São Paulo, 28 – Após ter superado R$ 5,00 pela manhã, o dólar perdeu força ao longo da tarde e encerrou esta terça-feira, 28, cotado a R$ 4,9824 (+0,01%). Na mínima, caiu a R$ 4,9725. Operadores afirmam que, além da retomada do apetite por divisas latino-americanas na segunda etapa de negócios, exportadores podem ter aproveitado a escalada do dólar mais cedo para internalizar recursos. É possível também que questões técnicas típicas de fim de mês, como rolagem de posições no segmento futuro, tenham acentuado a volatilidade.
O head de banking da EQI Investimentos, Alexandre Viotto, afirma que, apesar de certa aversão ao risco no exterior, o real continua apoiado pela melhora dos termos de troca, com a manutenção dos preços do petróleo em níveis elevados, e pela atratividade do carry trade.
“A perspectiva ainda é de apreciação do real. Mas a queda do dólar deve ocorrer, a partir de agora, em um ritmo mais lento. Se tudo continuar como está, podemos ver dólar a R$ 4,90 ou até R$ 4,80”, afirma Viotto, ressaltando que o provável resultado da superquarta manterá um diferencial de juros favorável ao real.
Praticamente estável no fechamento desta terça, o dólar já acumula queda de 3,79% em abril, o que leva as perdas no ano a 9,32%. O real apresenta em 2026 o melhor desempenho entre as divisas mais líquidas, incluindo fortes e emergentes.
A aposta majoritária é que o Comitê de Política Monetária (Copom) anuncie na quarta-feira à noite o segundo corte da taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14,50% – e reforce, em seu comunicado, a postura cautelosa na “calibração” da política monetária, que deve seguir restritiva.
Pela manhã, o IBGE informou que o IPCA-15 subiu 0,89% em abril, abaixo do piso das estimativas da pesquisa Projeções Broadcast (0,90%). Casas como Itaú, Asa e XP alertaram, contudo, que a prévia da inflação oficial apresentou um quadro qualitativo ruim, reforçando a perspectiva de cautela no manejo da taxa de juros.
Já o Federal Reserve, na última reunião do atual presidente, Jerome Powell, deve anunciar manutenção da taxa básica de juros na faixa entre 3,50% e 3,75%. As preocupações com os efeitos inflacionários do choque energético devem permear a mensagem do BC americano antes da passagem de bastão para Kevin Warsh, indicado ao posto pelo presidente Donald Trump, crítico da gestão de Powell.
Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY exibia leve alta no fim da tarde, ao redor dos 98,600 pontos, depois de máxima aos 98,874 pontos. O Dollar Index recua cerca de 1,20% em abril, mas ainda exibe avanço de pouco mais de 0,30% no ano.
As cotações do petróleo voltaram a subir com o comprometimento do fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz, diante do impasse nas negociações de paz entre Estados Unidos e Irã. O contrato do Brent para julho, referência de preços para a Petrobras, fechou em alta de 2,66%, a US$ 104,40 o barril. No início da tarde,a CNN reportou que mediadores no Paquistão esperam receber, nos próximos dias, uma proposta revisada do Irã para encerrar a guerra.
Em relatório, o Citi afirma que a apreciação recente do real reflete a melhora dos termos de troca, uma vez que o Brasil é exportador líquido de petróleo, e uma redução da aversão ao risco, com queda do VIX. O banco ressalta que um quarto da apreciação do real no ano, que já supera 9%, ocorreu durante o conflito no Oriente Médio. O CDS (Credit Default Swap) de 5 anos do Brasil, que mede o risco soberano, também recuou desde o início da guerra.
“As dinâmicas de médio e longo prazo parecem menos favoráveis: os riscos no front externo dependem da duração e da intensidade das tensões geopolíticas, que podem impactar o real devido à maior aversão ao risco, medida pelo VIX”, afirma o Citi, acrescentando que períodos eleitorais estão associados a uma maior volatilidade da taxa de câmbio. “Estimamos dólar em R$ 5,35 até o fim de 2026.”
Bolsa
Em dia de leitura desfavorável na abertura dos dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), prévia da inflação oficial de abril, o Ibovespa emendou a quinta perda, retrocedendo nesta terça-feira para a linha dos 188 mil pontos, ainda no menor nível de fechamento desde 7 de abril, então aos 188.258,91 pontos. Nesta terça-feira, o índice da B3 oscilou entre mínima de 187.236,79 e máxima de 189.578,50 pontos, correspondente à abertura da sessão. Ao fim, marcava 188.618,69 pontos, em baixa de 0,51%, com giro financeiro a R$ 23,9 bilhões
Na semana, o Ibovespa recua 1,11%, limitando o avanço do mês a 0,62%. No ano, sobe 17,06%.
Algumas ações de primeira linha, como Petrobras (ON +0,72%, PN +0,32%) e Itaú (PN +0,25%), conseguiram escapar da correção. Destaque também para Gerdau (PN +4,16%) e Metalúrgica Gerdau (+4,55%), após resultados trimestrais bem recebidos pelos investidores, assim como para Cosan (+3,60%), impulsionada pela notícia sobre oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) de ações da subsidiária Compass, interpretada como uma oportunidade de entrada de recursos para a controladora, cujas ações foram muito descontadas pelo nível de endividamento da companhia.
Dessa forma, Cosan e as duas Gerdau ocuparam a ponta ganhadora do Ibovespa na sessão, enquanto o lado oposto foi liderado por Hapvida (-8,44%), Assaí (-5,74%) e Cyrela (PN -3,57%, ON -3,43%) Entre os maiores bancos, destaque para Santander, em baixa de 0,84% no fechamento, enquanto Banco do Brasil ON, ao fim, subiu 0,13%. Principal ação do Ibovespa, Vale ON caiu 1,30%, antes da divulgação do balanço do primeiro trimestre de 2026, no período da noite. Em Nova York, os principais índices mostraram quedas de 0,05% (Dow Jones), 0,49% (S&P 500) e 0,90% (Nasdaq).
Na B3, observa em relatório Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, o “estrangeiro continua dominando o fluxo, mas em ritmo decrescente frente ao início do ano”. “E o institucional local mantém saída estrutural rumo à renda fixa, beneficiado pela Selic ainda elevada.”
Por sua vez, acrescenta Praça, na Bolsa, o investidor pessoa física está agora levemente comprador, mas em participação ainda abaixo de ciclos anteriores, e os fundos de ações continuaram a sofrer resgates, em abril. Dessa forma, diz ele, o rali do Ibovespa permanece dependente do capital externo, e a desaceleração do fluxo estrangeiro é o principal risco para a continuidade da alta.
“O Ibovespa acompanhou hoje os mercados globais, que ainda se ressentem do prolongamento, sem sinal de acordo, do conflito entre Estados Unidos e Irã, o que segue pressionando os preços do petróleo, de novo acima de US$ 100 por barril”, resume Bruno Perri, economista-chefe, estrategista e sócio-fundador da Forum Investimentos.
“No front local, há ainda o mau humor trazido pelas consequências do conflito sobre a economia, como a leitura do IPCA-15 de abril, pela manhã, fortemente impactada por alimentos e combustíveis”, acrescenta Perri.
Ele observa que tal combinação de fatores pressiona o orçamento das famílias, eleva a rejeição do governo e, por consequência, a chance de medidas fiscais expansionistas.
Juros
Em uma sessão volátil e de difícil leitura por agentes de mercado, os juros futuros deixaram o terreno positivo na segunda etapa do pregão, em um primeiro momento reduzindo o ritmo de alta e, depois fechando em relativa estabilidade, mesmo com avanço de cerca de 3% nas cotações do petróleo. Segundo agentes, o movimento parece ter refletido, primeiramente, relatos de que o Irã estaria prestes a apresentar uma proposta para terminar a guerra, mas também pode representar uma reponderação do IPCA-15 abaixo do previsto, assim como zeragem de risco e ajustes de posições no final do mês.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 caiu de 14,133% no ajuste anterior a 14,115%. O DI para janeiro e 2029 fechou em 13,58%, vindo de 13,575% no ajuste de segunda. O DI para janeiro de 2031 cedeu de 13,594% para 13,585%.
Publicado na abertura dos negócios pelo IBGE, o IPCA-15 acelerou de 0,44% em março a 0,89% em abril, maior taxa para o mês desde 2022, quando o indicador avançou 1,73%. O dado, embora tenha vindo ligeiramente aquém do piso das estimativas do Projeções Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, (0,90%), trouxe alta dos núcleos, da difusão e dos bens industriais, dinâmica que justificou posições defensivas no mercado de renda fixa pela manhã.
Principal determinante das taxas futuras desde a eclosão do conflito no Oriente Médio, os contratos futuros de petróleo atuaram como outra influência para cima nos DIs nesta terça-feira, ao menos na primeira etapa da sessão. O contrato para julho do Brent, que serve de referência para a Petrobras, fechou com alta de 2,66%, a US$ 104,40 o barril, diante da continuidade do bloqueio no Estreito de Ormuz e percepção de que o impasse nas negociações entre Washington e Teerã persiste.
Ao longo da tarde, porém, a alta das taxas futuras começou a arrefecer em todos os vencimentos, mesmo com o petróleo subindo em igual ritmo. Por isso, um economista de uma tesouraria avalia que o mercado pode ter feito uma segunda avaliação do IPCA-15, que veio com dados qualitativos pouco animadores, mas não tão negativos como a abertura da curva indicava.
“A composição dele até veio ruinzinha, mas o dado surpreendeu bastante pra baixo e a curva pré já estava abrindo muito nos últimos dias”, afirmou o profissional à Broadcast. “A verdade é que o pré estava muito ruim para o IPCA-15 que foi realizado. Acho que estava errado antes e depois a curva se ajustou”, disse.
Estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz aponta que a decisão dos Emirados Árabes Unidos, que deixaram a Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) e o grupo com aliados (Opep+), tem viés desinflacionário globalmente, mas pondera que as cotações da commodity energética pouco reagiram à notícia. Já sobre a inflação, Cruz avalia que os preços ao consumidor no Brasil, ao menos por ora, foram os que menos mostraram impactos mais severos do choque de oferta mundial, porque o governo federal agiu rápido para mitigar os efeitos da disparada do óleo
As companhias aéreas têm boa parte de seus custos relacionadas ao querosene de aviação e essa pressão irá aparecer na inflação, diz o estrategista, mas a situação no Brasil não deve chegar perto do choque ocorrido na Ásia e Europa, em que organismos oficiais como a União Europeia já recomendam mais dias de home office e menos viagens aéreas em meio à crise de energia.
Diante do quadro um pouco mais controlado por aqui, o estrategista-chefe da RB aponta que participantes do mercado voltam a discutir se, e em que momento, o Banco Central deve acelerar o ritmo de cortes da Selic. Para a reunião de quarta-feira, 29, do Copom, o mercado de opções digitais negociadas na B3 precifica 93,5% de chance de outra redução de 0,25 ponto dos juros.