FOLHAPRESS
O dólar recua forte nesta quarta-feira (19), com os investidores reagindo à decisão do Tesouro dos EUA de dobrar o volume de recompras de títulos de vencimentos mais longos.
Analistas também aguardam a divulgação da ata da última reunião de política monetária do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA), prevista para a tarde desta quarta.
Às 14h45, a moeda norte-americana caía 0,99%, cotada a R$ 5,171, em linha com o movimento no exterior, após registrar R$ 5,156 (queda de 1,24%). O índice DXY, que mede o desempenho do dólar ante seis outras divisas, recuava 0,71%.
A Bolsa avançava. No mesmo horário, o Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, subia 0,98%, aos 167.941 pontos, em sessão marcada pela alta das ações de Vale e Petrobras e por ajustes dos investidores após as quedas recentes. Na máxima, chegou a avançar 2,41%, a 170.340 pontos.
Nesta quarta, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos afirmou que dobrará o volume de recompras de títulos de longo prazo da dívida pública americana, em uma tentativa de dar mais liquidez ao mercado após uma forte alta dos juros desses papéis.
O órgão informou que elevará de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões o volume das operações de recompra de títulos com vencimento entre 10 e 20 anos e entre 20 e 30 anos. Segundo o Tesouro, a medida busca “oferecer maior suporte à liquidez” nos segmentos mais longos do mercado de dívida, avaliado em US$ 30 trilhões.
A decisão de ampliar as recompras ocorre em um momento de crescente tensão no mercado de títulos mais importante do mundo. Na terça-feira (18), o rendimento dos títulos de 30 anos chegou a quase 5,34%, o maior nível desde 2007.
A alta nas taxas dos títulos públicos indica, na prática, sua desvalorização no mercado. Isso ocorre porque preço e rendimento têm relação inversa: quando os juros sobem, os preços dos papéis caem; quando os juros recuam, os títulos se valorizam.
A operação do Tesouro americano impacta o pregão. Quando os juros dos Treasuries sobem, os títulos americanos ficam mais atraentes em relação a ativos de outros países. Isso tende a favorecer o dólar e pressionar ativos de mercados emergentes, como o real e Bolsa.
Segundo Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, a recompra cria uma demanda adicional pelos títulos, elevando seus preços. “Como preço e rendimento dos títulos se movem em direções opostas, a operação tende a pressionar as taxas para baixo”, diz.
“Grande parte do capital global estava alocada nos Estados Unidos, aproveitando justamente aquelas taxas de juros altas e a segurança dos títulos americanos. Quando o Tesouro atua para reduzir os juros longos, o dólar perde parte desse apelo”, afirma.
Para Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX, a alta dos rendimentos dos títulos de longo prazo, que levou o Tesouro dos EUA a ampliar as recompras, é um sinal de enfraquecimento da demanda por esses papéis. “Ou seja, os investidores não estão dispostos a comprar esses papéis pelos rendimentos vigentes e estão exigindo taxas mais elevadas para alocar seu capital em títulos de longo prazo”, diz.
Segundo Mattos, o principal fator por trás desse movimento é a preocupação com as perspectivas fiscais do país. “Os Estados Unidos registram déficits elevados há muito tempo e não têm demonstrado apetite por uma consolidação fiscal […] A perspectiva de um endividamento crescente traz dúvidas sobre a capacidade de pagamento dessas economias no longo prazo.”
Em reação o anúncio, o rendimento da Treasury de 30 anos caiu 0,09 ponto percentual, para 5,2%. Na terça-feira, a taxa havia chegado a quase 5,34%, o maior nível desde 2007.
A decisão também mexe com a trajetória dos juros futuros brasileiros. Por volta das 12h50, a taxa DI de 2028 recuava a 13,86% ante fechamento de 13,97% na véspera (queda de 11 pontos-base), enquanto o vencimento de 2035 caía de 14,779% para 14,625% (recuo de 15 pontos-base).
As taxas dos DIs refletem a expectativa do mercado para a trajetória futura da Selic e do CDI, referência para a remuneração de investimentos.
Os investidores também aguardam a divulgação da ata do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA), que deve trazer novas pistas sobre a trajetória dos juros.
Na última reunião do banco central americano, em julho, a taxa básica de juros do país foi mantida na faixa entre 3,5% e 3,75%.
“Historicamente, a ata do Fomc não costuma provocar grandes movimentos nos mercados financeiros, justamente porque é divulgada três semanas após a decisão. Na gestão de Kevin Warsh como presidente do Fed, porém, o documento ganha importância em razão de seu estilo de comunicação mais enigmático e da resistência, até o momento, em discutir de forma mais direta a política monetária”, disse Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX.
A ata ganha ainda mais importância diante das incertezas em torno do conflito no Oriente Médio. Na terça-feira, os mercados de renda fixa passaram por uma forte deterioração, levando os rendimentos dos títulos aos maiores níveis em mais de uma década, enquanto o petróleo continuou pressionado pela disputa em torno do estreito de Hormuz.
Na segunda-feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou uma imagem que mostra o estreito de Hormuz como “novo território americano”. A publicação ocorreu em meio à estagnação das negociações diplomáticas e à disputa pelo controle da via marítima.
“Não há nenhuma negociação ou conversa em andamento, nem prevista, com a República Islâmica do Irã”, escreveu o republicano em outra publicação. Segundo Trump, o bloqueio naval americano aos portos iranianos continua em vigor.
Antes da manifestação de Trump, o principal negociador de Teerã, Mohammad Baqer Qalibaf, afirmou que o estreito de Hormuz permanecerá fechado até que os Estados Unidos cumpram as condições de um acordo provisório firmado com o Irã em junho.
As exigências incluem o fim do bloqueio americano aos portos iranianos, a suspensão das sanções sobre o petróleo, a liberação de ativos iranianos congelados e a interrupção de ameaças e operações militares dos Estados Unidos, segundo Qalibaf.
Considerado estratégico para o comércio global, o estreito de Hormuz era responsável, antes da guerra, pela passagem de cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados no mundo.