Com calculadora na mão, brasiliense mantém consumo mesmo com desaceleração do varejo

Depois de dois meses consecutivos de crescimento, o comércio do Distrito Federal perdeu fôlego em abril. O volume de vendas do varejo caiu 2,3% na comparação com março, segundo dados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira (16). Apesar do recuo no curto prazo, o cenário está longe de indicar uma crise: em relação a abril do ano passado, as vendas cresceram 6,5% na capital federal.

Nos quatro primeiros meses de 2026, o varejo acumula alta de 7,3% frente ao mesmo período de 2025. Já no acumulado dos últimos 12 meses, o crescimento é de 4,9%. Em todo o país, a retração registrada em abril foi de -1,5%.

À primeira vista, os números podem parecer contraditórios: como as vendas caem em um mês e crescem no ano? Para o economista e sócio da Valor Investimentos, Ian Lopes, as duas comparações analisam períodos diferentes.

A queda de 2,3% reflete uma desaceleração pontual após dois meses de alta, influenciada por fatores como juros elevados, custo maior do crédito e efeitos sazonais do calendário. Já o avanço de 6,5% em relação a abril de 2025 mostra que, apesar do freio recente, o comércio do DF ainda vende mais do que há um ano.

“Oscilações mensais são comuns no varejo e nem sempre indicam uma mudança de tendência na economia”, explica. Segundo ele, os dados mostram que o consumidor segue comprando, mas de forma mais seletiva. “Setores como supermercados, farmácias, informática e artigos de uso pessoal continuam apresentando crescimento expressivo, sugerindo que o consumidor segue comprando, embora de forma mais cautelosa”, afirma.

Essa mudança de comportamento já faz parte da rotina da enfermeira Karla Ferreira. Responsável pelas compras da casa, ela conta que precisou adaptar os hábitos diante do aumento do custo de vida. “Recentemente mudei meus hábitos de compras porque as coisas aumentaram muito e nosso estilo de vida também mudou”, relata.

Hoje, antes de colocar os produtos no carrinho, a pesquisa virou regra. Karla compara preços e marcas no próprio supermercado e percebe que itens básicos têm pesado mais no orçamento. “Creio que alimentos primordiais, como arroz, feijão e carnes, ficaram mais difíceis”, diz. Apesar disso, ela afirma que não precisou abrir mão de produtos essenciais. Quando encontra boas ofertas, aproveita para economizar.

A percepção da consumidora ajuda a explicar um dos resultados da pesquisa do IBGE. O segmento de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo registrou alta de 7,7% em relação a abril do ano passado, indicando que as famílias continuam consumindo, embora com escolhas mais planejadas.

Presidente do Sindicato dos Supermercados do Distrito Federal (Sindsuper), Jair Prediger afirma que o setor já percebia um consumidor mais atento ao orçamento. Segundo ele, os clientes passaram a observar mais promoções e, em alguns casos, substituem marcas tradicionais por opções mais acessíveis. A mudança ainda não é predominante, mas aponta para uma tendência de compras mais conscientes.

Para acompanhar esse novo perfil, os supermercados têm buscado se adaptar. Redes que investem em ofertas, diversificação de produtos e estratégias voltadas às necessidades dos consumidores conseguem responder melhor às mudanças do mercado.

O comportamento mais criterioso também aparece nas compras de maior valor. O estudante João Victor Ferreira, de 20 anos, precisou comprar um novo celular após ter o aparelho roubado justamente no mês em que quitou a última parcela do antigo. “Hoje em dia, o celular é uma necessidade. Não poderia ficar sem”, conta.

Mesmo diante da urgência, ele pesquisou preços e condições antes de fechar a compra. O aparelho escolhido custava cerca de R$ 3,7 mil, mas a comparação entre lojas permitiu economizar R$ 300. “Se o desconto à vista compensar, eu pago. Caso contrário, parcelo na quantidade máxima possível sem juros”, afirma.

A realidade é semelhante no comércio de eletrônicos. Proprietária da Jessikaimport Eletrônicos, Jessika Deyse da Silva percebeu um consumidor mais exigente em abril, mês em que a loja registrou queda nas vendas. “Quando se trata de investimentos maiores, as pessoas demoram mais para fechar a compra. Elas estudam as condições do mercado e acabam optando pelo melhor”, diz.

Segundo ela, os fones de ouvido estão entre os produtos mais procurados, enquanto o parcelamento continua sendo uma alternativa frequente para facilitar a compra.

Entre os oito segmentos pesquisados pelo IBGE, sete apresentaram crescimento em relação a abril de 2025. O maior avanço foi registrado em equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação, com alta de 49,7%. Também cresceram outros artigos de uso pessoal e doméstico (23,5%), artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos (7,9%), livros, jornais, revistas e papelaria (7,8%), hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (7,7%), móveis e eletrodomésticos (4,5%) e tecidos, vestuário e calçados (4,0%).

A única exceção foi o segmento de combustíveis e lubrificantes, que registrou queda de 7,2% na comparação com abril do ano passado.

No fim das contas os brasilienses não deixaram de consumir, mas mudaram a forma de comprar: pesquisar mais, aproveitar promoções, comparar preços e planejar melhor os gastos antes de tomar decisões que impactam o orçamento.

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF
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