O dólar ronda a estabilidade nesta terça-feira (28), com impasses nas negociações da Guerra no Irã no radar, enquanto investidores acompanham o início das reuniões de juros no Brasil e EUA.
Por volta das 14h30, a moeda norte-americana subia 0,05%, a R$ 4,985 -na máxima, o dólar chegou a R$ 5,016. Lá fora, o índice DXY, que compara a moeda a uma cesta de seis divisas fortes, avançava, com uma alta de 0,17%
No mesmo horário, a Bolsa recuava 0,46%, a 188.669 pontos. O comportamento ocorria apesar da alta do petróleo impulsionar empresas brasileiras e em linha com o exterior. Nos EUA, S&P 500 e Nasdaq recuavam mais de 0,70%.
A incerteza nas negociações entre EUA e Irã persiste nesta terça. A Casa Branca disse estar analisando a proposta iraniana para reabrir o estreito de Hormuz, por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e gás.
O plano contemplaria a flexibilização do controle iraniano sobre Hormuz e o fim do bloqueio dos EUA aos portos iranianos, mas adiaria as negociações sobre a questão nuclear.
A retomada de negociações entre os países deveria ter acontecido no último final de semana, mas autoridades iranianas se reuniram apenas com paquistaneses. O presidente norte-americano, Donald Trump, cancelou a viagem de enviados norte-americanos à capital do Paquistão.
Nesta terça, Trump foi às redes sociais dizer que o Irã “está em estado de colapso”. “O Irã acaba de nos informar que está em um estado de colapso. Eles querem que abramos o estreito de Hormuz o mais rápido possível, enquanto tentam resolver sua situação de liderança (o que acredito que conseguirão fazer!)”, escreveu, sem dar detalhes de como teria sido esse contato.
Enquanto isso, os dois países continuam bloqueando o tráfego na região e afetando o fornecimento do produto. O tráfego marítimo no local diminuiu em 95% desde o início da guerra, em 28 de fevereiro.
“Esse cenário eleva as preocupações com uma possível escassez global de petróleo e com um choque prolongado na oferta da commodity, gerando pressões inflacionárias”, diz Leonel de Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX.
O revés diplomático eleva as cotações do petróleo no exterior. O Brent, referência internacional, avança quase 3%, cotado a US$ 111.
Como exportador de petróleo, o Brasil se beneficia da alta do petróleo, tanto via fluxo de estrangeiros quanto pela balança comercial. Entretanto, o ambiente conflituoso pressiona real e a Bolsa brasileira, considerados ativos alternativos.
“Embora o Brasil seja exportador líquido de commodities -especialmente petróleo- e, em geral, se beneficie de preços mais elevados, neste momento prevalece o ambiente de aversão ao risco”, afirma Leonel.
Agentes no Brasil e no exterior também aguardam as decisões de política monetária. Na quarta-feira (29), o Banco Central e o Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) divulgam suas decisões, com o mercado apostando em uma redução da Selic para 14,50% ao ano, com um corte de 0,25 ponto percentual, e prevendo a manutenção da taxa do Fed na faixa de 3,5% a 3,75% ao ano.
A data, apelidada de “superquarta”, deve ter como ponto central o debate sobre as consequências econômicas da guerra no Oriente Médio, em especial sobre a inflação.
Nesta terça, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelou que a inflação medida pelo IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) acelerou a 0,89% em abril. O resultado ficou abaixo da mediana projetada pelo mercado financeiro, que era de 0,99%.
O índice foi pressionado pela alta dos alimentos e dos combustíveis com a guerra no Irã, que aumentou as cotações do petróleo.
Para Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil, o cenário tende a manter o Copom mais cauteloso diante de narrativas de juros muito mais baixos. “Ao menos, antes de termos sinais sólidos da trajetória do preço”.
Lucas Barbosa, economista da AZ Quest, também diz que os dados reforçam uma postura mais cuidadosa do Copom. “O dado de hoje não exclui a possibilidade de um corte de 25 pontos-base na próxima reunião, mas reforça a leitura de que o ciclo deve seguir com reduções graduais, de 25 pontos-base ao longo de 2026, diante de núcleos e serviços ainda pressionados”.
Segundo o Boletim Focus dessa semana, analistas do mercado financeiro projetam uma redução de 0,25% na taxa de juros brasileira nesta quarta, passando dos atuais 14,75% para 14,5%. A expectativa é que a Selic termine 2026 em 13% ao ano.
O ritmo de corte deve continuar por aqui pela Selic estar com uma “gordura extra”, segundo dirigentes do Copom. O nível da taxa permitiria ao BC reduzir a taxa e ainda combater o aumento de preços causado pela guerra.
Ainda por aqui, a temporada de balanços do 1º trimestre se intensifica. O foco da sessão está sobre os resultados da Vale, divulgados após o fechamento do mercado.
“Qualquer surpresa positiva no fluxo de caixa dessas companhias tende a sustentar sinais de recuperação setoriais, enquanto sinais de pressão sobre custos logísticos e trabalhistas podem anular parte do avanço do Ibovespa, especialmente em ações de commodities”, afirma Araújo.
A semana ainda trará os resultados de Santander, WEG e Neonergia.
Nos Estados Unidos, foco está sobre a decisão do Fed. Segundo a ferramenta FedWatch, do CME, esta “superquarta” deve manter a taxa de juros norte-americana na banda de 3,5% a 3,75%.
Esta pode ser a última reunião de Jerome Powell como presidente da autoridade monetária -o indicado ao cargo, Kevin Warsh, pode assumir já no encontro de junho.
A reunião e a entrevista coletiva de Powell após o anúncio da decisão devem abordar questões importantes, inclusive se as autoridades acenarão à possibilidade de aumentos nos juros ainda este ano caso a inflação acelere.
A permanência de Powell na diretoria do Fed, mesmo que Warsh seja confirmado a tempo de dirigir a reunião seguinte, também deverá ser abordada na quarta-feira.