São Paulo, 16 – Após trabalhar acima da linha de R$ 5,00 em boa parte do pregão, o dólar perdeu força na reta final dos negócios e fechou cotado a R$ 4,9929 (+0,01). Operadores ressaltam que o mercado de câmbio apresentou liquidez reduzida pela segunda sessão consecutiva, com investidores promovendo apenas ajustes finos de posição enquanto monitoram as negociações no Oriente Médio.
A avaliação é a de que faltam gatilhos que detonem apostas em mais uma onda de apreciação do real após o dólar ter furado o piso de R$ 5,00. A variação positiva de 0,01% do dólar nesta quinta-feira, 16, veio após uma sequência de seis pregões consecutivos de queda da moeda americana. A divisa já recua 0,37% na semana e 3,59% no mês. No ano, as perdas são de 9,04%.
De outro lado, o real segue amparado pela atratividade do carry trade, dada a taxa de juros elevada, e pela melhora dos temores de troca com a valorização do petróleo. Declarações cautelosas do diretor de Assuntos Internacionais, Gestão de Riscos Corporativos e de Política Econômica do Banco Central, Paulo Picchetti, em evento desta quinta reforçaram a percepção de que o BC não vê espaço para acelerar o ritmo de corte da taxa Selic.
O gestor de fundos multimercados da AZ Quest, Eduardo Aun, pondera que o ambiente externo ainda é de muita incerteza, apesar do alívio recente na aversão ao risco com o acordo de cessar-fogo entre EUA e Irã e postura menos belicosa do presidente dos EUA, Donald Trump.
“O real apreciou bastante e as moedas em geral já voltaram aos níveis pré-guerra. Mas não tenho confiança de que pode haver uma melhora maior no curto prazo porque estamos ainda em um ambiente de conflito” afirma Aun, ressaltando que há dúvidas sobre como será a reabertura do Estreito de Ormuz em caso de fim da guerra. “Não há nada resolvido. Quando vejo o petróleo subindo 2%, 3%, como hoje, fico preocupado”.
Pela manhã, autoridades paquistanesas informaram que não há uma data marcada para outra rodada de negociações de paz entre Irã e Estados Unidos, apesar da proximidade do fim do acordo de cessar-fogo, previsto para a próxima terça-feira, 21. À tarde, Trump disse que um encontro com os iranianos pode ocorrer já neste fim de semana e sugeriu a possibilidade de extensão da trégua. Mais cedo, Trump, afirmou que Israel e Líbano concordaram em iniciar formalmente nesta quinta um cessar-fogo de 10 dias.
Apesar das declarações do presidente americano, não houve alívio nas cotações do petróleo, ainda pressionadas pela diminuição do tráfego de embarcações pelo Estreito de Ormuz. O contrato do WTI para maio subiu 3,72%, a US$ 94,69 o barril. Já o Brent para junho – referência de preços para a Petrobras – avançou 4,7%, a US$ 99,39 o barril.
Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou em leve alta ao longo do dia e voltou a superar a linha dos 98,000 pontos, com máxima aos 98,292 pontos. As divisas latino-americanas mostraram resiliência, operando ao redor da estabilidade, apesar do avanço do dólar frente à maioria das moedas emergentes e de países exportadores de commodities.
Aun, da Az Quest, pondera que as ações de tecnologia dos EUA voltaram a ter um desempenho superior ao de outras classes de ativos nos últimos dias, o que acende um primeiro sinal de alerta em torno da possibilidade de enfraquecimento adicional da global da moeda americana.
“O Brasil ainda aparece como destino favorito dos investidores. Enquanto o dólar seguir globalmente fraco, o ambiente tende a seguir favorável ao real, com um ‘carrego’ muito positivo e termos de troca favoráveis”, afirma o gestor.
Bolsa
O Ibovespa seguiu em correção moderada pela segunda sessão, lutando nesta quinta-feira, 16, ao menos pelo nível de 197 mil pontos, sem conseguir defendê-lo no fechamento, em baixa de 0,46%, aos 196.818,59. Assim, afasta-se um pouco mais do recorde de encerramento de 14 de abril, então aos 198,6 mil, permanecendo a cerca de 1,8 mil pontos daquele patamar. Na mínima desta quinta, o índice da B3 foi aos 196.353,98 pontos, saindo de abertura a 197.737,89 pontos e alcançando, na máxima da sessão, os 198.586,57 pontos. Após o vencimento de opções na quarta, quando chegou a R$ 81 bilhões, o giro ficou em R$ 30,6 bilhões. Na semana, o Ibovespa cai 0,26%, mas ainda sustenta alta de quase 5% (4,99%) no mês, avançando 22,15% no ano.
No exterior, os mercados tiveram reação neutra ao anúncio do presidente dos EUA, Donald Trump, de que Israel e Líbano concordaram com um cessar-fogo de 10 dias a partir desta quinta. A suspensão dos ataques no Líbano era condição imposta pelo Irã para negociar o fim da guerra no Oriente Médio. Trump afirmou que o presidente do Líbano, Joseph Aoun, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, concordaram em iniciar formalmente um cessar-fogo de 10 dias, às 18h (de Brasília), para alcançar a paz entre os países. Em postagem na Truth Social, o republicano disse que teve “excelentes conversas” com os líderes.
Em Nova York, os principais índices de ações fecharam em altas de 0,24% (Dow Jones), 0,26% (S&P 500) e 0,36% (Nasdaq), em dia de avanço nos rendimentos dos Treasuries, acompanhado, no Brasil, pela curva do DI. Tanto o amplo S&P 500 como o tecnológico Nasdaq renovaram máximas de fechamento.
No Brasil, o dólar à vista encerrou a sessão quase estável (+0,01%), ainda na casa de R$ 4,99. E, em Nova York e Londres, os contratos futuros de petróleo mais líquidos do WTI e do Brent tiveram alta de 3,72% e de 4,7%, respectivamente, o que deu impulso à recuperação das ações de Petrobras na sessão, em avanço de 4,19% na ON e de 3,58% na PN. Vale ON, por outro lado, cedeu 1,13%. Entre as demais blue chips, o desempenho foi misto nos maiores bancos, com variações entre -0,7% (Santander Unit) e +0,7% (Bradesco ON) entre as principais instituições.
“Na contramão de Nova York, tivemos o prosseguimento de uma correção natural após uma sequência muito longa de altas”, resume Matheus Spiess, analista da Empiricus Research. A de hoje foi apenas a segunda perda diária deste mês de abril, que interrompeu na quarta uma sequência de 11 altas – nas cinco últimas em níveis recordes – iniciada ainda em 30 de março.
Nos principais índices de ações da Europa, o fechamento também foi sem direção única, em sessão marcada por cautela decorrente de sinais ainda mistos sobre o conflito no Oriente Médio e quanto aos respectivos desdobramentos para energia e inflação. O noticiário sobre possíveis avanços diplomáticos entre EUA e Irã trouxe algum alívio ao sentimento do investidor, mas a fragilidade do cessar-fogo e os riscos à oferta de petróleo continuaram a limitar o apetite por risco.
No mercado da commodity, o avanço nos preços nesta quinta-feira decorreu da falta de sinais concretos de avanço nas negociações entre EUA e Irã e do aumento do ceticismo em relação às declarações do presidente Donald Trump, de que o conflito se encerraria em breve. Neste contexto, na ponta ganhadora da sessão na B3, além das duas ações de Petrobras, destaque também para outro nome do setor de energia, Prio (+1,68%), à frente de Braskem (+1,30%). No lado oposto, Assaí (-8,66%), Lojas Renner (-3,53%) e RD Saúde (-3,37%).
Na agenda doméstica pela manhã, o IBC-Br, considerado uma “proxy” do PIB, trouxe avanço mensal de 0,6%, acima do esperado para fevereiro, puxada principalmente pelo desempenho da indústria, em alta de 0,2%, ressalta Patricia Krause, economista-chefe para América Latina da Coface. “Embora acima do esperado, veio em linha com a expectativa de que o primeiro trimestre do ano será o mais forte, com perda de dinamismo gradual para a atividade”, diz.
Em outro destaque do dia, o diretor de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos e de Política Econômica do Banco Central, Paulo Picchetti, disse que a autoridade monetária segue sem qualquer guidance para a próxima decisão sobre o nível da Selic, que acontecerá no final deste mês.
Durante participação em painel no Itaú Latam Day, em Washington, DC, Picchetti destacou que o guidance só é bem vindo quando há um nível de confiança forte o suficiente em relação ao cenário econômico, o que não é o caso, sobretudo por conta do conflito no Oriente Médio. “Para nós, o custo em termos de credibilidade de sinalizar algo que, na prática, acabamos não cumprindo é muito alto. E, claro, isso cria esse tipo de ansiedade, que não é só para vocês; é para nós também”, disse Picchetti, conforme relato dos jornalistas Daniel Tozzi e Célia Froufe, da Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.
Juros
Sob um conjunto de fatores de pressão, a curva de juros futuros se deslocou para cima no pregão desta quinta-feira, 16. A alta nas taxas curtas e médias foi acentuada após declarações consideradas mais conservadoras do diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Paulo Picchetti. Na ponta mais longa, o leilão robusto de prefixados do Tesouro Nacional adicionou risco relevante ao mercado e elevou os DIs, tendo como pano de fundo o aumento da cautela no exterior, em meio à ausência de sinais de avanço nas negociações entre EUA e Irã.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,953% no ajuste de quarta a 14,045%. O DI para janeiro de 2029 avançou a 13,335%, vindo de 13,212% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2031 aumentou de 13,344% para 13,415%.
Ao participar do Itaú Latam Day, às margens das reuniões de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington, Picchetti disse que não conversou com os demais integrantes do colegiado sobre o ambiente econômico doméstico e internacional, mas está claro que a situação é de muita incerteza, e que “as coisas definitivamente não melhoraram desde o Copom de março”.
Já influenciadas pelo avanço do petróleo, que fechou em alta na ordem de 4%, com incertezas sobre possível avanço nas tratativas entre Washington e Teerã, as taxas curtas renovaram máximas acima dos 14% após a apresentação do diretor do BC. Os vértices longos, por sua vez, continuaram abrindo cerca de 10 pontos, na esteira do maior leilão de prefixados do Tesouro Nacional desde o início do confronto no Oriente Médio.
Estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos, Luis Felipe Vital pondera que a exposição de Picchetti não trouxe novidades, com apresentação de gráficos sobre expectativas e citações de trechos da última ata do Copom. “Nos comentários, porém, uma fala com caráter mais pessoal pode ter pressionado os juros”, observa Vital, citando a avaliação do diretor de que a situação não melhorou desde o último Copom. “A declaração pode ter sido interpretada como mais ‘hawkish’, reforçando a necessidade de cautela e sugerindo menor espaço para cortes nesse processo de calibragem”, comentou Vital.
Segundo Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, quem já estava pessimista com o ciclo de cortes da Selic deve se apoiar na fala de Picchetti. Além do discurso do dirigente do BC, Cruz acrescenta que o cenário externo também puxou os DIs para cima, mas, ao contrário do observado no começo do conflito, as ameaças do presidente Donald Trump passam a ser vistas com maior ceticismo.
Nesta quinta, Trump afirmou que o próximo encontro com o Irã pode ocorrer já neste final de semana, e indicou que pode estender o cessar-fogo caso as negociações avancem. Contudo, alertou que, sem entendimento, os combates podem ser retomados. “Se o Irã ameaçar, realmente eu ficarei atento. Mas os EUA já perderam esse poder”, destaca Cruz.
Em um cenário no qual a guerra apenas esfria, mas o conflito persiste, e os contratos futuros de petróleo continuam orbitando o patamar de US$ 100, é difícil imaginar que o BC acelere o ritmo de cortes da Selic, avalia Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez. Em suas estimativas, o Copom seguirá cortando o juro a 25 pontos-base por reunião até que a taxa alcance 13,5%, mesmo nível em que vai terminar o ano. “É isso que está na curva”, apontou.
No final desta tarde, a curva precificava 92% de chance de redução de 0,25 ponto da Selic em abril, e 8% de probabilidade de ajuste de 0,5 ponto. A taxa apontada para dezembro de 2026 estava em 13,7%.
Do lado da oferta, o Tesouro surpreendeu agentes e pressionou a curva ao colocar totalmente no mercado os lotes de 7 milhões de Notas do Tesouro Nacional – Série F (NTN-F) e de 28 milhões de Letras do Tesouro Nacional (LTN). O risco adicionado ao mercado (DV01) foi de US$ 1,326 milhão nos cálculos da Warren Investimentos, 116% maior do que o certame da semana passada.