EXCLUSIVO: gestora de restaurantes comunitários tem dívidas de quase R$ 1 milhão com fornecedores

O fornecimento de alimentação em três restaurantes comunitários do DF está comprometido. As unidades de Ceilândia Centro, Sol Nascente e Estrutural, geridas pela mesma empresa, têm relatos de atraso de pagamentos a funcionários e fornecedores. De acordo com os relatos obtidos pelo Jornal de Brasília, a precariedade é tamanho que alguns colaboradores chegaram a trabalhar sem contrato, sem salário e sem pagamento das passagens para chegar ao local de trabalho – em alguns casos, com jornadas de 17 horas diárias. Para completar, há dívidas que chegam a quase R$ 1 milhão com fornecedores. 

Ainda em 2025, a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes), responsável pela gestão dos restaurantes comunitários, abriu o pregão eletrônico 90006/25, cuja empresa vencedora seria responsável por tocar as três estruturas. A pasta estipulou o preço base em R$ 61,8 milhões. Em fevereiro, a Serví Gastronomia Industrial LTDA assinou dois contratos – referentes aos restaurantes do Sol Nascente e da Estrutural – pela soma de R$ 18,6 milhões (o contrato que diz respeito à unidade de Ceilândia Centro não foi disponibilizado no portal da secretaria), mas, pela licitação, ficou em cerca de R$ 13 milhões. No total, a licitação foi vencida por R$ 31,2 milhões. 

Tabela da licitação feita pela Sedes com as necessidades de cada unidade dos restaurantes licitados. Foto: Reprodução

Até houve contestação por parte de outros licitantes, que alegaram a incapacidade da empresa em prestar o serviço por quase metade do valor indicado. Com base na legislação de licitações, que não prejudica quem oferece preços abaixo do mercado, a decisão foi mantida. E logo começaram os problemas. “Antes da abertura do da Estrutural, me contactaram pedindo para eu assumir a chefia desse projeto”, conta o chefe de cozinha José Reis. “Fui no dia anterior à abertura [25 de março] e no dia 26 trabalhei de 5h às 22h”, completa. 

Conforme o relato, foram 16 dias de trabalho sem qualquer remuneração, e ainda assumindo responsabilidades com a equipe, que chegou a ter 32 pessoas. “Logo depois da primeira semana, ninguém recebia passagem. Eu comecei a pagar do meu bolso, senão eles não iam trabalhar”, conta Reis. Em pouco tempo, até os insumos começaram a rarear, algo que acendeu de vez o alerta no chefe de cozinha. A proteína não chegava a tempo do preparo adequado, as hortaliças escasseavam. “Sempre faltando produtos, tudo era feito de forma precária; não faltou comida porque a gente se desdobrava para deixar tudo certo para a população”, aponta. 

Calote em fornecedores

Os insumos começaram a rarear no restaurante da Estrutural quando o dinheiro parou de chegar aos fornecedores. “Ele dava uma entrada, um sinal, e depois as parcelas começavam a atrasar”, explica Rodrigo César, um dos fornecedores lesados pela Serví, que se prestou a organizar a lista de credores.

Pelos cálculos feitos pelo grupo, são R$ 1 milhão em dívidas com pessoas e empresas que cumpriram sua parte do acordo, mas não viram a cor do dinheiro. Itens como utensílios de cozinha, materiais descartáveis, as proteínas e hortaliças, como já mencionado, equipamentos industriais de refrigeração e até as instalações de pias e outras comodidades necessárias a uma cozinha industrial. 

Na Receita Federal, a Serví é uma empresa criada em 2014 e tem sede em Macapá, no Amapá, e abre filiais ao redor do país a depender de contratos de licitação que disputa. A empresa é investigada por supostamente facilitar a entrada de armas, celulares e 11 toneladas de drogas nos presídios do Instituto de Administração Penitenciária do Amapá (Iapen-AP), onde tinha contrato, além de ser acusada de fornecer menos alimentos do que foi contratada para fazer.

Em Brasília, a Serví está estabelecida em um coworking na Asa Sul, sem qualquer representação. O único sócio-administrador que consta na RFB é Cleyton dos Santos Amanajás, mas quem assina os contratos com a administração é Robson Pacheco Pimentel, apontado como representante comercial. A vida de ambos está entrelaçada já há bastante tempo.

Cleyton ainda responde a processos no Paraná por inadimplência com uma cooperativa de crédito relacionado a contrato com a Universidade Federal do Paraná (UFPR). A empresa tinha dois cartões de crédito empresariais, um para Cleyton e outro para seu parceiro, o Robson, que assina o contrato com a Sedes, como dito. A inadimplência se deu oficialmente já em dezembro, no valor de R$ 76 mil. Na fatura, compras na Tiffany – loja de artigos de luxo -, pedidos de comida e artigos esportivos. 

“Vive de ostentação”

O cartão também foi usado para compra de passagens de R$ 27 mil para Nice, na França (gastos com transporte e hospedagem confirmam a ida também à Itália). As informações constam no bojo do processo movido contra eles. Ou seja: a conta corporativa, feita em função do contrato para gestão do Restaurante Universitário (RU) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), foi usada para gastos ligados a um estilo de vida incompatível com a reiterada inadimplência da Serví. 

“Eles vivem de ostentação”, comenta Fernando Costa, dono da Reserva Dois, que forneceu proteínas já a partir de fevereiro. A ele, a Serví deve R$ 528 mil. “Quando fui encontrá-lo, estava numa caminhonete preta com seguranças, disse que morava no Lago Sul e nos recebeu numa cobertura no Noroeste”, conta, assombrado. “Ele me procurou em fevereiro, explicou que não tinha caixa e que pagaria a cada 28 dias”, explica.

O normal, segundo ele, é que compradores paguem em períodos de 10 a 14 dias. Só que nem com o prazo dilatado o  dinheiro chegou. “Mandei as notas e ele disse que não tinha, pediu para mais prazo”, diz ele, que recebeu R$ 116 mil via PIX do próprio Cleyton no mesmo dia (20 de março) como abatimento de parte da dívida.

Cleyton e a Serví parecem conseguir driblar as restrições que naturalmente viriam para empresas mau pagadoras, como preveem não só os contratos de licitação, mas a própria legislação da área. Ele ainda possui acordo de R$ 40 milhões com o Ministério da Educação (MEC) que chegou a ser questionado na Câmara dos Deputados. E, segundo fontes, está em vias de assinar outro acordo com um clube recreativo famoso na capital. 

Reclamações

Nas redondezas do restaurante comunitário da Estrutural – o mais afetado pela gestão da Serví -, são frequentes as reclamações dos frequentadores. A unidade fica bem no centro da Região Administrativa, colada numa agência da Sedes, em um abrigo para pessoas em vulnerabilidade, próximo à biblioteca da RA. Alderico Miranda lembra da reinauguração do restaurante, em 26 de março. “Começou muito bem, a comida era muito boa, mas foi perdendo o sabor, caiu muito”, queixa-se. “Eles também limitaram o número de marmitas que pode pegar, então eu não posso ir lá e pegar para um amigo que está trabalhando”, reclama.

Warley Aguiar chegou à Estrutural há pouco tempo e passou um breve período na casa de acolhimento. É usuário assíduo do local, “café da manhã, almoço e jantar”, conforme diz. “A higiene para os trabalhadores é ruim. Eles ganham uma luva só [por dia] e ficam reutilizando”, diz, em nome de dois funcionários do restaurante que não quiseram falar, mas autorizaram que o relato fosse passado através dele. Aguiar também sentiu uma queda nas refeições: “eles começam a limitar a porção que colocam no prato de cada pessoa, acho que para durar mais”, relata.

Sem respostas

O Jornal de Brasília procurou a Sedes e questionou se houve algum alerta por parte de funcionários ou gestores; se estava ciente dos problemas de fornecimento nos restaurantes; se tinha conhecimento dos atrasos de pagamentos para os colaboradores; e se havia algum procedimento de apuração em andamento na pasta. Nenhuma das questões foi respondida. O espaço segue aberto. Cleyton não atendeu aos telefonemas e nem retornou às mensagens enviadas.

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF
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