Importadores europeus de carne de frango estão antecipando compras do Brasil diante da proximidade da entrada em vigor da restrição às exportações brasileiras, prevista para esta quinta-feira, 3, afirmou o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin. As vendas brasileiras à União Europeia (UE) cresceram 73% de janeiro a julho deste ano e, na avaliação do executivo, a antecipação reduz o risco de pressão imediata sobre os preços domésticos enquanto o mercado europeu permanecer fechado ao produto brasileiro.
“A indústria tem atendido o que os importadores da União Europeia estão comprando”, disse Santin.
Segundo ele, as compras europeias já vinham crescendo antes do anúncio da retirada do Brasil da lista de países autorizados a exportar carne de frango. O volume, que historicamente ficava entre 15 mil e 20 mil toneladas por mês, alcançou níveis acima de 30 mil toneladas mensais no primeiro semestre de 2026.
Em janeiro, foram cerca de 27 mil toneladas; em fevereiro e março, 30 mil toneladas em cada mês; e, em abril, 33 mil toneladas. Em maio, as vendas chegaram a 40 mil toneladas, recuaram para 28 mil toneladas em junho e somaram 36 mil toneladas em julho.
O executivo afirmou que o aumento da demanda europeia antecede a restrição e também está relacionado às dificuldades enfrentadas pela produção local, incluindo a influenza aviária e problemas climáticos que afetaram a oferta de grãos. A proximidade do bloqueio, porém, reforçou a antecipação das compras. “Se no dia 3 você não vai mais poder me vender, eu quero que você me venda mais agora”, relatou Santin, referindo-se ao comportamento dos importadores.
Na avaliação do presidente da ABPA, os dados indicam que compradores europeus formaram estoques para atravessar o período de interrupção das importações brasileiras. O movimento, segundo ele, também ajuda a explicar por que a indústria não deverá enfrentar excesso de produto no curto prazo. “Olhando os números, pode-se dizer que a Europa, de certa maneira, formou um pouco de estoque”, afirmou.
Santin destacou que o aumento das vendas à Europa não significou necessariamente crescimento da produção brasileira. Como os volumes destinados ao bloco ficaram acima da média histórica, parte da oferta foi deslocada de outros mercados. “Se eu atendi a Europa com mais, eu tive que tirar de algum lugar”, explicou.
Por isso, a eventual suspensão das compras europeias por um período curto tende a ser administrável, na avaliação do executivo. A indústria também não deve reduzir a produção imediatamente em resposta à restrição. Segundo Santin, as empresas mantêm o atendimento aos clientes europeus e os protocolos necessários para uma eventual retomada.
Santin não vê, neste momento, risco relevante de pressão sobre os preços domésticos em razão da suspensão das exportações para a UE. O presidente da ABPA ponderou, contudo, que a duração do bloqueio será determinante para os efeitos sobre o mercado. A Europa é um destino relevante para a proteína brasileira e, segundo Santin, tem papel importante na formação de preços e no consumo de produtos de maior valor agregado.
Enquanto os compradores antecipam volumes, a missão da UE que está no Brasil para avaliar os controles sanitários ainda não apresentou sinalização concreta sobre a retomada das exportações Segundo Santin, as empresas têm apresentado aos técnicos europeus os procedimentos de segregação e os controles relacionados ao uso de antimicrobianos. O executivo ressaltou que a missão está verificando a estrutura adicional de fiscalização implementada pelo governo brasileiro.
Santin afirmou que o setor já realizava a segregação dos lotes destinados à Europa antes da criação da camada adicional de fiscalização. Produtos que tivessem recebido determinados medicamentos, ainda que sem resíduos acima dos limites permitidos, já eram direcionados a outros mercados.
A missão teve atividades na quarta-feira, 2, incluindo visitas a plantas em Mato Grosso do Sul. Não há prazo definido para uma decisão da União Europeia. A retomada dependerá da análise dos dados coletados durante a missão e da decisão do bloco sobre a suficiência dos controles brasileiros.
A partir desta quinta, o Brasil não poderá mais certificar novos lotes destinados à UE enquanto a restrição estiver em vigor. Santin explicou, porém, que produtos certificados até esta quarta-feira ainda poderão ser embarcados posteriormente e chegar ao mercado europeu semanas depois.
O executivo ressaltou que a indústria está preparada para manter os protocolos exigidos pelo bloco durante o período de restrição Segundo ele, o setor já demonstrava, antes da medida, que os produtos destinados à Europa não recebiam antimicrobianos como promotores de crescimento e que havia controle sobre tratamentos terapêuticos incompatíveis com as regras europeias. “Hoje a indústria brasileira já tem condições de mandar um frango para a União Europeia com a certificação reforçada”, afirmou.