São Paulo, 14 – A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) confirmou, durante reunião da diretoria colegiada na quarta-feira, a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa nos produtos da Ypê suspensos pelo órgão na semana passada.
Não é a primeira vez que a bactéria é detectada em produtos da marca. Em novembro do ano passado, a Ypê já havia sido autuada pela Anvisa pela presença do mesmo microrganismo em itens da empresa.
A Pseudomonas aeruginosa vive na água, no solo e em superfícies úmidas. Segundo especialistas, a bactéria é considerada pouco agressiva para a maioria das pessoas. Segundo o médico Luís Fernando Correia, colunista do Pulsa, o microrganismo ameaça populações específicas, como pacientes com fibrose cística, queimados, oncológicos, transplantados, imunossuprimidos, recém-nascidos, idosos frágeis, pessoas com cateter e que estão em ventilação mecânica. “Trata-se de uma bactéria oportunista, com resistência natural a vários antibióticos.”
“A presença dessa bactéria em produtos de limpeza aumenta as chances de contaminação e pode, eventualmente, causar infecções nas populações mais suscetíveis”, explica Alberto Chebabo, médico infectologista dos laboratórios Sergio Franco, da Dasa. Ele reforça que, em pessoas saudáveis, o risco de infecção após a exposição ao produto contaminado é baixo. “Mas, eventualmente, se houver lesão na pele, algo que facilite a penetração da bactéria, pode ocorrer.”
Nos grupos vulneráveis, Correia explica que a bactéria pode causar pneumonia hospitalar grave, infecção de corrente sanguínea, sepse e até infecção ocular. Por isso, a Anvisa manteve o alerta sanitário mesmo após a Ypê ter conseguido reverter a suspensão dos produtos.
Cristiane Rodrigues Guzzo, do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), explicou que esse tipo de contaminação pode afetar diretamente a eficácia dos produtos. Mas não só. “Além de perder a capacidade de limpeza, o produto pode acabar contaminando superfícies, utensílios e objetos que estão sendo lavados. Isso torna a situação preocupante”, afirmou.
Segundo a especialista, a Pseudomonas aeruginosa é uma das poucas bactérias capazes de sobreviver e se proliferar em detergentes e produtos de limpeza. Ela destaca que a bactéria pode ser transmitida não apenas pelo contato com produtos contaminados, mas também por meio da exposição à água contaminada.
O CASO
Em inspeção conjunta, a Anvisa, o Centro de Vigilância Sanitária paulista e a Vigilância Sanitária Municipal de Amparo identificaram 76 irregularidades no processo produtivo da Química Amparo, responsável pela Ypê. Em 7 de maio, a Anvisa determinou o recolhimento, a suspensão da fabricação, da comercialização e do uso de vários produtos da marca por falhas no sistema de garantia e controle de qualidade.
De acordo com a agência, as falhas incluem problemas graves ligados ao controle microbiológico, com identificação da Pseudomonas aeruginosa em mais de 100 lotes de produtos. No dia 8, a Ypê apresentou recurso à Anvisa com esclarecimentos e subsídios técnicos e obteve a suspensão da proibição. Na última quarta, a Anvisa adiou a votação do recurso apresentado pela Ypê e agendou uma nova avaliação para hoje.