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Secretário-executivo da Secretaria de Segurança Pública, o coronel Henguel Ricardo Pereira afirmou à Folha de S.Paulo que os sistemas de inteligência das polícias Civil e Militar foram acionados na tentativa de uma pronta resposta aos crimes em sequência na zona sul. “Uma força-tarefa foi criada para ter celeridade [na identificação e buscas aos criminosos]”, declarou.
Henguel disse ter tido acesso ao “mapa de calor” que mostra onde há maior atuação de ladrões.
Participou ainda de uma reunião com o comando da PM com o pedido de aumento da presença em áreas com mais ações criminosas, como roubo de celular e quebra vidros. Segundo ele, uma das estratégias será o aumento no número de policiais em motocicletas nas ruas, que devem percorrer grandes corredores.
Henguel afirmou que as polícias têm avançado nas investigações dos crimes de latrocínio (roubo seguido de morte) por meio da análise das imagens de câmeras de segurança.
Um delegado ouvido pela reportagem classificou os casos como infortúnio. Com ampla experiência em investigações de casos de mortes após roubo, ele disse que os ladrões atiram quando se sentem confrontados. Por isso, a reação deve ser evitada.
No caso de Moema, moradores e trabalhadores da avenida Juriti relatam sensação crescente de insegurança. “Nas conversas com os vizinhos, sempre falamos sobre a insegurança de sair com o celular na mão. O nosso consenso é que é preciso tomar cuidado com o celular na rua”, disse Luís Antônio, morador da região.
Um porteiro de um edifício na avenida Juriti, que preferiu não se identificar, disse trabalhar na região há oito dias e que sempre ouviu que o bairro, por ser de alto padrão, era seguro. No entanto, desde o primeiro dia, moradores já o alertaram sobre a necessidade de cuidado ao usar o celular na rua.
Luan Martins, entregador de aplicativo que trabalha no bairro, afirma que o crime ocorrido no domingo mudou o comportamento dos moradores em relação aos motoqueiros que vão fazer entregas. “Percebi que as pessoas estão mais ansiosas e com medo. Quando paro para fazer uma entrega, quem passa na calçada fica mais desconfiado. Preciso avisar que estou trabalhando para evitar qualquer mal-entendido”, relata.
O 96º DP (Brooklin), responsável pela área em que Luciano foi assassinado, registrou outras duas ocorrências de repercussão em poucos dias. Na segunda-feira (20), um homem foi baleado ao tentar recuperar o celular dele e o da namorada após um assalto na rua Gomes de Carvalho, na Vila Olímpia.
André Gomes, 24, recepcionista de um prédio próximo, disse que os assaltantes aparecem geralmente à noite e usam mochilas de entregadores para se disfarçar. “Eles tentam despistar o máximo possível”, afirmou.
Foi no ponto de ônibus que Cristina, 44, teve o celular furtado em setembro do ano passado. Pertencente ao setor financeiro de um hotel da região, ela e a colega, Laísa, 34, combinam agora de irem juntas até o ponto, além de evitar saírem muito tarde como estratégia para evitar furtos e roubos.
“Você não vê a polícia passar por aqui, que é um bairro nobre, e você não vê em nenhum lugar praticamente”, afirma Cristina, que diz também esconder hoje o aparelho dentro da roupa e não tocar nele até o ônibus chegar.
Os furtos e roubos também são percebidos por duas funcionárias de uma loja de conserto de celulares que preferiram não se identificar. Ambas dizem receber com frequência visitas de clientes assaltados na região e precisam comprar capas e adicionar películas protetoras para novos aparelhos.
Uma delas, que já foi assaltada quatro vezes, diz não andar mais com relógio. A outra sofreu uma tentativa de assalto uma vez por um ladrão que se passava por entregador.
No sábado (18), três ladrões invadiram um restaurante japonês na avenida Morumbi, durante o almoço, e levaram celulares, documentos e joias. O arrastão não deixou feridos.
A ocorrência não é isolada, segundo comerciantes da região. Em frente ao restaurante, uma unidade de rede de farmácias já foi assaltada ao menos cinco vezes no último ano. Diante da recorrência dos casos, lojistas têm se organizado para contratar segurança privada.
“A gente já vem trabalhar esperando pelo pior”, afirma Rafael Fernandez, gerente de uma academia. Segundo ele, o local já registrou roubos, e clientes são frequentemente abordados nas imediações. Em casos mais graves, diz, houve relatos de sequestro relâmpago.
Para quem administra negócios nos arredores, a rotina de violência tem impactado diretamente o movimento do comércio, com redução na circulação de clientes. Eles relatam operar sob constante estado de alerta e defendem o reforço do policiamento, com a presença de ao menos uma viatura fixa na região.
Na avaliação dos lojistas, o volume de ocorrências sugere que os crimes não são aleatórios, mas organizados e premeditados, o que amplia a sensação de vulnerabilidade entre trabalhadores e frequentadores da área.