Aquele 15 de novembro amanheceu diferente. O dia em que um país inteiro votava para decidir seu futuro, parcialmente interrompido em 1964, com o golpe militar. Na capa do JBr., a manchete esperada por tanto tempo, em letras garrafais: “O Brasil nas urnas”. Eram votos para eleger 23 governadores e 953 deputados estaduais, mas, mais importante ainda, seriam eleitos 49 senadores (⅔ da Casa Alta) e 487 deputados federais – os constituintes. Mas não foi um dia fácil. Apesar da proibição de boca de urna, militantes e dirigentes partidários foram aos locais de votação com camisas personalizadas e material de campanha.
Como visto, a campanha foi acirrada. Entre demonstrações de força com carreatas e encontros comunitários, os candidatos entraram na última semana da corrida com fome. Em 1986, cerca de 690,3 mil eleitores foram às urnas. Era praticamente 1% dos 65,8 milhões de votantes Brasil afora, que aferiram taxa de comparecimento de 94,21%, pouco abaixo da média nacional, que ficou em 94,97%. Na sexta-feira anterior ao pleito, realizado no sábado, dia 15, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) ainda entregava os títulos de eleitores na capital. A preocupação com a segurança era uma frequente nas manchetes dos periódicos da época.
No Jornal de Brasília, o destaque era o serviço prestado pelo periódico ao eleitores: matérias especiais celebravam o voto candango, pontuadas por tabelas onde a população podia checar o local de votação. Houve registro de confusões em zonas eleitorais e alguns casos de dúvidas no momento da votação. Ao fim e ao cabo, era uma população desacostumada ao voto. A reportagem do JBr. também flagrou um caminhão que realizava transporte irregular de eleitores em Planaltina. Os resultados, conforme já informara o TSE, só sairiam dez dias depois do pleito.
A votação foi iniciada às 8h em 11 zonas eleitorais e se estenderia até as 17h. Esposa do construtor e mãe de uma candidata no pleito, d. Sarah Kubitschek saiu da votação no Plano Piloto e foi às lágrimas. “Brasília finalmente tem a oportunidade de votar livremente. Se Juscelino estivesse vivo sentiria uma emoção multiplicada à que estou vivendo neste momento”, disse a ex-primeira-dama do país.
A autografia mais importante
“Era brilho nos olhos de todo mundo, com os títulos nas mãos. Era tudo muito novo. Foi um dia muito lindo, de muita emoção”, relembra Maria de Lourdes Abadia, que passou 15 anos como administradora de Ceilândia e concorria à Constituinte como deputada. “Eu falei ‘gente, eu estou votando em mim’”, ri a ex-governadora. “Eu nem esperava ser eleita, porque minha campanha, fora rádio e TV, era apenas em Ceilândia”, confessa. Mas ela não votou em si sozinha: o dela foi apenas um dos 46.016 votos recebidos pela candidata do então Partido da Frente Liberal (PFL), a segunda maior votação daquele pleito e a maior em Ceilândia, onde se ergueu politicamente. Também obteve o segundo lugar nas zonas do Plano Piloto, do Paranoá e do Cruzeiro.
O mais votado naquele ano para a Câmara foi Valmir Campelo Bezerra, também do PFL, que, como visto, foi administrador de Brazlândia, Gama e Taguatinga. Não por coincidência, venceu nas três Regiões Administrativas e contabilizou 46.186 votos. “Eu sempre fui orador. Minha mãe dizia que eu subia num caixote no meu quarto e discursava para mim mesmo. Eu queria participar da vida da cidade”, conta. “Foram muitos candidatos em Brasília e eu tive a glória de ser o deputado federal mais votado da primeira eleição daqui, principalmente nas cidades que eu administrei”, emociona-se.
Uma das maiores surpresas foi a expressiva votação de Augusto Carvalho, um comunista declarado, na eleição que sepultaria o regime militar – em linhas gerais, a Ditadura se aproveitou do “fantasma do comunismo” para tocar o projeto autoritário no país. A clandestinidade do partidão gerava uma situação eleitoral ainda mais sensível. Ainda na ilegalidade, num momento em que siglas oposicionistas já pipocaram pelo país, o partido continuava nas sombras. “A clandestinidade era absoluta. A gente impôs regras muito rígidas de disciplina, de comportamento”, conta o ex-deputado.
Essas regras tiveram que cair para as eleições. Naquele pleito, foram 39.783 votos, o terceiro maior índice da corrida eleitoral para os concorrentes à Casa baixa. “O mais surpreendente foi que fui o mais votado no Setor Militar Urbano”, pontua Carvalho, em referência ao “bairro dos militares”. Era um país que, de fato, estava mudando. “Eu imagino que a votação em mim significava um gesto de rebelião, um cara do PCB que tinha posições muito firmes em relação a tudo”, levanta. “Falava sobre tortura, sobre repressão, em qualquer lugar. Onde me chamavam eu ia de peito aberto”, relembra.
Impresso, inseguro e não-auditável
Vale lembrar que o voto era feito em papel, com diversas urnas chegando ao mesmo tempo a um lugar determinado para zonas eleitorais. No então ginásio presidente Médici (hoje, Nilson Nelson), a confusão imperou no primeiro dia de checagem, com direito a mandado de segurança para obstruir a apuração, polícia, acusações de roubos de urnas e evacuação do local. Fiscais de partidos políticos tiveram dificuldades para acessar o local por ordem de um juiz eleitoral, o que gerou revolta das lideranças partidárias. O argumento era que a Lei Eleitoral garantia o acesso dos fiscais à contagem, de forma a garantir a lisura do processo.
O episódio, segundo relatado, atrasou o início da apuração em quatro horas. Candidato pelo PMDB, o advogado Sigmaringa Seixas apontou que a falta de experiência eleitoral da capital gerou os tumultos, além de reforçar que não havia desconfiança nos fiscais do Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Segundo Seixas, a fiscalização não poderia ficar “marginalizada atrás de uma grade, sequer sem poder ver se o escrutinador estava marcando corretamente os votos contados pelo presidente da mesa”. Também foram registradas confusões na votação no Guará, em Brazlândia, Ceilândia e Taguatinga.
A apuração, entretanto, continuou ao longo da semana, e a partir de quinta-feira as previsões tomaram formas de vaticínio. Além de Augusto, Maria de Lourdes e Valmir, outros nove parlamentares foram eleitos. João Assis Meira Filho (PMDB), Maurício José Corrêa (PDT) e Roberto Pompeu de Sousa Brasil (PMDB) conseguiram vaga para o Senado. Na Câmara, além do trio já mencionado, Geraldo Campos (PMDB), Márcia Kubitschek (PMDB), Jofran Frejat (PFL), Francisco Aguiar Carneiro (PMDB) e Luiz Carlos Sigmaringa (PMDB) fecharam a relação dos eleitos.
Estava formada a primeira bancada parlamentar de Brasília.