ARTUR BÚRIGO
O Governo de Minas Gerais tem apostado na limpeza de pichações e na retirada de veículos abandonados das ruas como parte de uma estratégia para reforçar a atuação do Estado em comunidades de Belo Horizonte marcadas pela disputa entre facções criminosas.
As medidas têm o objetivo de melhorar a percepção de segurança da população nesses locais e estão concentradas em operação no Aglomerado da Serra, a maior favela da capital mineira.
Ao lado do reforço policial e de apreensões, as medidas estão entre as prioridades da estratégia de segurança do governador Mateus Simões (PSD) no combate ao crime organizado. No entanto, elas são vistas com ressalvas por moradores e especialistas.
“As pichações são uma forma de elas [facções] apresentarem à comunidade a sua presença, impondo medo para aqueles que passam por ruas que estão pichadas”, disse o governador na última segunda-feira (1º).
Presidente da associação de moradores do Aglomerado, Kika da Serra diz que a maior presença policial no local gera sensação de segurança aos moradores, mas questiona a maneira como as pichações são removidas.
“Um muro nosso da associação é pintado de verde, alguém foi lá e pichou ele. Eles [agentes] vão lá e pintam metade do muro com uma tinta branca [para apagar a pichação]”, afirma.
“Acho que deveria ter outra forma de fazer. O governo poderia lançar um projeto para que apagassem essas pichações, mas que fizesse uma coisa bacana também, da comunidade”, diz ela.
Procurado, o Governo de Minas disse que a ação é realizada para retirar símbolos e siglas de facções criminosas, como forma de preservar os territórios da influência do crime organizado.
A gestão afirmou que a Polícia Militar acompanhou a remoção de 89 veículos e a limpeza de 192 pontos de pichação, de janeiro até agora, no Aglomerado da Serra.
A principal favela de BH se tornou um dos principais alvos da disputa entre facções no ano passado. Os confrontos envolvem membros da facção paulista PCC (Primeiro Comando da Capital), aliados do CV (Comando Vermelho) e integrantes do TCP (Terceiro Comando Puro) as duas últimas com origem no Rio.
A escalada da disputa ocorre em um momento em que Belo Horizonte e Minas Gerais ganham importância para a logística das facções criminosas, que usam o estado para transportar drogas e armas pelo território brasileiro.
Desde o aumento dos confrontos, a presença policial cresceu nas comunidades da capital, afirmam autoridades e moradores.
Kika diz ter aumentado também neste período os relatos de opressão policial na abordagem a moradores, principalmente menores de 18 anos. Ela afirma que os jovens relatam um suposto preconceito dos policiais contra quem anda nas ruas com camisas de time e bermudas de tactel.
“Muitas vezes as abordagens são muito agressivas, deixam traumas. Às vezes o jovem tem medo até de sair na rua. Há prós e contras [sobre a maior presença policial], mas eu acho que, no geral, tem muito mais a favor”, diz a presidente da associação.
A Folha de S.Paulo questionou a gestão estadual sobre que medidas adota para coibir procedimentos policiais que fogem do protocolo, principalmente no Aglomerado, mas não recebeu resposta.
A retirada de veículos abandonados é elogiada por moradores e apontada pelas autoridades como forma de evitar possíveis esconderijos para drogas e armas, além de reduzir riscos à saúde pública.
A professora Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, da UFMG, que pesquisa políticas de segurança pública, diz que as estratégias do governo resgatam experimentos aplicados nos anos 1980 nos Estados Unidos.
Ela cita a teoria das janelas quebradas, formulada pelos pesquisadores americanos James Q. Wilson e George L. Kelling em artigo publicado na revista americana The Atlantic em 1982.
A ideia é que sinais de desordem, como prédios abandonados, janelas quebradas ou pichações, transmitem a percepção de abandono e reduzem o custo social para a prática de novos crimes.
Para a pesquisadora, essas estratégias funcionam mais para ampliar a percepção de segurança da população do que para combater efetivamente as facções.
“Mateus Simões fez uma escolha pelo policiamento ostensivo, manutenção da ordem, que é muito importante para as pessoas confiarem mais na polícia. Mas eu diria que falta uma segunda dimensão.”
Para ela, o estado ainda falha na área de inteligência, ao não conseguir enfraquecer financeiramente as facções nem impedir a entrada de drogas e armas pelas divisas do território.