Dólar entra em correção e recua em meio a adiamento de negociações EUA-Irã; Bolsa oscila

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Canadá e UE reforçam decisão nos EUA e alegam que – Reprodução

FOLHAPRESS

O dólar está em queda nesta sexta-feira (19), em movimento de correção após duas sessões seguidas de alta.

O recuo acontece a despeito do adiamento das negociações de paz entre Estados Unidos e Irã no contexto da guerra no Oriente Médio. Investidores também repercutem decisões de juros do Copom (Comitê de Política Monetária) e do Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) da última quarta-feira (17).

Às 13h51, a moeda caía 0,58%, cotada a R$ 5,143, em sessão de menor liquidez por causa do feriado de Juneteenth nos EUA. Já a Bolsa tinha variação negativa de 0,13%, a 168.044 pontos.

A Suíça informou que as negociações entre Estados Unidos e Irã para pôr fim ao conflito no Oriente Médio não ocorreriam nesta sexta-feira, como divulgado no último domingo (14). As tratativas foram adiadas, por ora indefinidamente.

O adiamento acontece em meio a novos ataques entre as forças de Israel e o grupo extremista Hezbollah, no Líbano. A interpretação dos mercados é que o acordo provisório, celebrado globalmente desde segunda-feira, pode estar em risco.

Durante esta madrugada, quatro soldados israelenses foram mortos numa das ofensivas mais letais já feitas pela organização xiita desde o início do conflito, de acordo com Tel Aviv, enquanto bombardeios atribuídos a Israel mataram pelo menos 18 pessoas em território libanês.

O Irã, além disso, anunciou na véspera que, ao fim dos 60 dias do memorando de entendimento, pretende controlar a navegação pelo Estreito de Hormuz em parceria com Omã, em desafio a uma das demandas mais firmes dos Estados Unidos para encerrar a guerra.

“Esses dois eventos trazem maiores preocupações quanto à possibilidade de esse acordo temporário não se sustentar e acabar sendo interrompido”, diz Leonel Mattos, analista de inteligência de mercado da StoneX. Por conta disso, afirma ele, a tendência dos investidores é de adotar cautela, sobretudo em um momento em que os mercados dos EUA estão fechados por conta de um feriado.

Por outro lado, o dólar apresentou forte valorização nas últimas duas sessões, na esteira das decisões de juros do Fed e do Copom. O movimento nesta sexta, portanto, é de correção e ajustes de posições.
A política monetária dos dois países segue em foco, com investidores agora atentos à divulgação da ata do Copom na terça-feira (23).

O Banco Central não surpreendeu ao cortar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano. A surpresa, no entanto, veio no comunicado mais “dovish”, isto é, mais suave no combate à inflação.

Na análise dos investidores, o Copom abriu a porta para continuar cortando a Selic, mesmo em um momento em que os índices inflacionários seguem subindo para além do teto da meta de inflação. O comunicado, considerado confuso, não esclareceu satisfatoriamente o porquê dessa sinalização.

Isso, segundo os operadores, afeta a percepção do mercado sobre a chamada “função de reação” da autoridade monetária, isto é, a capacidade de um banco central de ajustar a política monetária aos indicadores econômicos.

“Há uma dissonância forte entre o diagnóstico do Copom e o remédio aplicado”, diz Alexandre Schwartsman, economista e ex-diretor do BC.

“O diagnóstico está correto: há um choque inflacionário sério decorrente da crise do petróleo, com outros riscos à frente [como o El Niño], e de uma economia superaquecida que se traduz na elevação da inflação no horizonte relevante. Mas a resposta foi inadequada, com uma justificativa frágil em várias dimensões.”

O comitê afirmou que, se mantivesse os juros em patamar necessário para levar a inflação à meta ao término de 2027, eles acabariam derrubando o índice para um patamar abaixo do alvo no primeiro trimestre de 2028 —sem dizer quanto exatamente. O BC trabalha com a meta de inflação em 3% ao ano, com margem de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo.

Na prática, o Copom adiou o cumprimento da meta em um trimestre –o que, na visão de Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, é uma forma de mudar a meta sem admitir o ajuste. A expectativa agora é que a ata esclareça os pontos que geraram confusão entre os agentes.

Juros mais baixos no Brasil tiram a atratividade do chamado “carry trade”, isto é, a tomada de recursos em países de taxas baixas, como os EUA ou o Japão, e a aplicação desse dinheiro em economias de taxas altas, como a brasileira, para rentabilizar sobre a diferença percentual.

Com a perspectiva de uma Selic mais baixa, uma das pontas desse “carry trade” se enfraquece. E a outra, a dos juros americanos, também deu motivo na véspera para que os investidores fugissem do mercado brasileiro.

O Fed manteve a taxa de juros inalterada na faixa de 3,5% e 3,75%, como era amplamente esperado. O mercado, porém, foi pego de surpresa com a previsão de 9 entre 19 membros do banco central de que haverá ao menos uma alta de 0,25 ponto percentual na taxa neste ano —destes, 6 esperam ao menos duas elevações. Outros 9 não esperam alteração, e Kevin Warsh, novo presidente do Fed, se absteve de fazer projeções.

A entrevista coletiva de Kevin Warsh, a primeira dele à frente do cargo, também foi lida pelo mercado como “hawkish”, ou seja, dura no combate à inflação.

“Foram declarações mais conservadoras do que o mercado esperava. Isso elevou as apostas para uma trajetória de juros mais alta nos Estados Unidos. Atualmente, os investidores majoritariamente projetam três altas de juros pelo Fed até janeiro de 2027, contra apenas uma antes da decisão anunciada ontem”, diz Leonel Mattos, da StoneX.

“Esse cenário favorece os juros americanos, eleva os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, as treasuries, e aumenta a atração de capitais externos para o país. Consequentemente, fortalece o dólar globalmente e gera pressão sobre a taxa de câmbio brasileira.”


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