Por Thamires Pinheiro
Brasília costuma mudar de cor durante a seca. Aos poucos, as copas verdes dão lugar a cachos de flores amarelas, que aparecem em diferentes pontos do Distrito Federal e transformam ruas, gramados e avenidas em cenários que chamam a atenção de quem passa. A florada dos ipês-amarelos é uma das marcas mais conhecidas do período de estiagem na capital e pode se estender até setembro, dependendo da espécie.
As primeiras copas amarelas deste ano já foram observadas na L2 Norte, na altura da 402, e na área comercial da CLSW 302, no Sudoeste. Em outras regiões, como as quadras 216 e 404 da Asa Norte, além de trechos do Eixão e de parques urbanos, as flores também começam a aparecer. Boa parte das árvores, no entanto, ainda está sem flores, o que deve fazer com que a paisagem mude nas próximas semanas.
Segundo a Novacap, a floração dos ipês-amarelos está dentro do período esperado. O Distrito Federal possui duas espécies de ipês de flores amarelas. A Tabebuia serratifolia floresce entre julho e setembro, com a árvore totalmente desfolhada. Em alguns casos, a mesma planta pode apresentar mais de uma floração na estação, com intervalo de 10 a 15 dias. Os frutos amadurecem entre setembro e novembro, quando também surgem novas folhas.
Já a floração do chamado ipê-amarelo-peludo, a Tabebuia chrysotricha, ocorre principalmente entre julho e agosto. Os frutos amadurecem entre agosto e outubro.
A sequência de cores também acompanha um padrão observado no período de estiagem. De acordo com a Novacap, os ipês costumam florescer durante a seca, que tradicionalmente compreende os meses de junho a setembro na capital. Em geral, a florada começa pelos ipês-roxos, seguida pelos amarelos, rosas e brancos.
Uma árvore da seca
Apesar de parecer contraditório, é justamente durante o período de pouca chuva que os ipês ficam mais exuberantes. O efeito está relacionado à forma como essas árvores respondem às mudanças provocadas pela chegada da estação seca.
Em entrevista ao JBr, o biólogo e mestre em Ecologia pela Universidade de Brasília Vitor Sena explica que a floração faz parte do ciclo natural das espécies do Cerrado.
“A floração dos ipês está relacionada ao ciclo sazonal do Cerrado. Durante a estação seca, a redução da disponibilidade de água e a queda das folhas fazem parte dos sinais ambientais que antecedem a floração.”
O chamado estresse hídrico, provocado pela menor disponibilidade de água, funciona como um dos gatilhos para a mudança. Mas não é o único fator. A quantidade de luz recebida durante o dia, a temperatura e as características genéticas da própria árvore também participam desse processo.
“É como se o ipê tivesse um calendário interno que lê as mudanças da estação, determinado por fatores genéticos e ambientais. Quando as condições certas chegam, ele deixa de investir tanto em folhas e direciona recursos para a reprodução”, explica Sena.
A resposta também ajuda a entender por que uma árvore que parece perder força durante a seca pode, na verdade, estar entrando em um dos momentos mais importantes de seu ciclo.
Por que as folhas caem antes das flores?
Antes de aparecerem as flores amarelas, os ipês costumam ficar quase completamente sem folhas. A aparência pode dar a impressão de que a árvore está sofrendo com a falta de chuva, mas a queda também é uma estratégia de adaptação.
Com menos folhas, a árvore reduz a quantidade de água perdida para a atmosfera. Ao mesmo tempo, as flores ficam mais expostas, facilitando sua visualização e podendo favorecer a atração de polinizadores.
“É uma estratégia de adaptação à estação seca. Ao reduzir o número de folhas, a árvore diminui a perda de água por transpiração, justamente quando esse recurso está mais limitado. Além disso, quando as folhas caem, as flores ficam muito mais expostas e visíveis”, afirma o biólogo.
A Embrapa também registra a relação entre o período seco e mudanças fisiológicas observadas no ipê-amarelo, incluindo alterações na transpiração e em outros processos da planta sob condições de menor disponibilidade de água.
A quantidade de flores também não depende apenas de quanto tempo Brasília ficará sem chuva. Temperatura, duração da estiagem e ocorrência de chuvas fora do padrão podem interferir no momento e na intensidade da florada.
A quantidade de flores e o momento em que as árvores atingem o auge da floração dependem diretamente das condições climáticas e do nível de seca enfrentado pelos exemplares, explica a Novacap.
Por isso, uma mesma espécie pode apresentar diferenças de intensidade entre um ano e outro. O clima influencia o calendário natural das árvores, mas cada indivíduo também responde de acordo com suas próprias condições.
Brasília abre as portas para a florada
O espetáculo que hoje parece fazer parte da identidade da capital também tem relação com a própria história da arborização de Brasília. Os ipês são árvores nativas do Cerrado e foram amplamente utilizados no paisagismo urbano, passando a ocupar ruas, parques, praças e áreas verdes.
A Novacap é responsável pelo plantio e pela manutenção da arborização em áreas públicas do DF. A companhia, no entanto, esclarece que não possui atualmente uma equipe de botânica dedicada exclusivamente ao registro ou mapeamento do início da floração por Região Administrativa. Por isso, não é possível informar com precisão quantos ipês-amarelos existem atualmente em todo o Distrito Federal.
Um dado disponível, porém, mostra parte da presença dessas árvores na capital. Desde a criação do Programa de Arborização do Distrito Federal, em 2016, a Novacap plantou 10.764 mudas de ipês-amarelos até 2025, considerando as duas espécies encontradas no DF.
O número representa apenas as mudas plantadas pela companhia dentro do programa e portanto, não corresponde ao total de ipês-amarelos existentes atualmente na arborização do Distrito Federal.
Para Sena, a presença dos ipês também ajuda a aproximar os moradores do bioma que existe ao redor e dentro da própria cidade.
“Os ipês combinam duas características muito marcantes de Brasília, que são a paisagem urbana planejada e a presença do Cerrado.”
Segundo o biólogo, a árvore pode funcionar como uma porta de entrada para que a população conheça melhor a natureza do Distrito Federal. “A árvore florida desperta encantamento, mas também pode despertar curiosidade sobre o bioma, seus ciclos e sua biodiversidade.”
Onde ver os ipês-amarelos
Quem quiser acompanhar a florada pode encontrar árvores em diferentes regiões da capital. Entre os pontos que mais costumam concentrar exemplares estão os canteiros e vias arborizadas do Eixão Norte e Sul, as quadras 216 e 404 da Asa Norte, além de áreas do Parque da Cidade e do Parque Nacional de Brasília.
As entrequadras da Asa Norte e da Asa Sul também são opções para quem prefere observar as árvores durante uma caminhada. As primeiras flores deste ano já foram identificadas na L2 Norte, na altura da 402, e na CLSW 302, no Sudoeste.
A florada pode ser acompanhada ainda depois que as flores deixam as copas. Conforme elas caem, formam tapetes amarelos sobre calçadas e gramados, prolongando por alguns dias o espetáculo.